Crença no “Arrebatamento” é colagem de textos bíblicos
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Tags: apocalipse, fim do mundo, interpretacao forçada, lendas, mitologia biblica
“Em caso de Arrebatamento, este veículo ficará desgovernado.” Adesivos com esses dizeres podem ser vistos nos carros de evangélicos do mundo inteiro, inclusive no Brasil. A ideia é que, no fim dos tempos, os cristãos realmente fervorosos serão arrebatados (daí o nome) de corpo e alma para o céu, enquanto uma série de catástrofes naturais e políticas afetarão a Terra durante sete anos. Ao fim desse período, Jesus voltará como conquistador ao nosso planeta, derrotando o Anticristo numa grande batalha em Israel. Esse cenário épico é inspirado em várias passagens da Bíblia – mas é preciso forçar consideravelmente a interpretação do texto sagrado para chegar a ele, de acordo com especialistas.
Em essência, a crença no Arrebatamento é uma colagem de trechos do Novo e do Antigo Testamento, cada um deles com perspectivas diferentes sobre o futuro da humanidade e o retorno glorioso (?) de Jesus Cristo à Terra. “É uma tentativa de criar um mapa dos eventos futuros com base, por exemplo, no Apocalipse, no capítulo 13 do Evangelho de Marcos e na Primeira Carta de Paulo aos Tessalonicenses”, diz Paulo Augusto Nogueira, professor da pós-graduação em ciências da religião da Universidade Metodista de São Paulo.
De acordo com o americano Thomas Sheehan, estudioso do cristianismo primitivo e professor da Universidade Stanford, a ideia do Arrebatamento é relativamente recente. “Ela foi criada pela primeira vez no começo do século XIX, graças ao trabalho do pregador evangélico John Nelson Darby, e foi se tornando cada vez mais codificada ao longo do século XX, até chegarmos aos cenários detalhados que cristãos conservadores de hoje defendem”, diz Sheehan. As chamadas igrejas cristãs históricas, como a Igreja Católica, a Igreja Anglicana e as várias igrejas luteranas, não adotam as mesmas crenças.
Claro, né? Se fosse verdade, já a teriam adotado desde o início… Por que será que demoraram quase dois milênios para ter essa “grande” ideia?
Sheehan resume da seguinte forma o cenário mais popular para os acontecimentos ligados ao Arrebatamento entre os evangélicos americanos. O primeiro evento envolve o surgimento do Anticristo, provavelmente um diplomata de grande prestígio internacional e membro da tribo israelita de Benjamim (um judeu, portanto). O Anticristo faz um acordo de paz com o estado de Israel, permitindo que o Templo judaico, destruído há quase 2.000 anos, seja reconstruído em Jerusalém. Ao mesmo tempo, um dos subordinados do Anticristo, um financista conhecido como o Falso Profeta, cria um sistema – talvez um cartão magnético – que unifica o planeta economicamente. Vejam o nosso artigo sobre o cartão magnético. Uma mentira refutada.
É nesse ponto que ocorreria o Arrebatamento. “Os verdadeiros cristãos – o que exclui católicos, episcopais e outros grupos mais moderados – são arrebatados para o céu deixando até suas roupas”, diz Sheehan. “Quem fica para trás, segundo essa visão, são os chamados cristãos mundanos, ou cristãos formais – justamente os que não acreditam que o Arrebatamento iria ocorrer. Isso é muito típico da mentalidade sectária: só nós somos os detentores da verdadeira revelação”, explica Nogueira.
O número de evangélicos no mundo é de apenas 395 milhões de pessoas. Ou seja, ficam de fora 6.337.000.000 pessoas que vivem na Terra!! Que amorosos!
Logo após os cristãos serem arrebatados, começam cerca de sete anos da chamada Tribulação, em que o mundo todo sofre com guerras, catástrofes naturais e genocídios. Traindo os judeus, o Anticristo coloca uma imagem de si próprio – a chamada Abominação da Desolação – no Templo de Jerusalém, profanando o local sagrado. No fim da Tribulação, Jesus volta à Terra montado num cavalo branco, à frente do exército divino, e derrota as forças do Anticristo numa grande batalha perto da localidade israelense de Megiddo – é daí que vem a expressão “Armageddon”, ou seja, “montanha de Megiddo”.Isso tudo andou forçando muito a barra… cavalo branco? Ele vem com a Excalibur também? Parece coisa de épicos medievalis, com sonhos românticos que só trovadores cantam e meninas que imaginam seus príncipes para buscá-los! – Não era para Jesus vir de paraquedista no meio de umas nuvens?
