mai 06

Os perigos do respeito automático

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Bibliografias, Ceticismo, Comportamento, Cultura, Filosofia, História, Religião
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Estava outro dia debatendo na Carl Sagan sobre infanticídio indígena praticado ainda por volta de vinte etnias entre as mais de duzentas do Brasil, entre elas a Yanomami. Esse princípio tribal leva à morte não apenas gêmeos, mas também filhos de mães solteiras, crianças com problema mental ou físico, ou doença não identificada pela tribo. Basicamente uma espécie de eugenia orientada pelas crenças tribais, onde saúde pública, cultura, filosofia, religião e legislação travam combates intermináveis acerca da validade de uma intervenção legal da União nesse problema. Há projetos ainda em tramitação no Congresso que versam sobre esse assunto, chamado Lei Muwaji, em homenagem a uma índia que recusou-se a dar seu filho para sacrifício. Para detalhes muito precisos do escopo jurídico envolvido, visitem o Palavras Sussurradas. Onde realmente quero chegar é: o quanto a cultura (seja ela religiosa, de gueto, étnica etc.) pode ou não estar acima da lei escrita de um país?

“cultura não se impõe”

Ou pelo menos não deveria ser imposta, mas pode, e deve, ser discutida, assim como religião. Ainda mais nos casos onde ela atenta, direta ou indiretamente, contra a vida, seja ela humana ou não. À favor da boa convivência em sociedade, mesmo as afastadas do seu epicentro, como no caso dos indígenas, deve-se atentar a hierarquização dos laços culturais vigentes. E a cultura popular, aquela de berço, deve se submeter à lei maior que rege um país, a constitucional. E mesmo essa, soberana, em alguns casos, deve sempre ser mudada quando solapa a dignidade humana básica, como no caso da criminalização do abortos, proibição da eutanásia, experiência com células-tronco etc. onde muito já foi feito em prol de uma evolução, mas ainda restando muito a ser percorrido. No fim de tudo, a justiça está sempre acima das leis, sejam elas quais forem.

No caso do infanticídio, uma solução seria o que? Prender? Seria impor um código de leis em uma micro-sociedade onde a cultura vigente tolera, e incentiva, o ato. Penso que poderia haver um acordo (vai daí mais discussões), como o gêmeo a ser sacrificado seja retirado da guarda dos pais biológicos e posto sob a guarda do Estado, para que tenha uma chance de viver com dignidade. Exemplos desse tipo de abordagem já são uma realidade através do papel de algumas ONGs, que intercedem perante às lideranças de cada tribo onde o problema persiste, até acolhendo os indesejados. De nada adiantaria convencê-los a não levar a cabo sua cultura de matar e a criança virar uma espécie de pária dentro de sua própria tribo. E qual seria a diferença entre condenação legal e absolvição cultural? Questão de geografia, o fato de tais atos serem feitos no meio da selva a milhares de quilômetros daqui? Origem, o fato de suas raízes serem indígenas e as nossas tenderem mais para as latino-ocidentais? Colonização, eles estão aqui antes de nós e portanto tem mais liberdade de ação? Distância genética, uma vez que nosso o antepassado comum entre o indígena e europeu (pré-miscigenação moderna) datar de milhares de anos atrás?

Em geral, os defensores do relativismo cultural aventam que uma cultura é intocável e deve ser preservada a despeito de seus mecanismos ferirem convenções internacionais de bem-estar e ética. Alguns argumentos versam também sobre a herança histórica dos indígenas e sobre o processo expansionista que praticamente os dizimou desde a metade do séc. XVI. Nesse caso não há muito o que discutir sobre atitudes passadas, de um tempo onde a visão tacanha (aos nossos olhos) 1800centista foi o motor da sociedade contemporânea. O agora deve ser posto em perspectiva e não o passado, de forma que não se repita. As terras deles, suas crenças, seus costumes que não ferem os direitos básicos constitucionais devem sim ser protegidos como patrimônio cultural que são. Mas devem ser refreados nos pontos onde entram em conflito com o que convencionamos como sociedade moderna. O mesmo relativismo alega que não existem culturas melhores ou piores, apenas diferentes. Até existem, mas aí temos apenas que tomar cuidado com o referencial a dotado para fazer a comparação. “Melhor/Pior em relação a que?” seria o modo adequado de enxergar a questão. E se o que chamamos de cultura não for tão “sagrado” assim?

