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Os santos gays na Igreja Católica

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Bibliografias, Biologia, Ceticismo, Comportamento, Cristianismo, Cultura, Esquisitices do Velho Testamento, Evangélicos, História, Igreja Católica, Judaismo, Literatura, Psicologia, Religião
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Hoje em dia é muito comum que as principais religiões monoteístas do mundo façam uso de seus “livros sagrados” para lançar condenações contra os homossexuais, e vociferar maldiçoes e pragas de modo insidioso, dizendo que a pratica sexual entre os gays é uma “abominação aos olhos do Senhor” (Levítico 18:22).

E todos os dias, padres e pastores pregam em seus púlpitos e altares, sermoes contra o homossexualismo, instilando o vírus do preconceito e ódio em seus fieis, fazendo dele um meme (Dawkins, lembra ?) que se perpetua, fazendo com que essa corrente de intolerância seja difícil de ser quebrada.

Mas não foi sempre assim.

Ha alguns séculos atras, as coisas eram bem diferentes. Não vamos nos esquecer que a homossexualidade era amplamente tolerada, praticada normalmente sem que ninguém os recriminasse, ou promovesse perseguições até à morte. Com exceção de um primitivo povo que vivia na Palestina, é claro. Para mais referências sobre o assunto, cliquem aqui.

E o texto abaixo, deve ajudar a esclarecer um pouco sobre um tema que é bem sensível à Igreja Católica, que com certeza ela não gostaria de ver divulgado. Ainda mais com ela mergulhada em escândalos de pedofilia, um papa inativo e omisso, protestos dos evangélicos contra a PL-122, o ódio religioso contra os gays, as tentativas de impedir o casamento gay pelo mundo, e assim por diante. Mas o mundo muda, “o mundo é um fogo eterno que não se apaga“.

Os santos

Para o cristianismo, santo é aquela pessoa que viveu de forma exemplar, seguindo todos os mandamentos com heroísmo e morrendo “em odor de santidade”. E as diversas igrejas que hoje seguem a doutrina cristã (a católica, a ortodoxa ou as varias denominações protestantes) ensinam que o papel mais importante dos santos é servir como elo entre o homem e Deus, operando milagres em assuntos distintos, de acordo com o tipo de vida que levaram ou por algum acontecimento isolado de suas vidas. Por isso, cada santo tem uma “especialidade” e uma data dedicada a ele, quer seja o dia de seu nascimento, de sua morte ou, ainda, de quando se converteu ao cristianismo.

O que poucos sabem é que existem homens e mulheres homossexuais consagrados como santos e santas.

E não só os gays, mas também haviam os santos zumbis. Havia um artigo no extinto blog “Religião é Veneno” que falava bastante sobre o Necrocatolicismo. Uma pena, esse material seria ótimo como base para um futuro artigo.

O historiador da Universidade de Yale John Boswell (1947-1994), autor de inúmeras obras sobre o assunto, publicou suas pesquisas sobre a existência e a historia de santos gays em dois livros com maior ênfase: Christianity, Social Tolerance and Homosexuality (Cristianismo, Tolerância Social e Homossexualidade) e Same-Sex Unions in Premodern Europe (Uniões do Mesmo Sexo na Europa Pré-Moderna).

Em seus estudos, Boswell aborda desde a historia de Perpétua e Felicidade na Antiguidade (ama e escrava que se tornaram santas populares entre a comunidade gay devido ao profundo afeto que as unia), ate os santos considerados “patronos” das uniões homossexuais, São Sérgio e São Baco.

São Sérgio e São Baco

No começo do século IV AEC, na região onde atualmente fica a Síria, viviam Sérgio de Resapha e Baco de Barbalistus, considerados um casal de amantes. Nobres romanos, eles tinham altos cargos no exercito do imperador César Maximiliano, quando então se converteram e se tornaram cristãos. Entretanto, como o cristianismo era considerado uma seita perigosa, eles foram denunciados, presos e torturados brutalmente para abjurarem a fé crista e voltarem aos deuses romanos. Baco morreu logo, mas Sérgio teve de suportar intensos sofrimentos ate ser, finalmente, decapitado.

O fato de formarem um casal, contudo, não representava um problema. Segundo Boswell, não só a Igreja Católica da época acolhia bem os homossexuais como também celebrava casamentos entre eles, o que perdurou ate o século XV.

São Aelred de Rievaulx

Em 1134, aos 24 anos, Aelred entrou para a Ordem Cisterciense. Em 1147, tornou-se abade na cidade inglesa de Rievaulx, onde viveu como monge celibatário pelo resto de sua vida.

Em seus escritos, prevenia ardentemente seus companheiros de clausura sobre as dificuldades da abstinência sexual – agravada, no seu caso, por sua inclinação tanto por homens quanto por mulheres. Ele também conta que, quando ainda noviço e responsável pelo treinamento de jovens, usava um tanque cheio de água gelada para mergulhar e assim poder controlar seus desejos carnais.

Aelred era um homem de paixões fortes, que falava abertamente de seus relacionamentos, inclusive de sua paixão por outro rapaz em seus tempos de escola. De todas as contribuições que deixou para a Igreja, a mais importante é a certeza de que podemos nos aproximar mais de Deus através das relações que cativamos.

