Grandes Nomes da Ciência: Geoffrey Pyke

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Algumas pessoas são ímpares. Difícil rotulá-las como cientistas, mas sem poder dizer que eram perfeitos idiotas, mesmo quando suas ideias causem estranheza em determinado momento, seja vista como funcional em certo momento e abandonado já fim da implementação. Uma figura pitoresca desse calibre foi Geoffrey Pyke, o intelectual que idealizou novos materiais de construção, novas técnicas, novos veículos e, pasmem, um porta-aviões totalmente de gelo!

Geoffrey Nathaniel Joseph Pyke era uma figura estranha. Era jornalista e pedagogo, duas profissões que estão fadadas a terem tanto sucesso em Ciência & Tecnologia, quanto o mito da tartaruga que queria ir na festa do Céu. Ele nasceu em 9 de novembro de 1893 e sua aparência mais estava relacionada com cientistas de gibi que com pedagogo metido a inventor. Se você é velho como eu, você vai se lembrar do dr. Zarkov. Se é mais novo, será mais fácil você se lembrar do dr. Gordon Freeman.

Pyke não devia ser adepto de violência, não caçava aliens, nem saía dando tiro por aí. Logo, a melhor associação dele é com o dr. Zarkov mesmo (sim, eu gosto de Flash Gordon. Não, aquele filme de 1980 não era bom. Sim, a música do filme era do Queen, e Queen manda bem em qualquer filme. Não, não continuarei desviando de assunto).

Pyke era um bom inventor e criou o chamado "Pykrete". O pykrete era algo muito complicado, que só gente muitíssimo especializada seria capaz de fazer em seus caríssimos laboratórios: gelo misturado com serragem. Bem, para falar a verdade, não era gelo, gelo. A mistura era de água e serragem (14% de serragem e o restante de água líquida). Esta mistura era homogeneizada e congelada o mais rápido possível, para evitar que a serragem ficasse sobrenadante. Daí resultava um compósito duro e com baixa taxa de fusão. Por quê? Porque água é péssimo condutor de calor, assim como  a própria madeira.

Mas isso só aconteceria bem depois. Pyke ficou órfão aos 5 anos, com uma mãe surtada que o chutou para um colégio público em Wellington, o que não é tão ruim quanto você possa imaginar, pois estamos falando da Inglaterra, onde filhos de nobres estudam em escolas públicas. O colégio para onde o menino Geoffrey fora era frequentado por filhos de oficiais do Exército. Ah, sim! Ia esquecendo! O jovem menino Pyke era judeu ortodoxom, com direito a peyots e roupa preta fechada. Obviamente, ele não fez sucesso entre os outros meninos (nem mesmo para a direção da escola). Saiu de lá 2 anos depois, ficou tendo aulas particulares e depois foi parar na Universidade de Pembroke, para estudar Advocacia.

Durante a Primeira Guerra Mundial, Pyke deu um cano nos estudos e ralou peito para ser correspondente de guerra. Ele convenceu o editor do Daily Chronicle para mandá-lo a Berlim, com o passaporte obtido a partir de um marinheiro americano. Eu fico imaginando duas possibilidades para este êxito: 1) Pyke era muito bom de lábia ; 2) Ninguém queria ir se arriscar lá, só ele. Na Alemanha, Pyke conversava com os alemães e viu que a vida lá não era tão sinistra quanto a imprensa britânica pintava. Ele começou a desenvolver antipatia pelo Capitalismo.

Pyke podia ser muito bom de conversa para os ingleses, mas os chucrutes não caíram tão fácil assim. Depois de 6 dias ficando de trololó na Alemanha, o exército alemão prendeu-o, recolheu cartas nada abonadoras sobre sua conduta e ele foi jogado numa cela pequena. Tão pequena que não deu nem pra ver a Rainha Vitória nascer quadrada (como se isso fosse possível, dado seu diâmetro).

Pyke já estava em dúvida quando iam trazê-lo pra fora e mandá-lo ir conversar com Henrique VIII. Enquanto isso não acontecia, Pyke continuava no xilindró, não muito bem tratado, já que ninguém condenado por espionagem ganha simpatias. Ele só pensava e pensava. Pensava na fome que sentia enquanto outros se banqueteavam. Pensava na liberdade que ele não tinha mais e na liberdade dos outros que era ceifada por um sistema. Pyke começava a tender mais para o lado vermelho da Força.

Pyke foi mantido solitário. Era proibido para ele falar com outras pessoas, seja preso ou guarda. Ele pediu livros e foi atendido, onde ele os recitava em voz alta à noite. Cada vez mais, o comportamento de Pyke estava estranho e as pessoas preferiram ignorá-lo, em que ele percebeu que a única chance dele seria bancar o maluco (não que faltasse muito pra isso, é claro).