Se levarmos em conta a história das civilizações, não saberia estimar um número, mas empiricamente me parece que a grande maioria delas teve sua cultura nativa modificada pelas relações com outros povos. Seja pelo comércio ou expansionismo territorial, o simples contato com o outro altera o equilíbrio dentro de um grupo humano. Essa mesma história dá indícios que na grande maioria das vezes essa intrusão é prejudicial pois ela é infecciosa, predatória, agressiva e desconsidera terminantemente os hábitos locais, impondo outros que não diferem em muito dos antigos, pois são propulsionados ou por ignorância ou por fé. Coisa de homem branco, não?

Pode parecer irônico, mas não creio ter havido entre os Kaiapós, só para citar um exemplo de etnia indígena mais agressiva, algum morubixaba ou pajé com cacoetes antropológicos para lançar um olhar crítico acerca de seu próprio comportamento em relação as outras tribos em suas guerras. Ao seu tempo, como é comum entre tribos humanas que dividem o mesmo espaço, acabaram envolvendo em muitos conflitos armados. Os resultados desses conflitos pra os perdedores, como é de se esperar, podem envolver expurgou aldeis inteiras, imposição de costumes ou a simples limpeza étnica dos derrotados. Posso estar errado, mas parece que quando se fala em indígenas a palavra “inocência” meio que fica querendo sair pela boca (e ela parece alimentar de certa forma o argumento da não-interferência), como se eles fossem incapazes de fazer o mesmo que os caraíbas invasores fizeram, apenas em uma escala menor. De resto, são tão incisivos na cultura alheia quanto lhes é possível ser. É claro que uma coisa não justifica a outra, mas há um certo verniz hipócrita sobre a borduna do “bom selvagem” de Rousseau.

“cultura não se discute”

De todas as posições que eu pude ler dentro do tópico debatido, as que soaram mais perigosas, as que abrem péssimos precedentes de conduta reprovável são aquelas, à exemplo do Relativismo Cultural antropológico, que deixam vazar a falácia de que “cultura não se discute”. Homofobia, ginecofobia, racismo, preconceitos em geral afloram quando adubados corretamente com respeito cultural automático.

Enquanto o assunto é infanticídio ritualístico indígena, a tomada de posição é mais fácil, uma vez que olhamos a coisa de fora. Embora não goste muito de argumentar com hipóteses, tenho a impressão de que se ao invés de infanticídio a palavra fosse homicídio, e o escopo populacional fosse, ao invés de indígena, fosse dentro do seio do que chamamos “nossa sociedade”, teríamos opiniões menos respeitosas e mais condenatórias.

Volto a frisar que o relativismo cultural só pode ser respeitado nos pontos onde ele não sobrepõe as leis estabelecidas de uma sociedade. O contrário seria a chave para a barbárie, onde cada um poderia fazer o que quisesse, amparado pelo respeito obrigatório que sua cultura supostamente mereceria. Não há aqui um desmerecimento ou escalonamento cultural, mas de uma hierarquização de poderes, onde as leis estabelecidas pelo país onde reside a cultura estariam acima da cultura, mesmo que essas mesmas leis tenham alicerces calcados em modelos culturais ainda mais antigas, como a romana.

Se tomarmos que os extremos são sempre muito difíceis de serem atingidos, é possível afirmar que nunca existirá uma sociedade 100% boa ou 100% má (a despeito do hábito humano de ser, bem… humano). Um exemplo que costumo dar é a cultura judaica do Velho Testamento e do Novo Testamento. À despeito da existência ou não de um Jesus messiânico, a mensagem implícita em suas linhas mais básicas calcada no amor a seu semelhante (mesmo que semelhante seja outro judeu e com o acréscimo da figura skinneana do Inferno punitivo), é de alguma forma um avanço considerável em relação a mensagem do Javé vingativo, punitivo e sádico do tempo antigo.

