As Conexões de James Burke

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Volta e meia sempre acontece de nos lembrarmos de algo e ficarmos com um gosto amargo de não poder ter este algo novamente. Entretanto, ainda conseguimos resgatar pérolas, nem que seja de ostras bem escondidas. Foi mais ou menos o que aconteceu esta semana. Estava conversando com uma amiga minha e mencionei sobre uma série que assisti lá pro final dos anos 90 (o que para a maioria das pessoas significa a pré-história), que era apresentada às segundas-feira, na TV Educativa do Rio, vulgarmente conhecida como TVE. Era uma série apresentada pelo historiador James Burke. O nome do programa era Conexões (Connections, no título original).

O que há de especial neste programa? Ele é um programa sobre história da Ciência e como se deu o desenvolvimento da tecnologia. Tecnologia, ao invés do que muitos pensam, não tem a ver (necessariamente) com informática. Tecnologia é o conjunto de ferramentas e técnicas que ajudaram e ainda ajudam na solução de problemas. Uma pá é uma ferramenta tão tecnológica quanto um 747 ou um supercomputador Cray. Chineses já possuíam máquinas calculadoras antes de você sequer sonhar com seu queridinho com tela brilhante, no qual você está lendo este texto agora. Árabes já dispunham de métodos de construção e produção de utensílios, incluindo dispositivos robóticos e autômatos.

Costumamos estudar História aprendendo sobre um fato, o qual acarreta outro fato, e outro e assim sucessivamente. Aprendemos sobre Feudalismo, para depois aprendermos Absolutismo (Le Roi, C’est Moi), depois vemos como a massa insatisfeita se rebela, ocorre a Revolução Francesa, tomada da Bastilla, Reinado de Terror, Ascensão de Napoleão, Império Napoleônico etc. Nada que eu seja contra, mas há minúcias aí; detalhes esquecidos ou de relativa pouca importância. Quem dá pela conta que um monastério beneditino poderia ter algo a ver com uma das maiores invenções do século XX? É num emaranhado de conexões que o programa de James Burke se baseia. A História não se desenrola como num fio em carretel. É mais como uma árvore, ou o próprio sistema elétrico de nossos lares. O mesmo disjuntor geral que deixa passar corrente para a geladeira na cozinha, permite que a corrente flua por outros fios até chegar à TV no quarto ou no barbeador elétrico do banheiro. Tudo isso depende de como as conexões são feitas.

Não sei se considero James Burke um dos grandes nomes da Ciência, mas acho que vale pelo tanto que ele ajudou a divulgá-la, como Carl Sagan e Davids Attenborough. Muito poucas pessoas ouviram falar em James Burke, mas também ouvioram falar pouco de muitas pessoas notáveis. Burke nasceu em 22 de dezembro de 1935, no condado de Derry, Irlanda do Norte. Foi educado em Maidstone Grammar School e na Universidade de Oxford, onde obteve um mestrado em Inglês Médio (o idioma falado na Inglaterra entre o século XI e a segunda metade do século XV).

Burke  foi professor de inglês – não só na Inglaterra, mas na Itália também – trabalhou na rádio BBC a partir de 1966 e ficou como responsável pelo departamento de Ciência da BBC, onde ele organizou programas sobre Ciência e Tecnologia, sendo o repórter-chefe da referida emissora durante as missões Apollo.

Em 1978, Burke co-produziu, juntamente com Mick Jackson (Mick e não Michael), sua obra mais importante: a série Conexões, composta por 10 episódios, tendo sido exibida na BBC e, posteriormente, nos canais de PBS nos Estados Unidos, para só quase 20 anos depois eu pudesse ser capaz de ver. Se a série foi transmitida antes, no Brasil, eu não tenho notícia. Se não me engano, a série já passou no TV-Escola. Quando entrei em contato com a nossa querida máquina burocrática, bem… vocês sabem como (não)funciona o setor público.

Só para termos uma ideia, vamos desenvolver o trecho que citei anteriormente.