“Após essa batalha, Jesus dará aos judeus uma última chance de aceitá-lo como seu Messias. Os que recusarem serão massacrados; os que seguirem Jesus farão parte de seu reino na Terra, uma Era de Ouro de grande prosperidade, saúde e paz, que durará mil anos”, diz Sheehan. No fim desse período, o Demônio tentará atacar o reino de Jesus, mas será definitivamente derrotado, e “um novo céu e uma nova Terra” serão criados. Os mortos ressuscitarão e serão julgados de uma vez por todas.
Legal, né? O amoroso Jesus vai massacrar judeus (e só os judeus. Ainda bem que não somos judeus aqui no Cet.net)! Um exemplo de belo amor ao próximo, que maravilha de respeito pela individualidade e caráter pessoal! E tem mais… se o deus judeu-cristão é tão Tri-Omni, por que ele não consegue acabar com o Demônio de uma vez por todas e se livrar definitivamente do problema? Ou o Demônio possui um poder divino que rivaliza com o próprio deus?
Essa linha do tempo detalhadíssima tem dois pressupostos ocultos. O primeiro é que todos os textos bíblicos sobre o fim do mundo funcionam como peças, que têm de ser juntadas pelos cristãos para montar o retrato completo do Apocalipse. O segundo é que os autores bíblicos escreveram suas profecias de olho no futuro distante, prevendo eventos como o ressurgimento de Israel em 1948 ou a invenção dos cartões de crédito.
Ambos os pressupostos provavelmente estão errados… quer dizer, provavelmente não! Com certeza que estão errados! “É importante a gente reconhecer que há vários tipos diferentes de expectativa apocalíptica entre os autores do Novo Testamento”, diz Nogueira, que é autor do livro “O que é Apocalipse” (Editora Brasiliense). ”O único a realmente falar numa espécie de arrebatamento é Paulo, na Primeira Carta aos Tessalonicenses”, afirma. Nas cartas realmente escritas pelo apóstolo Paulo (várias das que estão no Novo Testamento parecem não ser de autoria dele – Bart Ehrmann identificou 5 epístolas falsas na Bíblia), o líder cristão não fala da Tribulação ou da batalha em Megiddo, mas parece ver o retorno de Cristo de forma simultânea com a ressurreição dos mortos e o arrebatamento dos fiéis ainda vivos.
“Já no Apocalipse, parece claro que os fiéis cristãos não são levados para o céu, mas passam por toda a Tribulação aqui mesmo na Terra”, explica o especialista brasileiro. “E existem algumas tradições no Novo Testamento, como o Evangelho de João, que parecem não se preocupar com esses cenários apocalípticos. João fala diretamente em vida eterna para o fiel, sem uma perspectiva clara do retorno de Jesus.”
Outro ponto importante é que as profecias cristãs, em especial as do livro do Apocalipse, têm relação direta com a realidade de perseguição que os fiéis do século I estavam enfrentando. É quase certo, por exemplo, que o misterioso número 666, associado ao Anticristo, seja apenas uma representação do imperador romano Nero, supostamente responsável por executar Pedro e Paulo entre os anos 64 e 67 de nossa era. Nos alfabetos hebraico, aramaico e grego, cada letra tinha um valor numérico, e a soma das letras do nome “Nero César” poderia chegar a esse valor, dependendo de como a conta é feita.
Também são feitas referências às sete colinas da cidade de Roma, entre outros elementos do império inimigo dos primeiros cristãos. Para Nogueira, todo o cenário de guerra que circunda o livro do Apocalipse indica que ele provavelmente foi escrito por cristãos de origem judaica, cuja comunidade ficou traumatizada com a destruição de Jerusalém pelos romanos no ano 70. “Quem não vê esse contexto imediato da narrativa desconsidera o primeiro leitor desses livros”, resume ele.
