Cientistas pesquisam genoma da bactéria causadora da Peste Negra

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As pessoas têm uma ideia romanticamente errada sob a Idade Média. Não havia cavaleiros garbosos em cavalos brancos salvando belas donzelas de dragões. Os dragões só existem na Bíblia (e são mais parecidos com a sua sogra), as donzelas não eram tão donzelas assim, além de terem poucos dentes na boca, feridas, vários partos (muitos abortados) e cabelo desgrenhado, os cavaleiros normalmente era um bando de filho bastardo dos ricos senhores feudais (cujos castelos não tinham a aparência do castelo do Rei Arthur) e os cavalos não passavam de pangarés. A expectativa de vida não passava dos 30 anos (com sorte ou nem tanta assim) e o cardápio consistia no que você quis caçar (ou que estava te caçando no dia anterior). Um lugar lindo e maravilhoso, perto da Natureza e rodeado de verde.

Na maravilha que se tornou a Idade Média, lá pelos idos do século XIV, a querida, complacente, misericórdia e gentil Natureza começou a varrer todos os toscos humanos da área, através de uma coisinha linda que ficou conhecida como a Peste Negra, que ceifou mais vidas, mandando 1/4 da população europeia direto para vala, na paz do Nosso Senhor Deus que ama os justos. Hoje, no século XXI, cientistas conseguiram sequenciar o genoma do monstro causador desta doença terrível: a bactéria Yersinia pestis.

A Y. pestis é uma peste por si só. Trata-se de um cocobacilo, anaeróbico, gram-negativo (ver Teste de Gram), não formador de esporos e que adora viver entre ratos. Sendo gram-negativa, esta desavergonhada não pode viver em clima seco, coisa que praticamente não existia no interior das casas, castelos etc. na referida época. Muito provavelmente, ela veio em navios, escondida em seus hospedeiros: as pulgas da espécie Xenopsilla cheopis. Estas eram parasitas de outro hospedeiro, só que de dente comprido: ratos. O agente etiológico não quer saber se o hospedeiro é essencial para viver, mesmo porque ele nem faz ideia que traz uma bomba relógio biológico. Sendo assim, a bactéria infecta a pulga, esta morde o rato, o rato morre, a pulga pula pro primeiro mamífero fedorento e com sangue gostoso (humanos), os quais são picados e acabam infectados. A pulga pula para outro humano antes que aquele banquete vá para a vala e assim sucessivamente. é uma espécie de pulgaception.

Basicamente, a Peste Negra era a famosa Peste Bubônica, que tem este nome porque ataca os gânglios linfáticos, fazendo-os incharem e adquirir cor escura (dai o nome), acarretando dor de cabeça, sonolência, intolerância à luz, apatia, vertigem, dores nos membros e nas costas, febre de 40 °C, delírios, diarreia, desidratação e morte praticamente certa em casos não tratados a tempo.

A drª Verena Schuenemann, da Universidade de Tübingen e Kirsten Bos, doutoranda da Universidade McMaster estudaram amostras de gente morta (todo o tempo) esquecidos por todos no cemitério East Smithfield, onde várias vitimas da Peste Negra foi jogada pra lá como quem jogava o lixo fora (quem pode censurar?). Através das bactérias lá, escondidas nos tecidos, as duas pesquisadoras estudaram o código genético da pérfida bactéria. A Evolução seguiu seu ritmo e a bactéria de hoje não tem mais o poder destrutivo de outrora, mas o que deixou as duas cientistas impressionadas foi a extrema similaridade entre as linhagens antigas e modernas.

Hã, tá. Isso significa dizer que são praticamente a mesma bactéria?

Er… não, não são a mesma bactéria, mas há uma grande similaridade a ponto delas ainda pertencerem à mesma espécie.

Então, algum evento aleatório ou mutação pode dar às atuais Y. pestis um poder tão mortífero quanto às bactérias do passado?

Hummm, sim, pode.

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHH O MUNDO VAI ACABAR!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Eu acho muito pouco provável que a Y. Pestis volte a ser o que era, mas em se tratando de várias mutações ocorrendo a todo instante e com a altíssima taxa de reprodução bacteriana, isso pode sim, ser possível. Difícil, mas não impossível.

O trabalho de Schuenemann e Bos  foi publicado na revista Nature (aproveitem que tem texto completo, com figura, gráfico etc), mas nem por isso deixa de ter críticos, como o dr. Alan Cooper, da Universidade de Glasgow. Ele analisou 121 dentes de 66 esqueletos retirados de diversos locais assolados pela Peste Negra. East Smithfield estava entre eles. O que os testes feitos pelo dr. Cooper revelou é que nenhum sinal da Y. pestis foi encontrado, conforme notícia veiculada pela New Scientist em 2003. Outros pesquisadores estudaram os esqueletos, ora achavam indícios da Y. pestis, ora não achavam e isso já está dando nos meus nervos!

Ei! Isso significa que os cientistas podem estar errados?

Evidente! O simples processo de alguns cientistas não quererem aceitar tão rapidamente uma teoria é o que faz a Ciência avançar.

Então outras teorias podem ser refutadas por estarem erradas, como a Teoria da Evolução.