Essa e outras práticas ritualísticas, embora talvez possam até esconder alguma vantagem evolutiva desconhecida para a aldeia (coisa que duvido), é de muitas formas, anacrônica com nosso modelo social atual. Daí não é certo que ela seja gratuitamente aceita como sendo “normal”, entendendo normal como sinônimo de vigente. Não enquanto não haja um estudo que comprove essa hipótese. E mesmo que ela se torne verdadeira, ainda assim, uma atitude dessa que aos nossos olhos pode parecer cruel, deveria ser refreada de alguma forma. Ainda mais quando não é só a morte de está em jogo. O aborto também flerta com a “morte” do embrião, entre aspas pois em geral a prática é feita em estágios tão iniciais da gestação que o descarte não é mais do que um amontoado de centenas de células. E o mesmo não é posto em prática por motivos religiosos, mas por saúde da mãe (tanto física quanto psicológica, nos casos de vítima de estupro) quanto do embrião, nos casos de má formação congênita irreparável que ponham em risco sua sobrevivência. Ao contrário dos indígenas que, além de recém nascidos, podem matar também crianças de mais idade, até seus 15 anos, pelas mais diversas causas, geralmente supersticiosas. Sem contar que esse tipo de morte assume contornos ritualísticos na proporção de que as crianças são enterradas vivas, envenenadas, sufocada com folhas ou abandonadas na floresta sem ao menos uma observância de algum método menos aflitante. Nesse caso, faz parte do ritual promover esse tipo de sofrimento. Nada que muitos outros povos já não tenham feito ao longo de sua história, inclusive os hebreus, cuja fé cega de um de seus patriarcas é celebrada como uma virtude na figura mítica de Abraão sacrificando Isaque no Monte Moriá.

Nosso modelo de sociedade e cultura, embora distante do que seria um ideal de justiça, tolerância e respeito, é ainda um modelo que oferece muito mais benefícios que o adotado pela cultura indígena média. E que o relativismo cultural automático é uma falácia, uma forma preguiçosa adotada atualmente por quem tem preguiça de discutir, de debater e que pouco tem a ver com o real respeito à valores que norteiam uma sociedade esclarecida.

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4 Pings to "Os perigos do respeito automático"

  1. Crianças albinas são acusadas de bruxaria na África » Ceticismo.net disse:

    [...] Mas não esqueçam que temos que preservar as culturas, assim como temos que preservar infanticídios indígenas. [...]

  2. Indianos sacrificam menina em troca de colheita. Mas religiao e legal » Ceticismo.net disse:

    [...] Indianos sacrificam menina em troca de colheita. Mas religiao e legal Seja o primeiro a comentar Escrito por André. Ceticismo, Comportamento, Cultura, Filosofia, Idiocracia, Mídia, Mitos Desmascarados, Pérolas Religiosas, Pseudociência, Psicologia, ReligiãoTags: assassinato, Hinduísmo, hindus, Macumba, psicopata, sacrificio, safadeza, vodu Nada, eu disse NADA pode ser mais ridículo quando o "pensamento" religioso acaba dando vazão à estupidez (o que acontece quase sempre). Isso aliado aos defensores de células culturais que devem ser "preservadas" por algum motivo espúrio que escapa à minha compreensão. Este relativismo cultural acaba servindo de desculpa para quaisquer atrocidades que mentes tacanhas e que ainda vivem na pré-história façam. E não pense que isso é só lá na Índia. [...]

  3. Sitio arqueologico mostra estilo de vida em Mexico pre-hispanico » Ceticismo.net disse:

    [...] É tentador criticar o modo de vida e as religiões do passado. No futuro, também nos criticarão. Não que eu esteja tentando defender rituais de sacrifícios de qualquer espécie, mas devemos entender a data em que isso ocorreu, diferente de índios hoje ainda terem esta "cultura" (v. Os Perigos do Respeito Automático). [...]

  4. Índios, hipócritas e politicamente ditatorial » Ceticismo.net disse:

    [...] Eu tenho direito à crença (ou de não tê-la) e de expor a minha opinião, desde que ela não infrinja a lei, e há leis claras que proíbem assassinato de crianças, por exemplo. Mas aí chega a palhaçada do "relativismo cultural". [...]


