Grandes Nomes da Ciência: Henrietta Lacks

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A mulher no leito do hospital está em seus últimos momentos. Ela chega ao fim, totalmente anônima. É apenas mais uma mulher negra e ninguém dá bola para mais uma mulher negra enferma, pois estamos falando dos Estados Unidos na década de 1950. Mas aquela mulher será especial e todos os cientistas a conhecerão. Ela ajudará a milhões de pesquisas no mundo todo, terá participação ativa na descoberta de remédios, vacinas e até mesmo no programa espacial. Aquela mulher que dentro de poucos minutos encontrará os braços da morte será a responsável por muitos abraçarem a vida, pois suas células viveram por décadas e mais décadas, pois Henrietta Lacks não é nem foi um personagem de quadrinhos, mas suas células são imortais.

A felicidade chegou para Johnny e Eliza Pleasant em 1º de agosto de 1920, em Roanoke, Virginia. Eles tinham o orgulho nada questionável de serem negros, mas a parte em que sua família vinha tradicionalmente de escravos não parece ser algo que gostassem de lembrar. Os pais batizaram a menina com o nome de Loretta Pleasant. Infelizmente, a mãe de Loretta faleceu em 1924, durante o parto de seu décimo filho.

O pai enlutado saiu de Roanoke e se mudou para Clover, no mesmo estado. Não era lá muito melhor que Roanoke, mas qualquer melhora é uma melhora. Como fica difícil de cuidar de 10 crianças sozinho, Johnny distribuiu as crianças em várias casas e ele não será mais mencionado nesta história.

Loretta foi morar com seus tios, junto com o filho deles, Daniel "Day" Lacks,.quando Loretta tinha 9 anos. Aos 14 anos, Loretta dá à luz seu primeiro filho: Lawrence Lacks. Em 1939, Elsie Lacks nasceu e em 1941, Loretta desposa (ainda se usa este termo?) Daniel Lacks, assumindo o nome de Henrietta Lacks.

Em 1943, Henrietta e David Lacks mudaram-se da Virgínia, para um gueto na cidade de Baltimore. Seria como sair do interiorzão do Ceará e ir morar numa favela do Rio de Janeiro. Não era lá muito diferente, mas com melhores oportunidades de trabalho, já que ficar plantando tabaco não é algo que você queira ficar fazendo pelo resto da vida, ainda mais que estamos falando da Virgínia, onde houve abolição da escravatura, mas os negros ainda trabalhavam como se fossem escravos. E você aí reclamando de racismo, só porque te chamaram de "negão" ou "Grande Pássaro" numa roda de bar.

Em 1950, Henrietta deu à luz ao quinto filho (já que nem todo mundo tinha TV em casa). dali a alguns meses ficou-sabendo de algo que mudaria a vida de Henrietta e a de milhões de pessoas em todo mundo: Henrietta tinha um caroço dentro dela, bem em cima do útero e sentido uma dor do inferno, afinal a Natureza é boazinha e ética.

Ao ser examinada, o horror o horror: Henrietta Lacks tinha câncer. O caranguejo do mal veio que nem zagueiro de time de futebol de várzea. Os médicos descobriram que se tratava de um tumor cervical câncer no colo do útero e Henrietta estava condenada. Ela ainda fez um tratamento com rádio (o elemento químico e não ficar ouvindo a Voz do Brasil… ou Voz da América, tanto faz).

Agora, vem a parte antiética.

Um dos médicos (na verdade, um residente, que não passa de um nome chique para "estagiário de medicina") enviou células coletadas para um pesquisador chamado George Otto Gey, chefe do departamento de cultura celular da Universidade Johns Hopkins, em cujo hospital Henrietta estava internada, mas não pediram permissão a Henrietta. Eu até penso que eles fizeram com a melhor das intenções, mas sabemos muito bem onde elas podem ser encontradas em abundância. Isso é o principal tema que devemos abordar quando falamos de ética médica e científica. Ter material para estudar é fantástico e só quem trabalhou com pesquisa sabe das dificuldades; entretanto, pedir uma simples autorização não dói. Não se pode praticar Ciência na base do "Os fins justificam os meios". Isso é lindo em séries de TV, mas na vida real não funciona.

O dr. Gey (sim, pronuncia-se da forma que você está pensando) e sua mulher buscavam uma ferramenta para entender o mecanismo do câncer, mas o problema é que as células não sobreviviam muito tempo para serem analisadas a fundo. Então, chegou a maravilha em suas mãos: as células de Henrietta Lacks, que no futuro seriam conhecidas como células HeLa. O diferencial estava na estrutura dos cromossomos das células HeLa, em especial, seus telômeros

Telômeros são estruturas constituídas por fileiras repetitivas de proteínas e DNA não codificante; eles não codificam nenhuma proteína.Está lá, paradões… ou quase. Eles formam as extremidades dos cromossomos, mantendo a estabilidade estrutural do cromossomo. Com sucessivas reproduções das células, esses telômeros vão "encurtando", diminuindo a estabilidade da célula. Em outras palavras, com a degradação, não há reprodução eficiente das células e é por isso que a gente envelhece. Maiores informações sobre telômeros na sua wikipédia favorita.

