Grandes Nomes da Ciência: Wernher von Braun

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O homem que trabalhou para os nazistas tem seu tempo praticamente esgotado. Ele está sendo caçado e é uma questão de horas que o peguem. O homem responsável por milhares de mortes está com o seu tempo de vida contado em minutos, a menos que ele consiga seguir com o plano. O homem dali teria uma vida diferente e seria referenciado nos livros de História, não como o infame Adolf Eichmann, mas como o principal responsável pela conquista do Espaço; lançando o mundo numa nova era.

O nome de Wernher von Braun inspira sentimentos conflitantes. Ingleses não o veem com muita simpatia, americanos o reverenciam e alemães sentem orgulho (ok, não muito, mas sentem) por suas proezas (não todas, obviamente). Wernher Magnus Maximilian von Braun não só tem um nome de nobre como seu pai era realmente um nobre, um barão prussiano que, muito provavelmente, ostentava um daqueles clássicos bigodões. Von Braun nasceu no dia, 23 de março, no longínquo ano de 1912, 23 dias antes do Titanic fazer o favor de levar o Leonardo DiCaprio consigo. E, não. Não tenho problemas com o número 23, pois não sou o Jim Carey.

Von Braun era um menino de extremo bom gosto literário, pois era fã de H. G. Wells e Julio Verne. Isso é até muito interessante do ponto de vista que a literatura de ficção científica de H. G. Wells foi muito pequena, mas o que ele escreveu neste tema encantou milhões de pessoas ao longo do tempo. Eu, inclusive. Só que autores mortos não bastavam para alguém como Von Braun e o estopim para a sua ideia de seguir uma carreira para ir audaciosamente aonde nenhum alemão jamais esteve foi os escritos e palestras do eminente físico Hermann Oberth, que já sonhava em vencer a temível (e fraquíssima) força da gravidade terrestre em busca da liberdade do frio espaço. Ainda que fraca, a gravidade é poderosa o suficiente para dar úlcera em qualquer um que planeje sair do solo por seus próprio meios. Oberth viu em Von Braun a sincera devoção e anseio por chegar ao espaço e o encorajou dizendo que ele deveria dominar Cálculo e Geometria. O jovem Wernher não era como nossos estudantes de hoje e não largou seus estudos para ficar pendurado na Internet acessando Facebook ou escrevendo besteiras no Twitter. O jovem Wernher não tinha duas coisas que nossos adolescentes de hoje têm aos montes: preguiça e computadores com acesso  à Internet (mesmo porque, computador era coisa de ficção científica em sua época, mas isso não quer dizer muita coisa).

Wernher von Braun se graduou em Engenharia Mecânica e concluiu seu doutorado em Física em 27 de julho de 1934. Há uma coisa sutil aí. A tese defendida por von Braun teve dois lados: um público e um secreto. Nessa época, ele já tinha sido convidado pelo Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei , o NSDAP, o Partido Nazista. Em 2 de agosto deste ano, um austríaco com problemas comportamentais ascenderia ao poder e isso mudaria a vida de Von Braun, com mudou a vida de milhões de pessoas, de ambos os lados da equação.

O lado público do doutorado de tio Wernher recebera o título Sobre Testes de Combustão. Não quer dizer muito. Combustão já vinha sendo estudada desde antes de Lavoisier (apesar deste ter feito um trabalho mais acurado). Mas o nome completo da tese de Von Braun era Konstruktive, theoretische und experimentelle Beiträge zu dem Problem der Flüssigkeitsrakete. Raketentechnik und Raumfahrtforschung (Solução de construção, teórica e experimental para o problema do foguete por propelente líquido).

O regime nazista determina o fim de qualquer pesquisa civil no âmbito de foguetes, apenas militares poderiam se dedicar a isso e eu penso que eles já não estavam com boas ideias. Churchill também achava que Hitler não era flor que se cheirasse, mas o ingênuo Neville Chamberlain pensou que não era nada disso. A história nos mostra quem estava com a razão.