21 respostas para "Os perigos do respeito automático"

  1. 1. hiltongil disse:

    Excelente texto. Em conversa com alguns amigos já havíamos trocados algumas palavras sobre isso, mas o referido artigo tratou de forma clara e concisa de um assunto que ainda incomoda muitas pessoas. Parabéns.

  2. 2. Rinaldo Leriano disse:

    O infanticídio praticado por essas tribos indígenas é revoltante, convenhamos, mas interferir nas práticas ancestrais desses povos, impondo nossas regras de boa conduta, não seria tão revoltante quanto? Levando-se em conta as experiências passadas de contato travado entre a nossa cultura e a deles (vide a catequização) e no que isso resultou, poderíamos esperar conseqüências melhores dessa vez? Não é segredo que no seio da nossa sociedade “civilizada”, entre as crianças disponíveis para adoção, as mais procuradas são as de aspecto europeu, portanto, o que faz algumas pessoas pensarem que indiozinhos com deficiência física ou mental teriam maior sorte que crianças negras (saudáveis), por exemplo? Sugiro que deixemos nossa moral hipócrita de lado e em vez de nos metermos em assuntos que não são da nossa alçada (pelo menos não diretamente) tratemos primeiramente de resolver nossos próprios problemas sociais.

    Administrador André respondeu:

    O infanticídio praticado por essas tribos indígenas é revoltante, convenhamos, mas interferir nas práticas ancestrais desses povos, impondo nossas regras de boa conduta, não seria tão revoltante quanto?

    Pq seria?

    Levando-se em conta as experiências passadas de contato travado entre a nossa cultura e a deles (vide a catequização) e no que isso resultou

    Não estamos falando de substituição de deuses e sim de assassinato.

    poderíamos esperar conseqüências melhores dessa vez?

    Menos pessoas sendo mortas em nome de… do que mesmo? Eu posso me converter a essa fé, que tal?

    Não é segredo que no seio da nossa sociedade “civilizada”, entre as crianças disponíveis para adoção, as mais procuradas são as de aspecto europeu, portanto, o que faz algumas pessoas pensarem que indiozinhos com deficiência física ou mental teriam maior sorte que crianças negras (saudáveis), por exemplo?

    Non sequitur. Nnguém mata crianças de aparência não-caucasianas.

    Sugiro que deixemos nossa moral hipócrita de lado e em vez de nos metermos em assuntos que não são da nossa alçada (pelo menos não diretamente) tratemos primeiramente de resolver nossos próprios problemas sociais.

    Acabei de me converter a essa fé. Acho que devemos matar crianças, sacrificar bodes pretos e dançar nus no meio da rua. Vamos parar de tomar remédios, vamos contratar um xamã pra encher a cara de cauim e ficar rezando para entidades mágicas da floresta curarem as pessoas.

    Rinaldo Leriano respondeu:

    @André,
    “Pq seria?”

    Porque comunidades indígenas têm seu próprio código moral, por mais perturbador que nos possa parecer. Além disso as vítimas do que para nós certamente é crueldade têm pais e mães; que o instinto materno seja sensibilizado (uma vez que as mães são notoriamente mais sensíveis do que os pais) e iniciem sua revolta como em um dos links demonstrados no texto.

    “Não estamos falando de substituição de deuses e sim de assassinato”

    Catequização foi apenas um exemplo; a inserção dos nossos valores na cultura indígena fez com que um grande número deles perdesse a identidade, vindo se juntar à massa de indigentes das grandes cidades.

    “Menos pessoas sendo mortas em nome de… do que mesmo? Eu posso me converter a essa fé, que tal?”

    E quanto aos índios queimados vivos em Brasília e aos próximos que, desgarrados do seu local de origem por influência do homem branco, se não tiverem o mesmo fim aumentarão os bolsões de pobreza?

    “Non sequitur. Nnguém mata crianças de aparência não-caucasianas.”

    Abandonar crianças não-caucasianas à margem da sociedade não é outra forma de condená-las à morte?

    “Acabei de me converter a essa fé. Acho que devemos matar crianças, sacrificar bodes pretos e dançar nus no meio da rua. Vamos parar de tomar remédios, vamos contratar um xamã pra encher a cara de cauim e ficar rezando para entidades mágicas da floresta curarem as pessoas.”

