O que foi o Evento de Tunguska?

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O casto segredo de Vesta desnudado

A ira de Deus desabou sobre um lugar semi-esquecido. Quando o dedo acusador do Poder Supremo apontou para a província de Tunguska, na Sibéria, o destino do local estava selado e todos viram que não se devia sequer pronunciar Seu nome. O poder divino veio de forma abrasadora e explodiu em morte, violência e calor, com um ruído ensurdecedor. Uma bola de fogo veio dos Céus e chocou-se com a Terra e suas marcas são vistas ainda hoje.

O que aconteceu em Tunguska, na primeira década do século XX mostra o quanto estamos vulneráveis no Espaço. Mostra como não estamos aqui por vontade de ninguém e sim por mero acaso. Não que algum poder ultramegapoderoso tenha decidido assim, mas porque o Universo é um lugar perigoso mesmo, e o que aconteceu naquela manhã fria mostra que o Universo está pouco se lixando pras ridículas formas de vida que povoam este planetinha irrisório. Este é um artigo que mescla o Livro dos Porquês com o Grandes Nomes da Ciência.

Tudo começou em 30 de junho de 1908. O poder dos Czares já não era lá essa coisa. Pedro, o Grande, era apenas História e Yekaterina II era apenas mencionada em livros de escola (que obviamente não relatavam todos os seus desmazelos). A Revolução Russa ainda era futuro e a tudo isso o Universo pouco se importava. Algo aconteceu naquele dia e foi fenomenalmente impactante, para usar de uma metáfora idiota, mas não menos adequada.

Leonid Alekseyevich Kulik nasceu em 1883 na cidade de Tartu, na Estônia, que ainda não fazia parte da União Soviética, simplesmente por ainda não existir URSS. Ele estudou no renomado Instituto Florestal de São Petersburgo e, posteriormente, no Departamento de Física e Matemática da Universidade de Kazan. Ele serviu no exército durante a Guerra Russo-Japonesa e andou chutando a bunda dos meninos do Kaiser Alemão durante a Primeira Guerra Mundial. Entre estes dois conflitos, ele acabou vendo o Sol da meia noite nascer quadrado por causa de suas atividades políticas.

Depois de ter mostrado o dedo médio pra águia germânica, Leonid Kulik, o mineralogista kickboxer, passou por uma vidinha sem graça, onde ensinou mineralogia na cidade de Tomsk, na Rússia e mais tarde, em 1920, assumiu um cargo no Museu Mineralógico em São Petersburgo (que mais tarde seria chamado de Leningrado, para depois ser chamado de São Petersburgo de novo). No Museu, Kulik dedicou muito do seu tempo para uma nova tarefa: aquisição e estudo de meteoritos. E enquanto ele estava de malas e cuias prontas para dar uma volta pela URSS em busca de meteoritos, lá pelas bandas de 1921, Kulik se deparou com uma história um tanto bizarra sobre uma explosão ocorrida na Sibéria, na província de Tunguska.

Entrevistando moradores do local, Kulik descobriu várias coisas. Primeiro, que testemunhas oculares são péssimas, pois cada uma conta uma coisa de um modo diferente. Segundo, os relatos eram confusos e não faziam muito sentido. Senão, façamos um resumo mediante os pontos concordantes.

Uma bola de fogo caiu sobre Tunguska, em 1908. A explosão ocorrida foi tão forte que quase provoca o descarrilamento de um trem. O estrondo reverberou por vários quilômetros e uma lufada de ar quente incinerou muitas árvores. O céu ficou claro como o dia, a ponto de se poder ler em plena noite… de Londres, Inglaterra. O acontecimento foi nomeado o Evento Tunguska.