Wernher Von Braun foi peça chave no desenvolvimento da tecnologia de foguetes da Alemanha. Ele parou de usar combustíveis sólidos e passou a usar combustíveis líquidos. Com isso, ele chegou às Vergeltungswaffe, a "arma da vingança", sendo as primeiras bombas voadoras. A primeira foi chamada V-1 e a que se seguiu mudou totalmente o que se conhecia por armamento bélico: as bombas V-2, que na verdade não são bombas, "bombas", como aquelas de São João ou a Fat Man que caiu no quengo dos japoneses. A bomba V-2 era um míssil e mesmo assim não era um míssil comum. Era um míssil balístico.

O problema da V-1 era que a distinta deveria seguir em linha reta, só que isso é impossível. Nada segue em linha reta, nem mesmo um tiro de revólver. Eles seguem trajetórias balísticas. Trajetórias balísticas eram conhecidas por Galileu Galilei. Na época de Galileu, achava-se que Aristóteles era o cara, e ele afirmava que quando você joga qualquer objeto para cima, ele sobe em linha reta, independente do ângulo de lançamento. Ao chegar no ponto mais alto, o móvel cai, também em linha reta. Bom, Aristóteles, para variar, estava errado e Galileu provou que qualquer projétil subia e descia mediante uma trajetória que pode ser representada por uma parábola.

Quando um atirador de elite (sniper, para os gamers e fãs de filmes de guerra) mira a cabeça de alguém, ele tem que calcular variantes como umidade do ar, direção do vendo, arraste aerodinâmico e gravidade. Tudo isso influencia e a gravidade puxa a bala pra baixo enquanto o atirador tenta compensar todos estes fatores. Com um míssil a coisa fica pior, já que a força gravitacional entre dois corpos é diretamente proporcional ao produto das massas destes corpos. As V-2 subiam a uma certa altura e caíam, com a trajetória calculada para acertar o alvo planejado. Na imagem acima vemos 3 exemplos de projéteis cuja trajetória determina a distância alcançada, basicamente usando a altura para obter a ação em que se determina onde a desgracenta irá cair.

A V-2, a infame V-2, foi largamente usada na Europa e Londres era um dos alvos preferidos daquele maníaco de bigode ridículo. Era uma assassina com 46 metros de comprimento, pesava 27.000 kg e viajava a velocidades superiores a 3.500 km/h. Estima-se quase 3000 mortes civis em Londres por causa das V-2. Sim, civis, e a V-2 mostrou-se o que seu nome sugeria: pura e simplesmente vingança, já que estas quase 3 mil pessoas eram cidadãos alheios aos ditames da política. Só que o tempo passou e a situação da Alemanha estava indo de mal a pior e as V-2 não eram suficientes para resolver os problemas. Von Braun sabia disso e resolveu que ele não teria amigos pelo mundo afora, e ficar dando mole na Alemanha que estava começando a se esfacelar não era algo que uma pessoa inteligente sequer aventasse.

Ele começou a dar um jeito de contrabandear material secreto para os americanos e quando o Exército Vermelho meteu o pézão na Alemanha, um dos mais procurados era ele, Wernher von Braun. O problema que os russos não tinha grande amor pelos alemães e Von Braun seria menos que humano se tentasse arriscar a sorte com os filhos de Lênin, já que Stalin nunca foi conhecido pela simpatia para com as pessoas (qualquer uma delas).

Von Braun conseguiu ralar peito dali, fugindo até da sombra: alemães, soviéticos e qualquer coisa que não fosse um norte-americano. Sendo recebido pelo pessoal de Eisenhower, Von Braun ficou trabalhando com o Exército dos EUA no desenvolvimento de mísseis balísticos. Como parte de uma operação militar chamada Projeto Paperclip, ele e sua equipe (que conseguiram fugir da Alemanha também) foram instalados em Fort Bliss, no Texas. Lá eles trabalharam em foguetes para o exército. Em 1950, a equipe de Wernher von Braun se mudou para o Arsenal Redstone perto de Huntsville, Alabama, onde construíram os mísseis balísticos Júpiter; e quando Kennedy se mostrou desconcertado com o Sputnik a ponto de dizer que sua meta era mandar um homem à Lua em 10 anos, a correria começou. A corrida espacial começara e a exploração do Espaço era a ordem do dia. Fundos praticamente ilimitados garantiram que pessoal técnico e de apoio, pilotos, equipamentos e tudo o que você possa pensar em termos de recursos humanos e material estivessem plenamente disponíveis.