    Sem apelação, André.

    Administrador André respondeu:

    Porque comunidades indígenas têm seu próprio código moral, por mais perturbador que nos possa parecer.

    Então, qualquer um que for morar com eles terá que se submeter a prescrever também um ato cruel de assassínio?

    Além disso as vítimas do que para nós certamente é crueldade têm pais e mães; que o instinto materno seja sensibilizado (uma vez que as mães são notoriamente mais sensíveis do que os pais) e iniciem sua revolta como em um dos links demonstrados no texto.

    É o mesmo caso que o pai que assou a filha no microondas. Sendo isso parte de sua conduta (Deus mandou e devemos obedecê-lo), temos que aceitar como normal, certo?

    Catequização foi apenas um exemplo; a inserção dos nossos valores na cultura indígena fez com que um grande número deles perdesse a identidade, vindo se juntar à massa de indigentes das grandes cidades.

    Uma coisa não tem nada a ver co outra. Se somos contra um bando de malucos, como os seguidores de David Koresh, por que aceitar um bando de selvagens? Na boa, isso não é, nunca foi nem nunca será algo definido como “cultura”. Qualquer um que estude um pouco de antropologia verá que tal ato é bárbaro, além do que tais “culturas” não enriqueceram sua própria sociedade em nada.

    E quanto aos índios queimados vivos em Brasília e aos próximos que, desgarrados do seu local de origem por influência do homem branco, se não tiverem o mesmo fim aumentarão os bolsões de pobreza?

    Vejamos: Devemos impedir que índios sacrifiquem crianças em rituais “mágicos”. Isso faz os índios irem para as cidades, virem mendigos e sejam queimados por jovens de classe média/média-alta. Preciso comentar o quanto sua proposição é totalmente idiota ou vc é capaz de deduzir por si só?

    Abandonar crianças não-caucasianas à margem da sociedade não é outra forma de condená-las à morte?

    Non sequitur. Uma coisa não tem nada a ver com outra. Não é porque há políticos que desviam verbas que eu serei assaltante.

    Sem apelação, André.

    Apelação? Ué? Segui seu pensamento.A cultura indígena diz para assassinar,desculpe, sacrificar crianças por um motivo qualquer. Bem, a ICAR achou que mulheres que tinham gatos eram bruxas e mereciam ir pra fogueira. Diga, vc já leu o Malleus Maleficarum? É um perfeito exemplo de uma cultura de uma época, a qual foi substituída por outra. Deveríamos manter essa cultura até hoje.

    Diga, quando vc passa alguma pessoa sente dor de cabeça?

    Rinaldo Leriano respondeu:

    @André,
    André, não sei se você não entendeu ou fingiu que não entendeu o que eu digitei. Da minha parte eu deixei bem claro meus pontos de vista, não queira distorcê-los, faça o favor. Se sou “idiota” por querer defender essa argumentação então a maioria dos que aqui comentaram também o é, já que pareceram seguir a minha linha de raciocínio.

    Administrador André respondeu:

    Não vi ninguém concordando que devemos deixar pseudoculturas pré-históricas matar crianças. Ademais, vc não vai me tascar uma falácia de apelo ao número, né?

    Raphael respondeu:

    @André,

    Então, qualquer um que for morar com eles terá que se submeter a prescrever também um ato cruel de assassínio?

    Quando se está em solo estrangeiro, não se faz necessário obedecer a constituição e costumes vigentes naquela sociedade?

    Quando estabeleceram a atual constituição esses povos jamais foram consultados. Foi-se automaticamente assumido que todo tipo de assassinato deveria ser ilegal, sem nunca observar e debater os beneficios e maleficios desses valores culturais.

    Acredito que ainda que houvesse um debate teriamos chegado a mesma conclusão, mas o fato é que esses povos e sub-culturas foram excluídos no momento mais fundamental da formação da nossa sociedade e cultura, então acho justo total autonomia do estado brasileiro que os segregou no momento mais primordial.

    Administrador André respondeu:

    Quando se está em solo estrangeiro, não se faz necessário obedecer a constituição e costumes vigentes naquela sociedade?

