Grandes Nomes da Ciência: Rosalind Franklin

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Se existe uma cervejaria famosa na Inglaterra é a cervejaria Green King, em St. Edmunds, perto do laboratório Cavendish e em frente a Escola de Medicina em Downing Street, cujos moradores mais ilustres vivem no número 10. Dois rapazes entram lá; um é tipicamente inglês e o outro é americano. Ambos soltam a bomba: "Nós desvendamos o segredo da Vida!". James Watson e Francis Crick ficam imortalizados por uma das maiores descobertas do século XX: a estrutura da hélice dupla do DNA. O que pouca gente sabe é que a história não é bem assim. Uma história de competição que, por muito pouco, não conferiu mais um prêmio Nobel a um americano pacifista, de sorriso simpático, com mania de se encher de vitamina C: Linus Pauling, e por pura desonestidade não foi conferido no devido tempo à pessoa certa. Esta é a história de quem realmente descobriu o segredo escondido no DNA: Rosalind Franklin.

A Ciência é uma aventura tipicamente humana. Não basta criarmos ferramentas. Isso até mesmo chimpanzés usam ferramentas, chegando até mesmo a criar "varas de pescar". O que nos faz diferentes de outros animais é que nós estudamos o ambiente e tentamos traduzir o que vemos em informação, de forma que possamos repetir os fenômenos e, no mais das vezes, tentarmos controlá-los ou, quando muito, entender porque tal fenômeno aconteceu. Isso é fazer Ciência.

Em 25 de julho de 1920, um dia depois das tropas francesas invadirem Damasco, afim de deporem o rei Faisal I e um dia antes de Pancho Vila tomar Sabina durante a Revolução Mexicana, nascia um lindo bebezinho rosado e com bochechinhas cuti-cuti-cuti. O que seus pais não sabiam era que aquele lindo bebezinho seria uma peça primordial no avanço científico. O lindo bebê recebeu o nome de Rosalind Elsie Franklin.

Miss Franklin estudou na Escola Saint Paul para Meninas, onde ela se destacou em Ciência. Seu próprio pai ensinava Eletricidade, Magnetismo e  1ª Guerra Mundial. A família de Rosalind ajudou até mesmo a instalar refugiados judeus que fugiam de um certo austríaco com problemas comportamentais e não sabia fazer amigos. Só influenciava pessoas. Em 1938, um ano antes da Blitzkrieg invadir a Polônia, Rosalind Franklin vai para Cambridge, onde sairia com um diploma em Físico-Química. Ela especializou-se em metais e minerais, fazendo uso de uma técnica chamada Difração de Raio-X, técnica que usou para investigar como era formado o DNA. A saber, os cientistas sabiam como eram as substâncias que se combinavam e estabeleciam ligações para formar a imensa molécula do ácido desoxirribonucleico, DNA (ou ADN, se tu falas português lusitano, ó gajo!). O problema é que não sabiam como diabos era essa estrutura.

Difração de Raio-X é uma técnica em que se usa raios-X (d’oh!) para mapear como é a estrutura de uma substância. Pense num lenço de linho. Olhando em sua mão você vê o tecido, sente sua textura e percebe seus desenhos. Mas, ao colocá-lo contra a luz, você percebe nitidamente como são formadas as tramas do tecido, como as linhas se cruzam. Quando se faz passar um feixe de raios-X por uma substância, ele cria "sombras" do outro lado. Os feixes que não são impedidos de passar atingem uma chapa fotográfica, trazendo até nós uma fotografia da molécula, da mesma forma que uma radiografia mostra como está a integridade de seus ossos, por exemplo. O princípio é o mesmo.

Enquanto Rosalind fazia seus testes, Maurice Wilkins (biofísico no King’s College) — solteirão e tão aberto à tolerância na permanência de mulheres no laboratório como um senhor de engenho era tolerante com escravos em seu escritório — vê com mal-disfarçado desgosto Miss Franklin (não, era não era parente de Benjamin) adejar pelo recinto, o que fazia outros homens ficarem bem… como direi, "felizes" com sua presença. James Watson era um deles, que odiava os vestidos cafonas (pelo menos, na opinião dele), juntamente com seus penteados e maquiagem, além de achá-la arrogante, mal-humorada, rabugenta e ficar provocando-a a todo momento chamando-a de "Rosy", sabendo que isso a irritava profundamente, mas por trás a chamava algo como "aquela maldita feminista".

Rosalind Franklin passou a usar a técnica de difração de Raio-X para estudar moléculas poliméricas (e é exatamente isso que o DNA é). É muito engraçado pensar que o segredo da sua vida está num punhado de "plástico". Piadas de químicos, compreendam). Ela estudou as estruturas do DNA, RNA e até de alguns vírus (uma PFDP). Não se sabe ao certo se Rosalind estava realmente atrás da estrutura do DNA. O que se sabe é que Linus Pauling estava em dúvida se a estrutura do DNA era formada por uma espiral dupla ou tripla. Ele foi informado que Rosalind estava fazendo testes usando raios-X e tentou correr para a Inglaterra para trocar informações. Infelizmente, um certo senador chamado Joseph MacCarthy cismou que ele era comunista (era), além de ser possível espião dos russos (não era) sem falar que Pauling cometera o pecado de ser pacifista e ser contra a Bomba Atômica. O resultado é que o passaporte do bom dr. Pauling foi confiscado e ele não podia viajar.

