ago 09

Morcegos vampiros podem captar radiação infra-vermelha em busca de sangue

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Bibliografias, Biologia, Ciência, Evolução, Fí­sica, Genética, Neurologia, Quí­mica
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Convenhamos, ninguém gosta de morcegos. Aquilo que parece ser o anjo da guarda dos ratos mete medo até em criminoso de Gotham (salvo algumas espécies que proliferaram nos anos 1960). Os filhotes de Lúcifer são tudo o que não queremos ter por perto, ainda mais os pertencentes à família Phyllostomidae, subfamília Desmodontinae. Como qualquer um dos seus primos quirópteros, morcegos-vampiros despertam medo, aversão e sói serve de tira-gosto para roqueiros mais radicais.

Mas o que é feio para Narciso, posto que não é espelho, pode ser a chave para muitas informações. Pesquisadores da Universidade da Califórnia estudam o modo que os tão odiados morcegos vampiros captam o calor do sangue de suas vítimas, de forma a se orientar até seu alvo e poderem fazer o seu banquete. Mantenham as estacas e os crucifixos a postos, pois Nospheratu esta na sua cola, mortal idiota.

Apesar de sua aparência, coisa que Narciso pode confirmar, vampiros não deixam de ser criaturas fascinantes. Nossa sorte é que a ficção tem pouco a ver com a realidade, como sempre. Vampiros não saem por aí chupando donzelas (ops), não têm vida eterna e muito menos ficam brilhando que nem destaque de escola de samba. Eles chupam, sim, sangue, mas de gado que está à solta, mas não é muito comum atacar pessoas, apesar de cerca de 500 pessoas terem sido atacadas no Peru (estou me referindo ao país, engraçadinhos), disseminando um surto de raiva, fazendo  com que quatro crianças da etnia awajún morressem.

TODO corpo com temperatura acima do zero absoluto (zero Kelvin) emite radiação infravermelha. Assim, se por um acaso você tivesse a capacidade de enxergar em infravermelho, ou pudesse captar emanações de calor de alguma forma, você seria um caçador com enorme vantagem sobre a vitima, poderia atacá-la sorrateiramente, além de usar algum maquinário que estourasse logo a sua vítima e teria que ser muito feio. Como a Natureza ainda não desenvolveu armamentos que ficam pendurados nos ombros, só resta selecionar aqueles que adquiriram capacidade de "enxergar calor", sendo a feiúra algo que vem de bônus. Perfeitos exemplos disso são cobras como a cascavel (neste caso, o J. J. Benitez não falou besteira), a jiboia e a píton. Além dessas três… criaturinhas adoráveis, os morcegos vampiros são os únicos capazes de detectar este tipo de radiação. Um exemplo de convergência.

No caso da cascavel, ela reconhece facilmente pequenas variações de temperaturas, e direciona seu ataque para as vítimas homeotérmicas, isto é, animais que possuem um sistema de termorregulação que mantenha todo o seu corpo aquecido e mantido na mesma temperatura. Em outras palavras, esta vantagem adaptativa forneceu à cascavel e suas irmãzinhas a capacidade de diferenciar um bicho morto de um bicho vivo, fazendo com que elas se sirvam de almocinho fresco, sem ter o azar de comer algum bicho já em estado de decomposição.

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas o que deu de presente aos morcegos esta capacidade?

De acordo com a pesquisa da drª Elena Gracheva e do dr. Julio Cordero-Morales (ironia, não?), ambos do Departamento de Fisiologia, da Universidade da Califórnia, a sensibilidade das serpentes de se orientar pelo calor de suas vítimas depende de um gene chamado TRPA1, que codifica uma proteína de mesma sigla a qual tem como significado "Transient receptor potential cation channel, subfamily A, member 1". Por simples curiosidade, nós seres humanos possuímos moléculas similares em fibras nervosas em nossas línguas, pele e olhos que sentem dor quando entram em contato com o 8-metil-N-vanilil 1-6-nonamida, mas que vocês, ó mortais, conhecem como capsaicina (encontrada nas pimentas) e o isotiocianato de alila, o qual é encontrado nos grãos de mostarda.

No caso dos morcegos, o processo evolutivo permitiu que ele desenvolvesse um gene um pouco diferente, mas não muito. É o TRPV1, que codifica uma proteína sensível ao calor, mas que também é sensível à capsaicina, servindo de alerta e avisando ao animal sobre a existência de uma substância nociva. Como esta proteína é sensível ao calor (e serve de aviso para nós, humanos, sobre temperaturas acima de 43°C), os morcegos vampiros adquiriram a capacidade de usar esta resposta química a temperaturas um tanto mais baixas, como as que são encontradas em animais de sangue quente, no caso, mamíferos. Qual a vantagem disso? Eles podem escolher presas que estão vivas, sugando o sangue ainda fresquinho e livre de qualquer tipo de deterioração, já que isso o faz desviar a atenção de animais mortos. A pesquisa foi publicada na revista Nature.