São Sebastião

Embora existam imprecisões na historia do santo mártir, sabe-se que, em 286 EC, ele era capitão da guarda pessoal e homem de confiança do imperador romano Diocleciano, mesmo sendo cristão convicto e confesso (alguns, por isso e outros motivos, acreditam que eles eram amantes). Denunciado por manter conduta branda com prisioneiros cristãos, foi condenado à morte com flechadas, com a intenção de prolongar ao máximo seu sofrimento. Diz a tradição que foi socorrido e curado por Santa Irene.

Assim que se recuperou, se apresentou diante do imperador para censurá-lo por sua crueldade com os cristãos. Diocleciano mandou que seus guardas o espancassem ate a morte, o que ocorreu no dia 20 de janeiro de 288.

Os simbolismos da historia do santo – um homem perseguido, martirizado e condenado à morte por assumir a sua condição (de cristão) – acabaram por influenciar vários celebres artistas homossexuais ao longo dos dois últimos séculos, que se apropriaram tanto da historia quanto da imagem de São Sebastião (leia-se as iconografias andróginas feitas por artistas renascentistas) para criar uma auto-imagem, uma referencia gay universal. Entre eles, Oscar Wilde, Federico Garcia Lorca, Rainer Maria Rilke, Thomas Mann, Yukio Mishima e Jean Cocteau.

Nas ultimas décadas, com a organização e crescimento de movimentos GLBT, São Sebastião acabou sendo adotado por homossexuais do mundo inteiro, e hoje ate a cultura popular o reconhece como “santo padroeiro dos gays”.

As Uniões Homossexuais

Segundo o historiador Boswell, a união entre duas pessoas do mesmo sexo era comum na Europa cristã até meados do século XIV. E a Igreja Católica da época não só aceitava os casais homossexuais como também celebrava a união. Na oração de bênção utilizada na cerimônia são citados os apóstolos Felipe e Bartolomeu, acrescentando outra evidencia à forte tradição (ou lenda), que existe desde o inicio do cristianismo, segundo o qual eles formavam um casal. Vejamos abaixo:

“Ó Senhor, nosso Deus e governante, que fizeste a humanidade à Sua imagem e semelhança, e lhe destes o poder da vida eterna que aprovastes quando seus santos e apóstolos Felipe e Bartolomeu se uniram, juntos em par, pela lei da natureza e pela comunhão do Espirito Santo, e que também aprovastes a união dos seus santos, mártires, Sérgio e Baco, benditos também a estes servidores (…), unidos em casal pela natureza e pela fidelidade. Permita, Senhor, que eles amem um ao outro, sem ódio, e possam continuar juntos sem causar escândalo, todos os dias de suas vidas, com ajuda da Santa Mãe de Deus e de todos os seus Santos, porque Tu és o poder e o reino e a gloria, Pai, Filho e Espírito Santo”.

Para mais referencias sobre o assunto, vejam em Homossexualidade na Igreja – Uma Tradição Medieval. E em relação à Igreja e os Gays, cliquem aqui para ver um verbete o Wikipédia sobre o tema.

Em minha opinião, se os homossexuais soubessem que tais casamentos homoafetivos eram realizados pela ICAR até o século XIV conforme alega Boswell, eles teriam um motivo histórico e politico muito forte para lutarem por seus direitos e desmoralizar a posição homofóbica da Igreja Católica, além de inúmeras seitas do protestantismo  evangélico. É uma pena que o livro de Boswell não esteja disponível em português aqui no Brasil, creio que seria uma leitura muito interessante.


2 respostas para "Os santos gays na Igreja Católica"

  1. 1. Emerson disse:

    Eu já sabia dos santinhos gays, mas até hoje nunca entendi porque os casal converteu-se á uma religião tão homofóbica como a cristã… ok,ok, o cristianismo ainda estava se readequando diante de tantos costumes greco-romanos na sociedade… mas nunca tinham lido os livros de São Paulo ?? (alías um cara bem do esquisito em relação á sua própria sexualidade…) Não já sabiam dos antigos livros do Velho Testamento e suas condenações ?? Eram assim tão ingênuos que não previram o perigo que o cristianismo seria no futuro para pessoas como eles?? Aliás, nem Jesus disse nada em defesa dos gays… (apesar de São João gostar de se reclinar nele…)
    Dificil para mim entender isso…

  2. 2. Altius disse:

    Interessante, dessa eu não sabia, o interessante é notar a rejeição natural em outras denominações além da ICAR, tive oportunidade de ver ao vivo, quando freqüentava uma igreja batista , ia a convite por causa de uma ex namorada, mas lembro principalmente de um rapaz, que pra mim era o cara mais gay do mundo, mas ao mesmo tempo participante ativo da igreja, dava pra sentir o tormento do moço em tentar evitar a natureza!Cansava de falar: Ele é gay,ele é gay,ele é gay isso n muda, que a natureza ia ser mais forte, pois se alguém me proibisse de sentir atração por mulher , como ele era proibido de sentir atração por homem, acho que piraria, e ela, na mistura de programação e ignorância dizia que deus “curou” e que eu só dizia isso por que não havia presenciado o testemunho do rapaz! Curou sim, saindo da igreja e assumindo a homossexualidade de fato! Depois coitado, virou ovelha negra na comunidade, putz pensando com meus botões agora, se eu casasse com essa mulher bicho!?! Na época era budista ainda, mas pra evangélico, gay, budista ou ateu é mesma coisa? Nããão ateu ainda é o mais ferrado de todos!

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