    Então, os indigenistas deveriam matar seus próprios filhos tb, ao morarem com essa tribo, certo? (por que ninguém responde minhas perguntas diretamente?)

    Quando estabeleceram a atual constituição esses povos jamais foram consultados. Foi-se automaticamente assumido que todo tipo de assassinato deveria ser ilegal, sem nunca observar e debater os beneficios e maleficios desses valores culturais.

    HAHAHAHAHAHAH Ok, ok. Uma tribo que nem tem escrita é capaz de deliberar sobre rituais mágicos, né? Ótimo. Voltemos à Idade Média. Com licença, minha vizinha tem um gato preto. Vou lá colocá-la na fogueira.

    Acredito que ainda que houvesse um debate teriamos chegado a mesma conclusão, mas o fato é que esses povos e sub-culturas foram excluídos no momento mais fundamental da formação da nossa sociedade e cultura, então acho justo total autonomia do estado brasileiro que os segregou no momento mais primordial.

    Vou fingir que o que vc falou faz sentido.

  3. 3. Tanatos disse:

    Pela peculiáridade de eles (os índios) estarem aqui antes de nós, penso que: ou se tornam cidadãos brasileiros, com registro de nascimento, carteira de identidade… pagem impostos como IPTU, e se submetam a Lei como tal. Ou que fiquem isolados, nas reservas, como uma sociêdade independente, longe dos impostos, longe da sociedade dominante e da interferência da Lei da sociedade dominante – a não ser, é claro, que cometam algum crime (do ponto de vista da sociedade dominante) contra um cidadão da sociedade dominante.

    Eles que são índios, eles que se matem.

    Peres respondeu:

    @Tanatos, Estarem aqui antes de nós? kkkk..Você com certeza deve ser um legítimo europeu! Haaa e do tipo genuíno…Porque o brasileiro (o tipo urbano, “nós”) atual, não é nada mais do que um descendente de uma mistura de raças…Ou seja, nos originamos aqui e não viemos de lugar algum! Ou vc se acha europeu ou branco (genuíno) por ter traços caucasiano?

  4. 4. Jefferson Garcia disse:

    Excelente tema e ótima abordagem sobre o assunto. Realmente isso parece mais complicado do que já possa ser. Creio que caiba a nossa sociedade tentar intervir, de modo pacífico e não-arbitrário sobre esse “problema”(na nossa perspectiva, é claro!).
    Talvez, uma das formas seria a tentativa de acordos e conscientização com as comunidades indígenas, por meio de etnólogos e antropólogos que estejam diretamente ligados a eles, tanto por laços diretos de pesquisa de campo, quanto por conhecimentos por meio de documentos.
    Muito já se conhece sobre o universo mágico-religioso indígena, principalmente das tribos de etnia tupi-guarani e “tapuia”. Sabemos que há inúmeros rituais para variadas fases e condições de vida nessas sociedades (na verdade, todas as sociedades possuem ritos de passagem, em maior ou menor grau), poderia portanto ser tentado uma espécie de concientização de que a criança a ser executada a fosse somente ritualisticamente, sem sangue.
    Me veio isto a mente após assistir (já faz uns 7 anos) um vídeo sobre a execução de um indiozinho por algum dos motivos tribais. Após o ritual de enterrar o garoto vivo, feito creio eu pelo próprio pajé, a mãe da criança e seu irmaozinho mais velho (de uns 10 anos) assistiam ao ritual, após esse se concretizar, o irmão retirou a criança da terra ainda viva, e uma frase do pajé me marcou. Sem intervir na intervenção do garoto, ele apenas disse que isso de nada adiantava, pois a criança já estava morta para a comunidade.
    O que quero dizer com isto, que os acordos e conscientizações na qual me referi acima sejam uma forma de incentivá-los (os índios) a rituais “brancos”, sem a necessidade de retirar a vida da criança, pois uma vez que o rito esteja feito, mesmo que a criança esteja viva, os índios já estarão resguardados dos preceitos que os levam a agir de tal forma. E então, que a criança “morta” seja retirada da sociedade que já a rejeitou e trazida para os cuidados do Estado. Pois, como já foi dito, não adianta impor que o ritual e o sacrifício não ocorra e essa criança cresca a margem da sociedade da qual nasceu, sendo um indivíduo “morto-vivo”.
    Obviamente, para cada tribo haverá uma estrutura ritual diferente, em que, por exemplo, somente o sangue concretiza o ritual, mas creio que toda a tentativa é válida para ao menos minimizar o dano, quando o que estiver em jogo, antes de subjulgar determinada tribo a um sistema de regras via autoritarismo, seja a independência cultural e legal de tais sociedades.