Kulik trabalhou muito tempo naquele local precário. A província estava em petição de miséria (não que a Sibéria tivesse sido alguma espécie de paraíso). Transporte, alimentação e recursos humanos eram difíceis de se conseguir e Kulik estava com uma bela batatona congelada nas mãos, já que nada fica quente por muito tempo naquele local. Dessa forma, Kulik fez algo que qualquer um de nós faria para fugir da burocracia: usar de influência e pedir um favorzinho a alguém que é mais "alguém", pois todos somos alguém, mas alguém é mais alguém que outros alguéns, se me entendem. Sendo assim, o professor Leonid filho de Alexey pede uma entrevista a Anatoly Lunacharsky diretor do Comissariado da Educação. Lunacharski não era como um dos burrocratas do povo soviético; era um homem culto, refinado e prezava realmente a Ciência, a Cultura e a Educação, e não um mané que ficava beijando a mão de poderosos para ganhar favores ao invés de trabalhar (estou olhando pra vocês, senhores ministros da Educação).

Lunacharsky mostrou vívido interesse na expedição de Kulik e comprometeu-se com o caso. Com a "ajudinha" de Lunacharsky, Kulik conseguiu pesquisar com mais profundidade; retirou todas as amostras do solo, entrevistou pessoas, filmou o local e tirou várias fotos., como as que você vê na galeria abaixo:

(obrigado, Anatoly, meu caro. Te devo uma)

Kulik estava plenamente convencido que tinha sido um meteoro bem grandinho que provocou aquilo e em suas perguntas à população, ele queria saber se tinham visto pedras caindo do céu. Não, nada. Algum vestígio de rochas estranhas? Também não. Nem um pedregulhão? Não, senhor. Ora, pombas, cadê o meteoro. Sei de nenhum meteoro, não, senhor. Um dos relatos é reproduzido abaixo:

A rachadura no céu cresceu mais e mais, e todo o lado norte estava coberto de fogo. Naquele momento fiquei tão quente que eu não podia suportá-lo, como se minha camisa estivesse pegando fogo… Eu queria rasgar a minha camisa e jogá-la fora, mas então o céu fechou-se, e uma pancada forte soou, e eu fui lançado a poucos metros… Quando o céu se abriu, o vento quente correu entre as casas, como salvas de canhões, que deixou marcas no chão, como caminhos, e danificou algumas plantações.

Kulik varreu com pente fino todo o local e não achou nada, absolutamente nada além do que as fotos mostravam, e as fotos só mostravam que algo aconteceu ali. Nem cratera tinha. Onde está o maldito meteoro? Kulik não soube dizer e morreu sem saber ao certo. Com o tempo, várias teorias surgiram. Algumas bem absurdas, por sinal.

1) Sim, foi um meteoro.

Ok, cadê os os fragmentos? Mesmo que ele tenha sido vaporizado na entrada da atmosfera e tenha se incendiado, criando uma grande explosão devido ao aquecimento súbito de grandes massas de ar, deveria haver um mísero vestígio, uma pedrinha sequer vinda do espaço. Mas não tinha nada.

2) Um pedaço de anti-matéria vinha passando perto da órbita da Terra e foi atraída pelo campo gravitacional. Ou então uma explosão atômica.

Sim, faz um certo sentido, ainda mais se levarmos em conta o relato acima. Só que o aniquilamento de matéria e anti-matéria – assim como uma explosão atômica – libera radiação gama, entre outras. Não havia o mísero indicativo de radiação de forma não comum à região. As leituras estavam normais. Ademais, a anti-matéria deveria ter reagido já nas camadas mais externas da atmosfera e não quase chegando ao chão.

3) Um pequeno buraco negro fez o serviço.

Sei, buraco negro pequeno vinha passando e caiu bem na Terra, atraindo várias coisas e provocando grande liberação de energia de forma súbida. Infelizmente, não há indícios de nenhuma radiação cósmica ou algo semelhante. Repetindo, tudo estava normal e as leituras de contadores geiger não indicavam nada de estranho.

4) Uma nave alienígena caiu, explodindo e vaporizando a si mesma e quem quer que estivesse lá dentro.

