Grandes Nomes da Ciência: Dorothy Hodgkin

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Uma Máquina de Fazer Chuva

Os brilhantes cabelos são afastados, para que um par de olhos possam ver. A maravilha está à sua frente, em estado natural, mas a verdadeira beleza não é facilmente vista, ainda mais por olhos destreinados. E quando a maravilha foi levada à máquina, um mundo se descortinou frente aos olhos doces da mulher que observava.

A maravilha observada pela mulher foi tanta que ela ganhou um prêmio. O prêmio era o Nobel e a mulher era Dorothy Hodgkin.

Nasceu aos 12 dias de maio, do ano de 1912 o lindo bebê que seria batizado Dorothy Mary Crowfoot, no Cairo, Egito. Menina Dorothy era filha de dois arqueólogos, o John Winter Crowfoot Grace Mary Crowfoot née Hood. O ano não era muito propício para nada, já que estava à beira da I Guerra Mundial, mas ninguém sabia disso ainda. Só quando a guerra explodiu é que os pais a mandaram para a Inglaterra. para ficar aos cuidados de amigos. Papai e mamãe só saíram do Cairo depois de terminada a Guerra.

Dorothy teve uma genuína educação inglesa, voltada para alguém de sua estirpe. Ela foi inicialmente educada pela mãe, mas aos 9 anos foi matriculada na Sir John Leman Grammar School. Estamos, entretanto, na Inglaterra do início do século XX, onde lindas moças eram preparadas para serem donas de casa, para lavar, passar, cuidar da casa e concordar com tudo o que o marido dissesse. Dorothy não teve aulas de latim e muito menos de Ciência. No máximo, conseguiu permissão de assistir algumas aulas na turma dos meninos com outra menina, Norah Pusey. Nesse meio tempo, os pais então ralaram peito para Cartum, na República do Sudão, fazer deus-sabe-o-que.

Dorothy decidiu estudar Química e, possivelmente, Bioquímica na Universidade. Só que para entrar em Oxford não tinha esse negócio de cotas ou afrodescendente. Dessa forma, ela teve que ter aulas particulares, e assim mesmo ela não foi exatamente para Oxford, e sim para a Sommerville College, a parte de Oxford reservada para as mulheres, já que elas não poderiam ir estudar com os homens, para não ofendê-los.

No Somerville College, Dorothy estudou Física e Química e escolheu para fazer seu projeto de pesquisa do quarto ano em cristalografia de raios- X . Ela tinha que cristalizar a substância em estudo, disparar feixes de raios-X no cristal, e, em seguida, estudar a forma como os raios-X foram difratados para fora dos planos da estrutura do cristal.

Complicado? Não, não é. Pense na radiografia do seu osso. Os raios-X "iluminam" o osso e sensibilizam o papel fotográfico, em que a estrutura do osso impedia. O que vemos, então, é a "sombra", com os mínimos detalhes, sejam fraturas, fissuras etc.

Na Física e na Química, a difração de raios -X é usada para estudar a composição das substâncias cristalinas. Os padrões feitos por raios-X difratados por cristais podem identificar o elemento ou composto. Métodos semelhantes de difração também são utilizados para os pós que contêm um pouco de uma estrutura regular. Ele nos mostra como o retículo cristalino de uma substância é em seu mundo microscópico, o que ajuda a prever propriedades físicas e químicas. Um exemplo é o cristal de tungstênio, cujo retículo pode ser visto com o auxílio do raio-X:

A cristalografia de raios –X para análise de substâncias ainda estava engatinhando, mas Dorothy decidiu que era aquilo que queria fazer da sua vida acadêmica. Após a formatura , ela estudou na Universidade de Cambridge com John Desmond Bernal, usando a cristalografia de raios-X para determinar a estrutura tridimensional de várias moléculas orgânicas complexas importantes para o funcionamento dos organismos vivos. Aos 24 anos, Miss Crowfort foi se consultar por causa de fortes dores nas mãos e se descobriu com artrite reumatoide. Longe de se tornar uma velha cata, reclamando de tudo, Dorohthy continuou com seu trabalho acadêmico, mesmo indo trabalhar muitas vezes de cadeira de rodas..

Em 1937, Dorothy Mary Crowfoot, recebeu seu doutorado em Química em Cambridge, e no mesmo ano casou-se com Thomas L. Hodgkin, que se tornou uma autoridade em História Africana. Com ele, ela teve 3 filhos: Lucas, Elizabeth e Toby.

Dorothy Hodgkin, que ainda usava o nome de solteira,  apresentou um importante trabalho na Royal Society, em 1938, grávida de oito meses. Segundo um dos seus colaboradores de longo prazo, o ganhador do Prêmio Nobel Max Perutz, "Dorothy apresentou-se na palestra nesse estado, como se fosse a coisa mais natural do mundo , sem qualquer pretensão de tentar ser pouco convencional, o que certamente foi na época."