Nesse ínterim, Watson, que não era inglês de verdade, não era escocês e nem comia mingau ao que se sabia, rouba pega emprestado uma das chapas reveladas por Miss Franklin com a estrutura do DNA. Até aí não se sabe se Rosalind prestou atenção ao que obteve ou deixou para analisar as imagens mais tarde. Watson corre com a chapa para Crick e diz algo como "Veja, aqui está hélice, e aquela maldita mulher não a vê". Eles tratam de pegar a chapa e fizeram um artigo com 900 palavras para a revista Nature, em 25 de abril de 1953 (PDF). Nenhum crédito a Rosalind Franklin foi dado, o que a fez ter um ataque de fúria e se não fosse por Maurice Wilkins, Watson estaria em seu estado elementar. Watson e Crick ganharam o prêmio Nobel por sua "descoberta", sem mencionar aquela que foi a genuína responsável pelo "êxito" da dupla.

Ainda com sabor amargo por ter sido roubada, Rosalind mudou-se para o laboratório de cristalografia J. D. Bernal, do Birkbeck College, em Londres, onde continuou fazendo o que sabia fazer melhor, onde estudou desde o vírus que ataca o tabaco até o que causa a poliomielite, chegando a estudar até mesmo sobre as estrutura do carvão.

A mulher que desvendara o segredo da vida não viveu muito. O mesmo DNA que ela estudou foi o seu algoz, pois nele estava sua sentença de morte. Rosalind Franklin morreu por uma simples codificação de proteína, expressada por gene, que determinou que seu destino era sofrer de câncer no ovário. Os olhos brilhantes da Mãe do DNA fecharam-se para o mundo em 16 de abril de 1958, aos 37 anos de idade. O comitê para o prêmio Nobel deu a ela um prêmio de consolação, mas nada consola quem não está mais aqui para ser consolado.

Poucas pessoas do mundo não-científico se lembram ou mesmo sabem dos trabalhos de Rosalind. Nem mesmo o Google a homenageou hoje. A Nature, em seu obituário, disse que suas imagens estão entre "as mais belas fotografias de substâncias jamais tiradas".

O sorriso de Miss Franklin não era para qualquer um, mas sua paixão para com a Ciência, assim como sua visão de mundo, é algo de tão modo sentimental que não se pode deixar de colocar uma citação dela mesma:

Ciência, para mim, dá uma explicação parcial da vida. É baseada em fatos, na experiência e em experimentos. Suas teorias são aquelas que você e muitas outras pessoas acham mais fácil e mais agradável de acreditar, mas, até onde eu posso ver, não têm nenhum outro fundamento que não levam a uma visão agradável da vida… Concordo que a fé é essencial para o sucesso na vida… mas eu não aceito a sua definição de fé, crença ou seja, em vida após a morte. Na minha opinião, tudo que é necessário para a fé é a crença de que, ao fazer o nosso melhor vamos chegar mais perto do sucesso e que o sucesso em nossos objetivos (o aperfeiçoamento do destino da humanidade, presente e futuro) vale a pena alcançar… Afirmo que a fé neste mundo é perfeitamente possível sem a fé em outro mundo.

— Rosalind Elsie Franklin, um dos Grandes Nomes da Ciência

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Sobre André Carvalho

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  • A imagem que eu tinha do James Watson e Francis Crick ficou manchada depois de ler esse artigo. OK, isso nada vai mudar, eu sei… 😐

    De qualquer maneira fiquei revoltado em saber que essa mulher (que conheci apenas agora a pouco) foi reconhecida depois de morta. Infelizmente é assim para muitos…

    Zero_Anjo respondeu:

    @Nihil Lemos, O escroto mesmo é que tem gente que usa a quantidade de descobertas cientificas para denegrir as mulheres…

  • Zero_Anjo

    O realmente escroto foi os caras terem roubado a chapa e não terem dado o credito para a Rosy… Poderia ser um incrível trabalho à 6 mãos, afinal ela não sacou o que tinha encontrado, todos seriam igualmente louvados…

    Ciencia é vida e espirito… as vezes de porco 🙂

  • eu sou um lixo

    Ótimo texto, eu n acho que foi um ataque de fúria dela ter ficado brava, foi um ódio natural, imagina vc estuda, e trabalha tanto em um projeto e quando vc descobre algo que vai mudar o mundo e sua vida aí uns babacas roubam seu trabalho e seu mérito. Poxa qualquer pessoa ficaria puta dá vida. É triste ver que homens querer usurpar e ficar com o mérito das mulheres até hoje, vejo muito isso no meu dia a dia, na minha família. Essa história é um exemplo que mesmo ela tendo sido melhor que os homens não teve o reconhecimento que merece por ser mulher, isso não vai passar despercebido.