Geoffrey Pyke passou as semanas seguintes pulando de prisão em prisão. Conseguiu trocar ideias com outros presos, soube das histórias que circulavam sobre as prisões onde esteve e acabou indo parar num campo de internamento em Ruhleben, onde tinha outros prisioneiros graduados em Oxford e Cambridge, de quem ele ganhou novas roupas. Mesmo porque, ali funcionava um muito eficiente mercado negro. Entretanto, na primeira oportunidade ele conseguiu fugir. Pyke foi ver seu editor e, decepcionado, disse que sua missão falhara, mas o editor estava radiante. As histórias da fuga de Pyke impressionaram muita gente. Pyke largou o jornalismo e passou a viver de palestras contando as suas aventuras.

Como ele ainda estava apto para o serviço militar, ele teve que se apresentar a uma junta de alistamento, mas conseguiu escapar de ser convocado. Assim, ele se dedicou a escrever um livro: To Ruhleben – And Back.

Durante a 2ª Guerra Mundial, Pyke voltou sua mente para problemas de uma guerra moderna (moderna para sua época, claro). Ele idealizou uma rede de balões fixos, com microfones presos a fim de captar aeronaves inimigas. Infelizmente, um sistema de defesa baseado em radares, tendo um técnico que gostava de escrever ficção científica, acabou deixando a ideia de Pyke obsoleta antes mesmo de sair do papel.

Com a invasão da Noruega, Pyke pensou em como resolver o problema de transporte de soldados rapidamente sobre a neve. Dessa forma, ele propôs o desenvolvimento de um veículo que se movimentava com uma base com a forma de um parafuso e não rodas, que foi rejeitado inicialmente, mas quando Louis Mountbatten assumiu o cargo de Chefe de Operações Combinadas, ele lotou o departamento com jovens criativos e com talentos e ideias incomuns. Mountbatten aprovou o veículo desenhado por Pyke, mas depois o respectivo veículo foi substituído por outro, canadense, baseado em lagartas.

Pelos idos de 1942, os aliados tinham o problema de navios que circulavam no Ártico, por causa da quantidade de gelo rolando pra lá e pra cá. Pyke, pelo visto, adorava escrever e vivia atulhando Mountbatten com memorandos e mais memorandos com suas ideias. Um deles era exatamente o uso do pykrete, descrito lá pra cima, para a construção de um navio, mas não era um navio qualquer, e sim um porta-aviões colossal, pronto para chegar, caçar, esmigalhar, destruir! Além disso, ele pensou em outras coisas, como a sensação de claustrofobia dos tripulantes, que Pyke pretendeu resolver candidamente com o uso de drogas barbitúricas. Lá pelas tantas, o pessoal estava duvidando da sanidade de Pyke.

Bom, a história seguiu seu rumo. O Projeto Habbakuk, o projeto de usar um porta-aviões feito de gelo, não foi pra frente. Os russos chutaram a bunda dos nazis e os EUA jogou duas bombas atômicas no quengo dos japoneses. Pyke foi esquecido. Os Myth Busters tentaram fazer um barco de gelo, só que usaram jornais e não serragem. Bem, o barco até que funcionou, embora eles tenham criticado que ele não se daria bem em águas tropicais, quando o planejamento original de Pyke era que o porta-aviões navegaria em águas polares. Ainda assim vale a pena ver o teste.

O fim de vida de Geoffrey Pyke não foi um mar de rosas. Mergulhado em depressão, Pyke resolveu que só tinha uma coisa a se fazer. No dia 22 de fevereiro de 1948, sua senhoria bateu à sua porta. Ninguém atendeu. Tentou mais uma vez. Nada. Ao usar sua chave para entrar no apartamento, ela viu Pyke já morto, ao lado de um frasco de pílulas para dormir vazia e um bilhete de Pyke relatando que ele tivera a intenção de tirar a sua própria vida.

Geoffrey Pyke não inventou nada revolucionário que fosse arma definitiva contra o Eixo. Ele não foi sagrado cavaleiro, nem ganhou medalhas. Se ele é um grande nome da Ciência? Creio que sim, pois, antes de tudo, um cientista tem que pensar fora da caixa e ousar com ideias que parecem loucura para a maioria das pessoas. As ideias de Pyke eram plausíveis e muitas vezes perfeitamente executadas, mas sempre e necessário um pouco de sorte, coisa que não aconteceu no caminho de Geoffrey Pyke, o homem que viu além dos horizontes.

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Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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  • cmar

    O homem embora tivesse ideias um pouco “estapafurdias” , ficou-lhe o mérito de ousar.

  • Maumau

    O que mais me atrai na histórias de muitos cientistas é que eles sempre quiseram encontrar meios inovadores para fazer as coisas em sua época. Muitas vezes indo contra tabus.

  • ANUBIS1313

    Lamentável saber que tantas pessoas, algumas dessas tão notáveis quanto o cara acima, tirem suas vidas de um modo tão estúpido. O Pyke foi um visionário como tantos outros e numa época do cacete… R.I.P
    Agora, quanto ao QUEEN…. vida longa ao grupo… esse será eterno!!!