Não basta, entretanto, que os filhotes de Batman tenham adaptação fisiológica para este tipo de detecção, é necessário estruturas morfológicas. Muito dificilmente uma coisa vem sem a outra. Dessa forma, os dois pesquisadores apontaram que os morcegos possuem fibras nervosas maiores, o que maximiza a eficiência do reconhecimento do sinal térmico. Em outras palavras, a estrutura dos nervos fazem com sua capacidade de detectar variações de calor corporal seja melhor, podendo identificar animais com temperatura superior a 30°C. Morcegos frugívoros e toupeiras conseguem um uso similar do TRPV1, mas não com a eficiência dos morcegos vampiros.

E se eu fosse você, saía de fininho, pois dois olhinhos vermelhos estão fixados em seu pescocinho e a temperatura do seu sangue já foi identificada.

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7 respostas para "Morcegos vampiros podem captar radiação infra-vermelha em busca de sangue"

  1. 1. Nihil Lemos disse:

    André, li no Wikimerdia que existem apenas QUATRO espécies de morcegos-vampiros. Isso está certo?

    Minha mãe já mordida por um, mas não era vampiro. Ela teve que tomar umas antirrábicas :P

    Sobre a capacidade dos morcegos-vampiros poderem enxergar em infravermelho não me surpreende (muito). O grande Beakman me ensinou que os morcegos não são cegos e que certas espécies podem até enxergar melhor do que a gente. Aí já seria vantagem demais, pois não bastasse a sua audição aguçadíssima… Mas a maioria enxerga muito mal mesmo.

    Ah, sim. Aprecio muito as fontes dos artigos científicos. Graças a eles vira e mexe dou um pulo na Nature e me viro com o tradutor do Google. Mas também do uma olhada no site em japonês.

    http://www.natureasia.com/japan/

    Cansei de procurar a versão em português e nunca encontrei :(

    Administrador André respondeu:

    André, li no Wikimerdia que existem apenas QUATRO espécies de morcegos-vampiros. Isso está certo?

    Ao que eu saiba, sim. Mas não sou zoólogo.

    Minha mãe já mordida por um, mas não era vampiro. Ela teve que tomar umas antirrábicas

    QUALQUER mamífero pode ser vetor de raiva animal. Pergunta; sua mãe suporta bem a luz do sol? Tem problemas com crucifixos?

    Sobre a capacidade dos morcegos-vampiros poderem enxergar em infravermelho não me surpreende (muito).

    Ele não “enxerga” propriamente dito. Ele não tem fotorreceptores. A sensação de calor é diferente.

    Cansei de procurar a versão em português e nunca encontrei

    Não tem, mas eles tem um blog com as últimas notícias: http://www.nature.com/news/index.html

    Um site que eu sempre dou uma passada de vez em quando é o Science Daily: http://www.sciencedaily.com/news/plants_animals/nature/ Por dia são dezenas de artigos; nunca dá tempo de ler tudo. Outro bom é o Naturenews: http://naturenews.com/ (não, não é da Nature).

    Andre_Pacheco respondeu:

    @Nihil Lemos, De acordo com um blog que li são 3 espécies entre mais de 1200. :shock:

  2. 2. Nihil Lemos disse:

    QUALQUER mamífero pode ser vetor de raiva animal. Pergunta; sua mãe suporta bem a luz do sol? Tem problemas com crucifixos?

    Não, mas é fã recente da saga Crepúsculo. Isso é um sintoma?

    Fora isso, muito obrigado, André :)

    Nihil Lemos respondeu:

    @Nihil Lemos, Droga. Cliquei fora do “responder” :(

  3. 3. Morte disse:

    Ja fui agraciado com a mordida desse bichinho, quando vi ja estava se fartando na minha canela. Alias pernilongos e outros malditos adoram canelas e cotovelos… Mas na minha epoca era tao comum que ninguem ligava pra isso. Em minha casa atualmente tem um bemmmm grandao , mas ao que parece e de insetos.(espero).

  4. 4. Mari. disse:

    Sinceramente acho morcegos animais fofos. Aonde moro costumam haver, é possível vê-los voando de árvore em árvore só pelo prazer de assustar quem passa. Sim, me assusto com eles mesmo os achando animais fofos.

    E como assim um mamífero apresenta um gene variante de um réptil? Cadê o design inteligente disso? Afinal, cada espécie foi feita distintamente e tal…

    “(…) nós seres humanos sentimos dor quando há contato com isotiocianato de alila(…)”. Essa frase faz todo o meu teatro de desespero ao comer wasabi ou gengibre uma manha de criança (quando na verdade sinto que é uma experiência de quase morrer).

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