Mosteiros costumam ser uma pequena cidade. Se vocês leram O Nome da Rosa, sabem do que estou falando. Lá, os monges cultivam vegetais e criam bois, porcos, galinhas (damn you, vegans!). Produzem vinho, tosquiam ovelhas e tecem fios e costuram suas próprias vestimentas. O excesso é vendido, o que resultava em lucro para o mosteiro, e não tecerei maiores considerações sobre isso. Para termos tudo isso funcionando de forma adequada, é necessário tecnologia. É preciso bombear água, triturar grãos (para fazer farinha), mover serras e cortar tábuas, bombear ar para a fundição de metais etc. Como poucos tinham condições de ter um sistema tão elaborado de produção em série, os mosteiros acabaram ganhando muito dinheiro com isso. O segredo estava no uso da força da água, de forma a mover cames, bombas, eixos etc. Nada de muito extraordinário, já que árabes e chineses já faziam isso há muito tempo!

A Europa começava a acordar do sono causado pela Idade Média e via o alvorecer da Renascença. A ascensão de novos-ricos propiciou intensificação do comércio. Assim, as pessoas mais abastadas passaram a usar uma coisa de última moda: roupas de baixo. Pois, é. Até então, as “vergonhas”, como teria dito Pero Vaz de Caminha, ficavam sacudindo pra lá e pra cá… Bem, em algumas pessoas, pelo menos. Rotas do oriente e as Grandes Navegações inundaram a Europa com uma larga oferta de linho. As fibras (linho, algodão ou qualquer outra) eram colhidas, desfiadas e transformadas em fios. Os teares são uma incrível melhoria árabe dos teares chineses. Usando a força da água, automatizaram o processo, mas como definir padrões artísticos? Isto é, como definir desenhos? Para isso, bastava que alguns fios passassem embaixo de outros. O padrão era, então, definido e a produção em série começava. Para evitar erros, era usado uma matriz, que consistia numa placa perfurada. Introduzia-se a placa, as agulhas verticais desciam, mas só as “certas” passavam pelos buracos. As agulhas horizontais faziam a trama e assim continuava-se. Para cada desenho, uma placa-matriz diferente era usada.

Mas, como ainda não havia máquinas de lavar, e o pessoal não era muito chegado à limpeza, as roupas rasgavam logo. Se há alguma oportunidade, alguém lucra com isso. Enquanto hoje o pessoal cata garrafa PET e lata de alumínio para reciclagem, alguns caras começaram a recolher tecidos, de forma que fossem reaproveitados. Eles eram separados, triturados, amassados numa massa (com auxílio novamente da força da água, com um eixo sob a forma de cames), para então serem esticados sobre telas e prensados. Assim, temos uma fábrica de papel que funcionava ininterruptamente. Uma melhoria de uma invenção chinesa fez a diferença: a prensa de tipos móveis. Com ela, apareceu a vasta gama de livros. Antes, cada livro era escrito à mão, um processo demorado e caro (uma coisa deriva da outra), mas agora tínhamos uma tonelada de livros à disposição. Sem erros (ou quase), todos iguais. Até livros de bolso surgiram e muitos começaram a escrever, compartilhando oque sabiam, desde encanamentos até arquitetura. Foi a explosão do saber! Por algumas moedas, você tinha condição de saber como uma igreja foi feita e poderia fazer uma igual ou melhorá-la.

Em finais do século XIX, os Estados Unidos era a meta de muitos estrangeiros, em busca de novas oportunidades. Praticamente a regra era: “manda a galera entrar, que precisamos de mão-de-obra”. Então, foi ordenado um censo para saber dados estatísticos sobre a população. Então, um jovem estatístico chamado Herman Hollerith criou um sistema para tabular as informações. Consistia em perfurar, com o auxílio de um guia, um cartão, onde cada cartão representava os dados de uma pessoa. Abaixo, temos um exemplo do cartão usado por Hollerith (cujo nome é bem conhecido pelo pessoal que mora em São Paulo, pois é como eles chamam nossos amados contra-cheques):

Ahan. Legal. E aí? Daí que para se ter um montante, bastava levar cada leitor para uma máquina somadora. Introduzia-se o cartão numa fenda própria e acionava  máquina. Contatos tentavam passar pelo cartão. Os que passavam pelos buracos faziam contato com outros eletrodos, fechando um circuito. Isso fazia um relógio contador andar uma casa. A cada inserção de cartões, os relógios-mostradores andavam as casas. Depois, era só ler os mostradores e tabular os gráficos.