Mas, é claro! Gradue-se numa faculdade, consiga um mestrado, um doutorado, um pós-doutorado e pesquise por anos a fio. Se você conseguir bastante provas, então ela será refutada. Simples assim. Vai lá pesquisar e deixa eu terminar o artigo, sim?

Schuenemann e Bos garantem o cuidado de sua pesquisa. Segundo elas, conseguiram amostras do DNA da bactéria em 4 dentes de vitimas da doença. Elas compararam o DNA com o DNA de uma bactéria atual e PÍMBA! reconheceram muitas equivalências no código genético. O teste foi feito e refeito mais de 20 vezes.

Se eu fosse contar isso pros meus alunos eles perguntariam 3 coisas:

1) Isso ajuda a dar nota na prova?

2) Cai no ENEM?

3) Pra qui eu kero çaber esta merda?

A questão é que não sabemos quando uma bactéria maluca dessas ficará tão assassina quanto sua amiguinha do passado. Não se sabe ainda se são as mesmas bactérias (só que com algumas diferenças) realmente. Mas é importante saber de onde poderá vir mais algum maníaco psicopata da Natureza (você sabe.. aquela coisa linda representada como mãe, doida para varrer todos os seres vivos da face da Terra). Estudando as bactérias causadoras, fica-se mais fácil desenvolver remédios, mesmo que algum acéfalo paranoico invente que isso é para dar dinheiro às companhias farmacêuticas ou que isso é uma conspiração do Governo para causar autismo em todo mundo.

Os cientistas estão a postos. Seja contra ou a favor das teorias, o certo é que estão sempre mais perto da verdade do que estavam ontem. Sempre.


Para saber mais: Medievalist.net

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Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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  • novaesrichard

    “Eu acho muito pouco provável que a Y. Pestis volte a ser o que era”

    Por que?

    Administrador André respondeu:

    RTFA.

    novaesrichard respondeu:

    Lá diz que a bactéria se mutou e que não é mais tão destrutiva, o que eu não entendi é o porquê de ser improvável a bactéria voltar a ser o que era

    Administrador André respondeu:

    Pq Evolução não é sanfona. Peixes evoluíram até poder sair da água e respirar ar puro. Seus descendentes deram origem aos mamíferos e alguns mamíferos resolveram voltar pra água. Baleias não são peixes.

    novaesrichard respondeu:

    Entendi, obrigado!

  • SandroCeara

    Quando eu paro para pensar sobre a imundície que era a vida na idade média (Européia), sinto arrepios. 😕

    Porque não imaginar que a Peste Negra foi uma conjunção de fatores e, por isso, não são encontradas evidências em todos os cadáveres?

  • Breno Bernardes

    André, a pulga que estava contaminada, era só parasita do rato negro mesmo? Ou tinha outros hospedeiros também?

    Breno Bernardes respondeu:

    Ah! Gostaria de ter sido seu aluno.rsrsrs
    Abraço.

    Administrador André respondeu:

    Todo mundo fala isso até ver a prova.

    Administrador André respondeu:

    Leia o texto.

  • Altius

    To de vorta…”pulgaception” foi foda…lembrei dessa Yersinia pestis no julgamento de Dover , foi ela que um cientista usou para comparar com o Flagelo bacteriano para provar que estruturas quase identicas mas faltando algumas partes podem funcionar sim, o que p o flagelo eh usado para locomoção, na Yersinia (com algumas partes faltando) tem a função parecida com agulha para injetar (toxina eu acho) nas células , com isso a complexidade irredutível do criacionismo foi derrubada!

  • drumyoshiki

    Esse artigo me fez lembrar do experimento de Lenski com a E. Coli. Se eu bem me lembro, ele utilizou várias colônias da mesma bactéria em diferentes soluções e congelou amostras para a posteridade, as quais podem ser utilizadas para observar a evolução novamente, provando que um conjunto de mutações ocorreu em uma determinada colônia, pois a mutação em questão proporcionou às bactérias ali contidas um melhor aproveitamento dos nutrientes da solução, enquanto as outras não obtiveram esse resultado.

    Devido às altas taxas de reprodução e ao genoma relativamente pequeno, a velocidade em que as mutações ocorrem nas bactérias deve ser muito maior se comparada a seres mais complexos. É assustador pensar que algum maníaco psicopata pode dar uma de Lenski e selecionar artificialmente um monstro assassino e soltar ele por aí…

    Administrador André respondeu:

    http://ceticismo.net/2008/06/13/experiencia-historica-mostra-evolucao-em-populacao-de-bacterias/

    drumyoshiki respondeu:

    @André, E eu achando que já havia lido tudo nesse sítio…

  • Com toda a tecnologia da informação, a atual rapidez com que se pode fabricar remédios e vacinas e a Igreja sem nenhum poder para atrapalhar acho improvável o mundo volte a ter uma pandemia tão mortal como foi a Peste Negra ou mesmo uma nova Gripe Espanhola. Mesmo que os parasitas (bactérias para a peste e vírus para a gripe) consigam ter características similares a que tinham antes.

    Agora depois de ler esse artigo me pergunto como esse povo vivia naquele estado. Falta de higiene e mais uma epidemia de peste só podia dar nisso.

    Administrador André respondeu:

    Só se for em países desenvolvidos. No Brasil ainda se morre de esquistossomose, leishmaniose e dengue, que basta matar uma bosta de mosquito.

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