Grandes Nomes da Ciência: Steve Wozniak

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Seita tosca mantinha crianças embaixo da terra, mas religião é coisa boa

O rapaz está sentado à frente do homem poderoso. O homem o olha de alto a baixo, sem falar muito. O rapaz tem à sua frente uma quinquilharia, e o homem poderoso o olha com desdém. O rapaz olha pra quinquilharia com amor, pois fora ele quem o criou, era seu filho. E o Filho daria mais filhos até povoar todo o planeta e até outros planetas. O que o homem poderoso falaria a seguir selaria o destino de bilhões de pessoas em todo mundo, e sua resposta foi um "não". Algo a se comemorar. O rapaz pegou seu filho e foi embora e se você está lendo este texto aí em casa, foi por causa deste "Não", pois o rapaz era Steve Wozniak, o Pai da Microcomputação e a quinquilharia seria o pai de todos os computadores pessoais.

Na Era do Byte Lascado, quando o máximo que as pessoas pensavam sobre computadores era nas histórias de Flash Gordon, Perry Rhodan e a Santíssima Trindade FC: Asimov-Clarke-Bradbury (com eles, a Oração e a Paz). Computadores eram coisas complicadas, gigantes e incompreendidas (hoje as pessoas em geral não os veem mais como coisas gigantes).

John Draper era filho de um engenheiro da Força Aérea dos Estados Unidos. Assim como seu pai, Draper também ingressou para a Força Aérea e foi enviado para o Alasca, o que deve deixar muita gente feliz. Lá, ele descobriu que os apitos que vinha no cereal Cap’n Crunch emitiam um tom a a 2600 Hz, que era a frequência que era usado pela operadora telefônica AT&T usava para indicar que uma linha telefônica estava pronta e disponível para dirigir uma nova chamada. Assim, podia-se fazer uma chamada para qualquer lugar, sem gastar nenhum centavo. Draper ficou conhecido como Capitão Crunch por causa disso e criou dispositivos que imitavam o som com esta mesma frequência, e este dispositivo ficou conhecido como caixas azuis (blue box).

Só que Draper não faria história nesse sentido. Ele foi pego em 1972, pois nos EUA o conceito de dar uma volta no capitalismo é coisa séria, e ele teve que ficar 5 anos de molho. Sua façanha saiu na revista Esquire, que foi lida por Steve Wozniak.

Stephen Gary Wozniak nasceu em 11 de agosto (sim, é "niver" dele hoje) de 1950. Ele não era, digamos, o que pode ser chamado de "inteligente", já que com 11 anos ele construiria sua própria estação de radio-amador e com 13 anos era presidente do clube de eletrônica de seu colégio, para depois construir o que seria o embrião de um computador pessoal. Isso não é ser inteligente. Eu sou inteligente. Woz, como normalmente ele é chamado, mostrou que ali estava o alvorecer de um gênio.

Dar peças eletrônicas para Woz era o mesmo que dar ao jovem Vivaldi um violino. E Woz fez a sua sinfonia.

Woz ajudou Draper a construir as caixas azuis e ganhou um dinheirinho legal com elas, até que conheceu, em 1975, Steve Jobs. Juntos eles tiveram a ideia (mas a realização foi de Woz) de um computador pessoal. Havia o Altair, que era uma caixa esquisita com luzinhas acendendo e apagando. O que havia ali era algo mais. Enquanto Steve Jobs vendeu seu volks, Woz vendeu sua calculadora HP, para juntos se lançarem num projeto. Que projeto era esse? Bem, deem uma olhadinha nele:

Esta tranqueira é o Apple 1. Só tinha um detalhe: na época, Woz trabalhava na Hewlett-Packard, e seu contrato deixava explícito que qualquer invenção dele deveria ser mostrado aos executivos da HP. Jobs teve um ataque de pelanca, mas contrato é contrato. Quando Woz estava de frente para um executivo e este viu… bem, viu o que tem aí na foto, ele soltou a memorável frase "Steve, you say that this… gadget… of yours is for ordinary people. What on earth would ordinary people want with computers?" (Steve, você diz que este… aparelho… é para pessoas comuns. O que diabos uma pessoa comum iria querer com computadores?).

É… praticamente nada. Desde acessar praticamente todo o conteúdo das bibliotecas do mundo, falar com pessoas como se estivessem na sua frente, estando a milhares de quilômetros de distância, poder acompanhar sondas da NASA, ver como está o tempo em Dehli, trocar mensagens com cientistas do mundo todo, reencontrar amigos há muito tempo distantes, ver em tempo real o que está se desenrolando no outro lado do mundo, escrever, refletir, jogar, e xingar muito no Twitter (acho que Woz não pensou em todas essas coisas), o microcomputador veio como amigo, companheiro de trabalho, calculador, desenhista etc. Não estamos mais sozinhos, como a própria Susan Calvin poderia se referir, apesar de ela estar pensando nos robôs, mas até estes têm que ser encarados como máquina calculadora ou, como era dito na década de 70: cérebro eletrônico, mesmo quando seus processadores eram bem mais simples e não de uma liga de platinirídio.

Steve Wozniak não inventou o computador. Antigos gregos já tinham. Não inventou o compilador, Ada Lovelace já tinha. Não quebrou códigos, Alan Turing fazia isso enquanto tomava chá e lia o London Times. Ele simplesmente fez tudo ser mais fácil. Os Computadores Pessoais (Personal Computers, PC) vieram nos trazer a luz; a mesma luz fornecida pelo fogo, que foi-nos dado de presente por Prometeu. Woz é o Prometeu dos tempos modernos, e assim como este foi punido por Zeus, Woz teve seus dissabores com o próprio Steve Jobs.

A História mudou quando uma caixa de madeira, recheada por entranhas estranhas, foi posta numa mesa com ar-condicionado. a recusa mudou o mundo, se para melhor ou pior, é difícil dizer. Só se sabe que o que temos hoje é graças a Steve Wozniak, um sujeito boa praça, com cara de tio de churrasco.

Amanhã, silenciosamente, todos os computadores, seja o melhor PC feito para games, até o seu positivão aí, desde uma calculadora até um mainframe, enviarão um bit de parabéns em homenagem pelo Dia dos Pais a Steve Wozniak, um dos Grandes Nomes da Ciência.

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Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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  • BlackPardal

    Vou acender uma velinha pro tio Woz.

  • queiroz

    Um bit de homenagem? O meu pc está liberado para mandar o quanto quiser enquanto eu não estiver olhando! Meu tablete e minhas consolas de video-jogos também!

    Fico me perguntando se há alguém que está hoje criando algo que moldará o futuro em mesma amplitude, e que será lembrado daqui a uns 30-35 anos com todo o respeito que temos pelo tio Woz, ou se a era dos grandes terminou para dar lugar ao esforço coletivo (eu quero acreditar).

  • reinaldo

    “um sujeito boa praça, com cara de tio de churrasco.”
    Ri muito com essa comparação! Mas olhando a foto da matéria é mesmo mais fácil imaginar o cara pilotando uma picanha na brasa do que um circuito impresso.

  • Esse sim é aquele típico nerd. Li sobre ele mais na biografia do Steve Jobs. Sem ele o Steve Jobs certamente não seria o bilionário que foi, apesar de ser um gênio também. E o Tio Woz sem o Jobs? Ora, ele continuaria sendo o Tio Woz. Um gênio da engenharia de sistemas.