Wernher von Braun naturalizou-se cidadão dos EUA em 1955. Entrou para a NASA em 1960, tornando-se diretor do Centro Espacial de voo Marshall de 1960 à 1970, onde dirigiu os programas de voos tripulados: Mercury, Gemini e Apollo. É o pai do foguete Saturno V que levou os astronautas dos EUA à Lua. Mais que um grande cientista, Von Braun despertou em muitos jovens a vontade de seguir uma área técnica e o então currículo dos EUA garantira que os colégios dessem maior ênfase à disciplina de Ciências. Lançar bombas na cabeça dos outros não era problema para ninguém da direita religiosa, só a Evolução das Espécies o é; dessa forma, ninguém se incomodou com várias feiras de ciência abordando o tema. É com este pano de fundo que se desenrola o filme Céu de Outubro, um filme que divulgadores de Ciência e professores deveriam ser obrigados a ver, e de preferência com seus alunos, e Paulo Freire que se dane. O próprio personagem principal, Homer Hickam, é fã incondicional do ilustre dr. Wernher Von Braun.

O maniqueísmo nos faz pensar em Wernher Von Braun como vilão. Outros o veem como herói. Tê-lo como vilão, pois ele foi o responsável pela bomba que matou milhares de cidadãos londrinos implica em culparmos Winston Churchill também, posto que o serviço secreto inglês decifrara a mensagem antes e ele sabia do bombardeio. Churchill, entretanto, não alertou as pessoas, pois saia que se fizesse isso deixaria os alemães sobressaltados com a única conclusão óbvia: a Inglaterra já decifrara o que pensava-se ser uma cifra inquebrável: a da máquina Enigma. Churchill preferiu não alertar, tendo todas aquelas mortes em sua consciência, visando um bem maior. Complicado julgarmos ambos, pois numa guerra não existem vilões e mocinhos. Existe gente idiota que luta por pura idiotice. Foi o mesmo programa da V-2 que levou o Homem ao espaço e manteve o equilíbrio de forças entre duas potências termonucleares. Teríamos que culpar vários inventores por todo invento que causa algum mal às pessoas. O mundo não é só preto e branco.

Quanto ao maior de todos os cientistas de foguetes, o dr. Wernher Von Braun ficou na NASA até o ano de 1972, quando ele passou a ser diretor adjunto da Fairchild Industries. 5 anos depois, 16 de junho de 1977, Wernher Von Braun sucumbiu, não a uma explosão de uma de suas armas projetadas, mas a um câncer de pâncreas. Os restos mortais de um dos Grandes Nomes da Ciência repousam num túmulo simples no Ivy Hill Cemetery em Alexandria, no estado norte-americano da Virginia; e hoje é o dia que comemoramos o seu 100º aniversário de nascimento. Alles Gute zum Geburtstag, herr Braun.

Giovanni Aldini, o pai elétrico de Frankenstein
Conquistadores Vikings trouxeram camundongos a tira-colo

Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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  • Lembro que no livro Mundo Assombrado por Demônios Carl Sagan disse que metade dos cientistas dos EUA trabalham (ou trabalhavam) para fins militares e Werher von Broun foi por muito tempo um desses, mas a história da evolução tecnológica mostrou que tecnologias de origem militares ajudou muito a humanidade em outras áreas. Não só na exploração espacial como no dia-a-dia. Desde aviões a jato até o GPS.

  • Wallacy

    Clap, Clap, Clap…..

    Ótimo texto! Me tirou algumas dúvidas inclusive, além é claro de muitas informações interessantes que eu não tinha sido mínima ideal. Na escola havia aprendido de uma forma um pouco diferente, curiosamente na visão inglesa da “coisa”.

    E se me permite, gostaria de acrescentar que gosto muito mais dos seus textos sem as firulas com quotes de possíveis comentários dos leitores(como nesse post) , ex: “tá é daí, vai direto ao assunto”. Pois podem até dar certo com o Laguna (ok, nem tanto) que se chama de tio, mas no seu caso acho quebra o excelente ritimo que você cria ao contextualizar uma história em universo maior que o usual. Acho que quem visita o ceticismo.net deseja justamente isso, uma história bem narrada(como a série sobre os grandes nomes da ciência) ; textos de dois parágrafos fica para o site da globo mesmo.