  5. 5. Antonio Sanches Parra disse:

    Rodrigo, parabéns por trazer esta questão a discussão, por sinal muito difícil e polêmica.

    Não existe idéia que seja absoluta, o certo e errado não existe, nós criamos regras e a ética, para organizamos melhor a conduta do ser.

    Os jesuítas no passado catequizaram os índios submetendo todos a uma violência sem precedentes, impondo as besteiras acerca de jesus, modificando o seu modo de ver o mundo, por que as besteiras nossas é mais importante do que a dos outros.

    Vivemos sobre regras e convenções sociais, que na verdade disfarçado é um grande monstro chamado IMPOSIÇÃO, onde a questão da liberdade intelectual deve ser cadastrada para não incomodar a ordem pública, a corrupção é uma forma de violência maior que qualquer assassinato, mas é permitido somente por questão cultural, e é desta forma que procuro ver,não devemos intervir de maneira alguma sobre a forma como cada povo conduz seus costumes, porque nossa visão da coisa é diferente e não devemos impor. Se for o contrário, devemos mudar os Hindus os Chineses os Canibais na África e etc.. , e todos os costumes diferentes do nosso, porque não é a vontade do senhor.

    Doutrinam nossas crianças “para o caminho do bem”, quando na verdade o bem pode significar escravidão sobre a ordem e a vontade do senhor”. Quem estabelece o que é bom ou mau em uma cultura é o poder, nós somos um bando de coitados e ainda não demos conta disso. QUALQUER FORMA DE PODER SEMPRE SERÁ A FORMA, MAIS VIL E COVARDE DE CONDUZIR UMA SOCIEDADE.

    Antonio Sanches Parra respondeu:

    @Antonio Sanches Parra,

    cadastrada (não) castrada (sim).

    utilizo o google chrome, e parece apresentar algum problema com o mini editor.

  6. 6. Rodrigo Souza a.k.a. Sargento disse:

    Agradeço os elogios.

    Apenas ratificando minha posição: a intromissão cultural não é 100% boa o tempo todo. A história deixa isso bem claro quando analisamos África, India, Europa Ocidental e Oriental, Ásia, Américas e Oceania. Em suma: todos os ambientes onde um dia houve seres humanos, houve também intercâmbio cultural, forçado ou não. A notícia recente de possível acasalamento entre Sapiens e Neandertais é um exemplo de cultura que subjugou a outra pela força levando-a a extinção, de acordo com algumas teorias.

    E já que falamos pela força, há casos que a soberania nacional nos impede de fazer o mesmo, o que difere do nosso caso doméstico. A diplomacia entre nações coloca sistemas de leis em confronto com outros. Por mais indignante que seja, não podemos fazer nada diretamente contra os países árabes que matam homossexuais, maltratam mulheres pelo fato de serem mulheres, Nesses casos a intromissão forçada significaria guerra. Mas mesmo a não militarização direta impediu que uma cultura fosse absorvida por outra.

    O capitalismo ocidental viveu décadas empurrando fronteiras com o socialismo oriental até que o segundo não resistiu aos gastos e quebrou. Em seguida, sem que houvesse necessidade de armas, o modo de vida ocidental atravessou as muralhas e encontrou acolhida em quem há pouco tempo era inimigo ideológico mortal. Os países que insistiram em protecionismo e na não aceitação do modo de vida ocidental, passaram por muitos revezes por motivos de embargos e disputas internas pelo poder fragmentado. O que ocasionou muitas mortes desnecessárias por fome e conflitos étnicos. O próprio patrimônio nacional mineral e biológico foi aos poucos sendo dilapidado pelas potências maiores, ávidas por esses recursos valiosos.