Na década de 1940, Dorothy Hodgkin teve muitos alunos, mas nenhum deles seria como uma tal senhorita chamada Margaret Roberts, cujo nome pode não lhe recordar muita coisa. Talvez seu nome de casada sim: Margaret Thatcher, que se tornou Primeira Ministra da Inglaterra, e manteve um retrato de Dorothy Hodgkin em Downing Street 10, a residência oficial do Primeiro Ministro.

Suas pesquisas sobre a penicilina começaram em 1942, durante a 2ª Guerra Mundial, e em vitamina B12, em 1948. Seu grupo de pesquisa cresceu lentamente e sempre foi uma organização um pouco casual de estudantes e visitantes de várias universidades, trabalhando principalmente na análise de raios-X de produtos naturais.

Dorothy Hodgkin participou no que acarretaria na fundação da União Internacional de Cristalografia e visitou para fins científicos, muitos países, incluindo a China, os EUA e a URSS.

Em 1964, Dorothy Hodgkin foi agraciada com o Prêmio Nobel de Química, por ter determinado a estrutura cristalina da penicilina. Foi a terceira mulher a ganhar um prêmio Nobel, depois de Madame Curie e sua filha Irene Joliot-Curie Em 1965, Dorothy Hodgkin foi a segunda mulher a receber o prêmio da Ordem do Mérito. A primeira foi Florence Nightingale.

A descoberta da estrutura da penicilina pode parecer pouco, uma brincadeira de Lego com moléculas, mas é bem mais que isso. Entendendo sua estrutura, pode-se prever todas as suas propriedades e, melhor que isso, pesquisar sua síntese e outras substâncias semelhantes e mais eficazes. Porque Ciência não é apenas entender o mundo, é tentar melhorá-lo, levando essa melhora a todas as pessoas.

Com os trabalhos de Dorothy Hodgkin, outra mulher avançaria o conhecimento científico, apesar de não ter tido o reconhecimento que merecia em sua época. Eu não diria que sem os trabalhos de Mrs. Hodgkin, os trabalhos com a difração de raio-X parassem, mas com certeza ficaram melhores e mais precisos; e foi graças a isso que Rosalind Franklin pôde descobrir a estrutura do DNA.

A imprensa, como sempre, detesta ciência. Daily Telegraph, numa grande demonstração de respeito e reconhecimento do trabalho de Dorothy Hodgkin escreveu na manchete: "Mulher Britânica ganha prêmio Nobel – 18.750 libras de prêmio para mãe de 3." Já o Daily Mail já era o Daily Mail quando soltou: "Dona-de-Casa de Oxford ganha o Nobel". As tartarugas estavam a todo vapor naquele dia, tentando costurar. Para os cientistas, Dorothy Hodgkin era uma Deusa.

Este ano, comemora-se o 50º aniversário do prêmio recebido por Dorothy Hodgkin. Com isso, 2014 foi escolhido para ser o Ano da Cristalografia. Mas é uma pena que Dorothy não poderá participar da festa. A brilhante drª Dorothy Hodgkin faleceu aos 29 dias de julho do triste ano de 1994, quando cada microcristal verteu uma lágrima, pois sua mãe tinha morrido.

Dorothy Hodgkin é um exemplo para todas as mulheres marginalizadas. Ela não foi reconhecida pela imprensa, mas o que jornalista entende disso? E mesmo assim, Dorothy não precisou de cotas, não precisou de benesses, não precisou de assistencialismo. Contou apenas com o seu talento.

Hoje em dia, no mundo todo, milhões de cientistas, pesquisadores, mulheres que fazem a diferença diariamente, estão contentes por saberem que fazem deste, um mundo melhor. Todas descendentes do legado de Dorothy Hodgkin, um dos Grandes Nomes da Ciência.

Em seus laboratórios, envergando um jaleco, elas batem os calcanhares e dizem "não há lugar como este, que é o nosso lar".

Educação Brasileira FTW! Até a UNESCO sabe que o Ensino aqui é ruim
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Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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  • maurelio

    Para quem não sabe, o laboratório Nacional de luz sincroton LNLS em Campinas é um grande centro de aplicação das técnicas cristalográficas. Inclusive agora está sendo ampliado com mais um anel acelerador. É um dos locais onde foi feito o filme O Homem do Futuro. É muito legal lá por dentro e recebe excursões de muitas escolas. A construção desse laboratório é uma façanha para o Brasil dada a complexidade de funcionamento e o valor das pessoas que lá trabalham.
    André, saí um pouco do tema mas foi por uma boa causa. Segue com sugestão de tema caso ainda não tenha falado sobre isso. Não fucei se tal artigo tenha sido feito.

  • Ou seja, a diferença entre um jornalista e outro é o endereço e a época.