Ah, claro. O governo nega conhecimento. Uma nave explode e vaporiza tudo, convertendo toda a sua massa em energia seguindo a famosa equação E = m.c², Infelizmente, é muito, muito pouco provável que nem um fragmentozinho da nave não tenha caído intacto (ou quase).

Eu fico até pensando como ninguém acusou o ateísmo marxista causando a ira de Deus, bom justo e misericordioso e mandando quilômetros quadrados pra vala. A única explicação plausível para aquilo é um…

Cometa!

A ideia mais correntemente aceita é que foi um pequeno cometa que entrou na atmosfera terrestre. Normalmente, um cometa é feito majoritariamente de água, metano e amônia, que no frio interplanetário significa uma imensa pedra de gelo com poeira e um pequeno núcleo rochoso (mas nem sempre). Entrando com uma velocidade de milhares de quilômetros por hora, a massa se aquece muito e o gelo se expande pois passa do estado sólido para o gasoso e, com  o calor, o vapor se expande rapidamente, aquecendo o ar do local provocando uma explosão, gerando ondas de choque mais rápidas que a velocidade do som (a saber, 340 m/s ou cerca de 1226 km/h, a 15 ºC). Como os constituintes são substâncias facilmente encontráveis na Terra (água, gás carbônico, metano e amônia), nenhum resíduo foi encontrado, começando o mistério.

Bom, quer dizer… até agora não fora encontrado nada, mas isso pode mudar.

Alguns pesquisadores alegaram ter encontrado traços de irídio e isótopos de hidrogênio, carbono, nitrogênio em locais que não deveriam estar. Enquanto isso, outros cientistas dizem que micropartículas nos restos de árvores são suficientes para ter como válida a hipótese do meteoro rochoso caindo. Mas é estranho que no marco-zero encontrado por Kulik não haja nenhuma forma de depressão, quiçá uma cratera, tão características de altos impactos.

Em 1991, o dr. Giuseppe Longo iniciou uma busca pelo possível meteoro que acertou Tunguska. Ao longo da década de 1990, Longo e sua equipe vasculharam com sensores sísmicos o lago Cheko que, segundo as pesquisas indicam, teria sido formado exatamente durante o Evento de Tunguska.

Uma equipe retornou em 2009 para um levantamento mais detalhado através da análise magnética do local. Os pesquisadores, chefiados pelo dr. Luca Gasperini, detectaram, ainda que bem fraco, uma área que o  imageamento sísmico indicou como sendo algo denso.

Muito bem, o que isso significa? Significa que o solo embaixo do lago possui uma densidade maior que o terreno em volta. Isso indica que não é o mesmo solo exatamente e muito provavelmente há a existência de metais mais pesados, como ferro, por exemplo. em outras palavras, aquele solo subaquático não pertencem à região e deve ter vindo de algum outro lugar. A melhor hipótese, portanto, é que só pode ter vindo de um lugar: Lá de cima.

Ainda assim, essa teoria não é consenso. Outros geólogos criticam que se isso indicasse que ali teria fragmentos de um meteoro, então a depressão onde está o lago deveria ter um formato semelhante a outras crateras onde caíram meteoritos, mas o lago não possui esta configuração. Afinal, o que está havendo?

Gasperini e sua equipe discordam das observações. O solo de Tunguska poderia, segundo sua teoria, afetar em como a cratera se formaria. Sendo assim, um meteoro rochoso teria uma ação aparente de um meteoro ferruginoso, isto é, uma imensa bola de minério de ferro caindo. Eles publicaram um artigo no periódico Geochemistry, Geophysics, Geosystems, no qual relata que observações independentes concordam e mantém consistência perante a hipótese do asteroide, ainda mais com os registros magnéticos do local.