    Argumentei esse último parágrafo propositalmente sem citar nomes e recursos para deixar claro, provavelmente com um certo exagero da minha parte, o quanto se assemelha com o nosso caso indígena.

  7. 7. Daniel Sugui disse:

    Oras, os indígenas fazem isso para o bem de sua sociedade, da mesma maneira que os espartanos faziam. Acho que deveríamos assimilar esse traço cultural tão fascinante na nossa própria sociedade, pensem em quanto dinheiro seria economizado em despesas médicas se não precisassemos cuidar de bebês doentes! :twisted:

  8. 8. Iury BAS disse:

    Concordo com o Tanatos. Se eles, os índios, receberem algum tipo de benéfico da nossa sociedade como assistência, saúde, energia elétrica entre outras coisas básicas da nossa civilização, que se responsabilizem a cumprirem também as demandas exigidas pela nossa sociedade em troca de tais benefícios. Caso não usufruam de tais benefícios, utilizando apenas seus métodos próprios de sobrevivência sem nenhuma intervenção da sociedade em maioria, então que façam o que bem entenderem com sua civilização independente.

    Outro ponto porem é a questão da validade das leis sobre todo o território nacional, o que implicaria com a estadia deles no território brasileiro, estando assim submetidos às leis predominantes. É uma questão bem complicada, mesmo sendo um caso de selvageria e desrespeito à vida humana.

  9. 9. Luisa disse:

    Por um lado, é um desrespeito à cultura deles, mas, por outro, ainda é um assassinato. O fato de matar alguem ser considerado crime foi algo que foi trazido pra cá, tudo bem, mas temos que concordar: que direito eles têm de decidir se os indiozinhos vão lhes ser uteis ou não? Eles podem ta matando um futuro genio, alguem com uma vida brilhante…nunca se sabe!
    Nos paises do Oriente, é comum vermos homens bombas, que se matam por questões culturais, mas, além de se matarem, matam quem estar ao redor. Creio eu que ninguem se conformaria se algum parente querido fosse pra lá e morresse por conta de um homem bomba. Acho que ninguem olharia e falaria “Ah, tudo bem, dexa matar, é cultura”. É uma questão de manter um equilíbrio…tentando respeitar a lei e a cultura…Assim como nós, eles pertecem a uma terra que foi dominada por europeus, vivemos sob costumes que foram herdados…eles não podem ignorar esse fato. Se um indio mata uma criança por não considerá-la util aqui, ele vai preso, mas matam as crianças deles e não vão presos? Como assim? Apesar de diferentes culturas, ainda estamos sobre o mesmo solo…o mesmo país. Concordo com o Iury BAS em alguns pontos…porém, não acho que a falta de recursos justifique o fato deles decidirem quem vive e quem morre. Como ele disse: “É uma questão bem complicada, mesmo sendo um caso de selvageria e desrespeito à vida humana.”
    E parabéns pelo artigo, a escolha do assunto foi muito bem feita.

  10. 10. Paula disse:

    Eu não quis ver nem o fim do filme.

    Isso é lamentável!
    O que podemos fazer? :cry:

  11. 11. Paula disse:

    Como rezar não vai adiantar estou me inteirando sobre o assunto.

    http://www.hakani.org/pt/envolva_se.asp

  12. 12. drumyoshiki disse:

    Com certeza não vejo nenhum sentido em matar uma criança por ela ser filha de mãe solteira, ou por simplismente possuir um irmão gêmeo.

    Mas olhando pelo caminho natural da evolução e pelo aspecto genético, eu consigo sim, enxergar uma vantagem evolucionária em evitar a criação de bebês com mutações indesejadas. Me corrija se eu estiver errado Sarjento as known as Rodrigo Souza:

    Indivíduos doentes ou com deformidades e/ou deficiências físicas, em geral não conseguiriam trazer alimento para a aldeia, sendo assim, eles são, não mais do que um fardo para a sociedade caçadora e coletora em que vivem.

    E mesmo que estes indivíduos não sejam totalmente inúteis ou sejam apenas fardos menores a carregar-se, as suas mutações são danosas, e ninguém gosta quando seus descendentes “nadam” numa piscina de genes defeituosos. Não concordas?

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