Henrietta Lacks faleceu aos 4 dias do mês de outubro de 1951, mas suas células estão vivas até hoje… bem, para falar a verdade, não são suas, suas células. São filhas das filhas das filhas (…) das filhas das células HeLa originais, com seus telômeros ainda se mantendo intactos, mesmo depois de tantas reproduções.

As células HeLa ajudaram muitas pesquisas. Graças a elas, Jonas Salk foi capaz de inventar a primeira vacina efetiva contra a poliomielite. Elas serviram até para estudar o efeito da radiação sobre o DNA, estando no Espaço (PDF). Para tanto, levaram as células HeLa para a estação espacial Mir e em ônibus espaciais para testar o que acontece com o DNA no ambiente de microgravidade e sem a atmosfera para servir de filtro.

Mas grandes poderes requerem grandes responsabilidades. As células HeLa cresciam sem controle, "infectando" amostras em todos os laboratórios do mundo. O que teria sido considerado uma dádiva agora estava totalmente sem controle. O gênio saíra da garrafa e estava incontrolável. Pelo fato das células HeLa crescerem de forma tão incrivelmente rápida, acabou se tornando um câncer (se me perdoam o trocadilho) foram introduzidas acidentalmente em várias outros meios de culturas, provavelmente manipuladas por algum incompetente. Foi assim que eles entraram as culturas soviéticas e em muitos dos tipos de células mais amplamente utilizados em pesquisas nos Estados Unidos, fazendo o favor de arruinar pesquisas científicas extremamente caras.

Vingança de Henrietta do além-túmulo? Não, incompetência, mesmo.

Foi o dr. Walter Rees quem meteu o calcanhar no pé ferido. Ele apontou que muitas amostras de células  de indivíduos caucasianos apresentavam uma variação de uma enzima que só era encontrada numa pequena população de afro-americanos, da qual Henrietta fazia parte. Walter mandou quente em vários artigos na década de 1970 acusando a irresponsabilidade com o uso das células HeLa. Ganhou de presente vários xingamentos e até ameaças, já que mesmo cientistas são humanos e tendem a ser arrogantes e com o chamado "Complexo de Deus".

Em 1981, Walter se cansou daquele bando de idiotas e montou uma galeria de arte (sim, eu pensei a mesma coisa) largando pra lá a carreira científica, mas isso espalhou igual rastilho de pólvora e hoje as pesquisas com as células HeLa são feitas com muito maior controle.

Mas… e Henrietta?

Ela não ficou famosa em sua época e todas as homenagens só vieram muito depois. Em 2011, Henrietta Lacks recebeu um título honorário (obviamente, póstumo) por sua participação involuntária de pesquisas médicas. Na verdade, suas células formaram uma legião de pesquisadores, e todos – sim, Brasil, inclusive – devem seus diplomas e títulos a uma mulher pobre vinda do interior dos EUA, oriunda de uma família de escravos. Hoje, quem quiser usar as células HeLa, terão que pedir autorização aos descendentes.

Henrietta Lacks repousa em Clover, Virgínia. Ela recebeu uma lápide em formato de um livro, com uma homenagem. Talvez, seja pouco frente a tudo que se descobriu graças às suas células.

O importante é tirarmos uma lição. A lição que não basta uma boa intenção, devemos guardar para nós que há formas e formas de se fazer Ciência. A lápide em forma de livro deveria ser lido de uma forma reflexiva, onde devemos entender que lidamos com pessoas, em prol de pessoas. Por isso os comitês de ética são tão importantes. Quem fiscaliza os cientistas? Os próprios cientistas, com sua visão cética sobre tudo, inclusive sobre o que é uma forma de avançar a ciência e trazer benefícios para nosso futuro.

Este é o ensinamento que, mesmo sem querer, Henrietta Lacks nos traz. Tão sem querer quanto suas células tão importantes para a Ciência.

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Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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  • Magno

    Tem um pequeno erro no seu texto. No livro “A vida Imortal de Henrietta Lacks” eles traduzem erroneamente “Cervix Cancer” (Câncer no Cérvix, ou Colo do Útero) como “Câncer Cervical” (que remete a pescoço ou à coluna cervical).

    Assim, você escreve “tumor cervical”, lá pelo 7º parágrafo.

    Administrador André respondeu:

    Opa, valeu!