Quase noventa anos se passaram desde a expedição de Kulik e pouco se descobriu ainda. Esse "pouco" pode parecer um desdém, mas não é. Muito esforço é empregado para saber as coisas e se os resultados são poucos é porque geramos mais e mais perguntas.

Kulik estudou com afinco, mas estava limitado pela tecnologia de sua época. Ainda assim, o modo como ele pesquisou merece crédito, ainda mais por ser valente e ter lutado em duas guerras mundiais. Só é triste saber que Leonid Alekseyevich Kulik, o cientista que lutou em várias guerras e estudava o nosso planeta nas horas vagas enfrentou os nazis durante a Segunda Guerra Mundial. Depois de enfrentar os enviados do Kaiser, depois de ter lutado contra o povo do Sol Nascente. Leonid Filho-de-Alexei Kulik foi preso pelos krauts da Waffen-SS. Uma das maiores estrelas científicas da terra da Estrela Vermelha morreu de tifo, num campo de concentração nazista em 24 de abril de 1942.

O sucesso da expedição de Kulik não está em todas as respostas que conseguiram desvendar, e sim nas perguntas que deveriam ser feitas dali em diante, despertando curiosidade de outros pesquisadores, mesmo que décadas depois, para resolver o mistério da explosão siberiana de 1908. De resto, a única coisa que se tem certeza disso tudo, o que é raro em Ciência, é: O mundo é um lugar muito perigoso para se viver e o Universo está em eterna conspiração: para fazer tudo ser dizimado da pior forma possível, pouco se importando com as bactérias de duas pernas que andam e se acham o máximo, e não há ninguém capaz de se intrometer nisso.

Se a Natureza é chamada de mãe, eu acho que prefiro a Madrasta Malvada.

Cartunista malvadinho coloca Jesus na cama com Freddie Mercury. Eu achei ofensivo
O casto segredo de Vesta desnudado

Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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  • Escreveu este texto bem inspirado, hein? Não sei o que ficou melhor, se o conteúdo em si ou a poesia expressa em cada parágrafo.

    Só acho que vc cometeu um pequeno erro de digitação em “durante a Segunda Guerra I.” Não deu para saber se foi a primeira ou a segunda grande guerra. Ou foram as duas? 🙂

    Excelente texto.

    Administrador André respondeu:

    Corrigido.

  • Apocalyptica

    André, você esqueceu a teoria mais melhor de todas: A do Nikola Tesla.

    Excelente artigo. Sempre quis saber sobre este evento.

  • reinaldo

    Num episódio da série Cosmos, Carl Sagan dedica um bom tempo explicando o fenômeno, inclusive argumentando porque seria um cometa, repudiando as demais explicaçòes.
    Me pergunto: se acontecesse hoje um evento como esse (espero que num lugar inabitado), levaria tampo tempo para se fazer uma investigação, ou a coisa seria investigada imediatamente?

  • Ale

    Lembrando que perto do evento K-T,isso foi só um pedregulho que caiu do céu.

  • sylverfalls

    Porra, André! Valeu! Mano, eu ficava assistindo Cultura e lendo a Superinteressante – é, T.T – quando criança e havia até esquecido desse fatos curiosos da Ciência, mas agora tenho oportunidade de reviver-los e com dados mais concretos. Adorei o texto, valeu mesmo por este artigo e o do Phineas Gage!

  • Também considero muito a hipótese de um cometa. E há quem diga que foi um teste nuclear, mas… Bombas nucleares há 104 anos?! 😯

  • Kemedo

    André… Segue o link do lugar no Google Maps…

    http://g.co/maps/z8y99

    Entendo que nenhum estudo ou pesquisa chega em um resultado final e inquestionável. Sempre há margem para questões e mais investigações. E por mais que todas as questões reafirmem o fato primeiro, elas são necessárias.

    Que seja um cometa, ou um meteoro. Estudar mais sobre o acontecido pode nos fazer entender melhor o assédio de corpos celeste que a Terra tem sofrido e vai sofrer…

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