    Não agradeci antes, mas obrigado pelos textos. Me incentiva a fazer o mesmo com minhas áreas de pesquisa, pois o que mais vejo em meus colegas de Mestrado é uma enorme preocupação em criar artigos para publicar em eventos aleatórios que de fato em disseminar o conhecimento. Uma coisa não deveria eliminar a outra, e fico satisfeito com o fato de você gastar uma parte do seu tempo livre com esse excelente material aqui presente.

  • Apocalyptica

    Em um documentário sobre os V2 falava que von Braun era péssimo em física e matemática no ensino médio. E que para ele o V2 era só um meio para obter tecnologia para ir a lua a a marte. Ele não gostava que seu projeto fosse usado para fins bélicos. Foi preso e quase foi morto por falar publicamente que o seu projeto estava acertando o planeta errado.

  • mauro3

    Toda a nata dos cientistas nazistas foram repatriados para os EUA,na operaçâo PAPERCLIP os fundadores da CIA,FBI todos os fisicos,quimicos que desenvolveram a superioridade Alemã em nanotecnologia,genetica,dai porque a superioridade dos EUA em armamento.

  • GusC

    O Ceu de Outubro eh um BAITA filme, inspirador, creio que em algum momento de sua vida profissional, todo professor deveria recomenda-lo a seus alunos.

    Agora vamos combinar que ocontrabando de material para os EUA citado no text foi decisivo paraa construcao de misseis intercontinentais por parte desse pais, tal qual a participacao decisiva do “condenado a castracao quimica por homossexualismo” Alan Turin, que quem sabe um dia ganhe um post em Grandes nomes da Ciencia.

    Administrador André respondeu:

    Alan Turing tem vaga garantida na série, e o texto está em pré-elaboração. E vcs mal imaginam o Que será dito MUAAHAHAHAHAA

  • frateold

    titio Braun foi tão usado quanto qualquer outro vivente inteligente…esses políticos.

  • Minha opinião sobre Von Braun é que ele era como uma moeda. Numa face vejo o excelente cientista e engenheiro, homem capaz de unificar um grupo diversificado de graduados e técnicos e fazê-los dar o melhor de suas especialidades, além de ser um perfeito relações públicas. Na outra face, vejo o homem que, para alcançar seus objetivos, não duvidou em vender-se para o lado que estivesse no comando, sejam os nazis ou os yankees.
    Como pioneiro do desenvolvimento da tecnologia de foguetes de combustíveis líquidos, considero o Dr. Robert H. Goddard muito superior a Von Braun. Herr Doktor possui um merecido status histórico no que se refere à criação da série de mísseis A, dos nazis, e na alavancagem e sustentação da pesquisa espacial americana, civil e militar, mas ele dependeu dos trabalhos teóricos e práticos do Dr. Oberth e dos membros do VfR, quando era ainda apenas um pentelho promissor. Em Peenemünde, com um gordo orçamento, ele contou com o auxílio direto de importantes físicos e químicos, além de ter a sua disposição muitos dos melhores técnicos especialistas disponíveis. O mesmo aconteceu quando passou a trabalhar nos USA.
    Goddard, trabalhando práticamente sózinho, contando apenas com um pequeno grupo de técnicos que ele mesmo treinou (incluindo o próprio cunhado), e dispondo de orçamento limitado, desenvolveu práticamente todos os elementos teóricos e práticos relativos à propulsão e guiagem de foguetes. O próprio Von Braun e sua equipe copiavam esses elementos, quando os mesmos eram publicados por Goddard, antes da guerra.
    Parabéns ao Dr. Goddard, que não precisou vender-se enquanto perseguia os seus sonhos.

  • Excelente texto. Só faltou mencionar sua contraparte russa, o engenheiro Sergei Korolev que, ao fazer engenharia reversa em várias V-2 que os soviéticos apreenderam, foi peça-chave para o programa espacial russo.

    E é engraçado pensar que a conquista do espaço se deu por um cientista nazista e um traidor da Mãe Rússia: Korolev ficou preso por 7 anos, de 1938 a 1945, acusado de sabotagem.

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