Até as décadas de 60-70, cartões perfurados ainda eram usados, para depois serem substituídos por meios magnéticos. Sobre Hollerith? Oh, bem. Ele fundou uma empresa mais tarde. O nome da empresa era International Business Machines, que ficou mais famosa pela sua sigla: IBM.

Assim era o programa Conexões. Ao conversar com a minha amiga, me deu vontade de rever os programas, mas não encontrei de maneira direta. No entanto, a James Burke Web disponibilizou os episódios no You Tube, através de seu canal: http://www.youtube.com/user/JamesBurkeWeb. A lista dos episódios está disponível na Wikipédia.

Em 1994, Burke lançou a continuação da série: Connections² e em 1997, Connections³. Todos disponíveis no YouTube. Nenhum tem legenda em português, mas pode-se ativar a legenda em inglês e acompanhar. Ainda na esteira, James Burke lançou o livro Connections, ainda inédito no Brasil, que prefere publicar coisas como o Crepúsculo. Mas para isso existe a Amazon, que disponibiliza o livro por menos de 20 dólares (lembrando que livros não pagam impostos de importação). Eles também dispõem da série em DVD (região 1 apenas), com um preço mais salgado.

A ironia disso tudo é que graças às conexões que começaram com mosteiros, passando pela rota da seda, tecnologias árabes, tipos móveis e emigração em larga escala, até chegar até sua casa por um cabo telefônico que podemos assistir a programas fantásticos como estes.

Enquanto isso, o Globo Repórter mostra o tucunaré e o mico-leão dourado…

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Voz dos Alienados 23

Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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  • marcelusmedius

    Alguém lembra do Tradição Ocidental (The Western Tradition) ? Eita anos 90 …

  • Hugo L

    Só para que um texto bom desses não fique com pequenos erros:

    Parágrafo 9 (começa com “A Europa”): “Usando a fora da água, automatizaram o processo…”

    Força

    História é sempre bom, mas muita gente a despreza sem saber do seu potencial, acabam fazendo as mesmas besteiras de antes ou sem saber porque determinadas coisas são o que são.

    Administrador André respondeu:

    Valeu.

    A propósito, as pessoas não gostam de história porque é uma coisa ensinada de maneira árida e chata. Informações inúteis que não afetam a vida de ninguém… Pelo menos, à primeira vista; e os professores não mostram do poque ensinar aquilo e como todos aqueles eventos construíram os dias atuais.

    Altius respondeu:

    @André, Igualzinho ao ensino de matemática, alias igualzinho a qualquer outra matéria tirando raríssimas excessões como as escola que estudei no primeiro grau que tinha o foco de formar alunos para a indústria local!
    Mas não vamos mudar de assunto, eu acho que vi esse Burke, é da mesma época do Mundo Animal se não me engano!
    Caramba agora fui longe, era uma criança de sete ou oito anos que viajava nas enciclopedias Tecnirama e Combi Visual!

    Johnny J. S. respondeu:

    @André, Eu gosto de historia mas não encontro apoio nenhum em minha professora. Só passa coisas na lousa pra nós copiarmos e pronto.

  • Mari.

    Havia um professor no curso pré-vestibular que tinha horror ao Globo Repórter, ele não podia começar uma aula sem antes dizer: No programa de hoje, plantas que matam e curam. Obrigada pela dica dos vídeos, vou assisti-los. Ah, História, melhor matéria entre todas (ou eu que tive a sorte de só ter bons professores), um dia ainda será minha profissão.

    Johnny J. S. respondeu:

    @Mari., Boa sorte, e força pra você…

  • Oliveira

    Caramba, mais um pra minha lista de vídeos a serem vistos.
    Se duvidar vejo antes da reprize do Big Brother… 😯

    Um outro programa que eu adorava quando era criança era um tal de Olho Vivo que passava na TV Cultura, se não me engano. Tratava sobre história natural e era bastante colorido e com uma qualidade visual excelente. Ainda hoje lembro do tema de abertura.


    http://en.wikipedia.org/wiki/Eyewitness_(TV_series)

    Outro que eu adorava era o mundo de Beakman.

    Enquanto isso, algumas mães incentivavam suas filhinhas a participarem do concurso “É o tchan mirin”… 😕

    E o pior é que hoje elas devem ganhar muito mais dinheiro que eu, usando o que aprenderam na infância… 🙄