E lembrem-se: O Apocalipse foi escrito tendo-se em vista os acontecimentos do século I EC, e o conteúdo desse livro foi dirigido ao Império Romano, mas não tendo em mente os acontecimento do futuro! Ou seja, qualquer interpretação desse livro para que se encaixe nos fatos dos dias de hoje, é mera especulação e forçamento de barra! E no Concílio de Nicéia ocorrido em 325 EC, o livro de Apocalipse foi rejeitado, por ser considerado não-canônico, e somente no século IV, é que foi incluído, com a realização do Concílio de Cartago em 397 EC, após muita pressão dos bispos proto-ortodoxos para usá-lo como arma de evangelização na Europa que ainda resistia às conversões forçadas. E deixaram de fora outros evangelhos apócrifos, como o Apocalipse de Pedro, por ser considerado gnóstico.
Entretanto, nada disso quer dizer que os primeiros cristãos entendessem suas próprias esperanças apocalípticas de forma alegórica ou simbólica. “Em parte, a linguagem do Apocalipse é a do êxtase profético, mas eu não duvido muito que eles fizessem uma leitura literal dele. Até porque o livro coloca tudo em termos radicais – ele não admite uma postura neutra”, diz Nogueira. A bem da verdade, o conceito de profecia nas comunidades judaicas é diferente do que o senso comum prega.
Para judeus, profetas são aqueles que anunciam as decisões de Javé que estão para vir em muito curto espaço de tempo. Como é o caso do Dilúvio, Moisés no Egito, Jonas em Nínive e Lot e as cidades de Sodoma e Gomorra. Vai sempre um profeta servindo de porta-voz. Eles nunca anunciam futuros distantes, pois previsões assim são terminantemente proibidas pelas leis mosaicas, sob pena de morte por apedrejamento.
Dessa forma, cristãos cometem o soberbo erro de achar que há profecias a serem cumpridas. Não há. O mito de Jesus Voltará não passa disso: um mito, pois ele mesmo falou que viria logo, antes que aquela geração passasse. Aquela passou, outras vieram e nada de Jóquei de Jegue.
Levando isso tudo em conta, como os cristãos modernos deveriam encarar as profecias apocalípticas sem cometer erros de interpretação nem anacronismos? “Essa é a grande questão”, reconhece Nogueira. “Acho que podemos vê-las como a resposta de irmãos de fé diante da perseguição. E também como uma mensagem de esperança, que pode ter uma força muito grande.” Seja como for, não custa nada levar em consideração a advertência do próprio Jesus, no Evangelho de Marcos, a respeito de quem deseja prever com exatidão o fim do mundo: “Mas daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos que estão no céu, nem o Filho, senão o Pai”. Ou seja, nem mesmo Jesus era onisciente, posto que o FILHO não sabe a hora com certeza. Que raio de deus é esse?
Claro que ninguém sabe, até porque o “arrebatamento” jamais vai acontecer, e o Jesus também nunca retornará, pois o mesmo nunca existiu na História como personagem real. São mitos. Não aparecerá nenhum disco voador para levar os santíssimos cristãos daqui (apenas 144 mil). De minha parte, que leve meus vizinhos chatos que ficam ouvindo música gospel em alto volume. Podem ir eles e todo o restante dos crentes toscos que v~em aqui encher o saco da gente.
Por mim, já vão tarde e – aí sim! – aqui virará um paraíso!
4 respostas para "Crença no “Arrebatamento” é colagem de textos bíblicos"
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dezembro 8th, 2009 em 21:27
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Gostei muito. Vou aproveitar para fazer uma observação sobre a perseguição aos cristão por Roma. Roma era um estado laico e permitia todas as religiões, inclusive o cristianismo. Os cristãos que eram condenados, eram condenados por atos contra outras crenças descumprimento de outras leis. Assim como hoje se um católico incendiar uma igreja evangélica será preso como incendiário e não por ser católico, e vice-versa. Os cristão condenado pelo incêndio de Roma assumiram a autoria do incêndio provavelmente acreditando que o velho mundo estava sendo queimado para o surgimento do novo mundo. Mas mesmo assim uma grande quantidade de cristão continuaram vivendo em Roma.
dezembro 9th, 2009 em 12:19
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…. E tudo isso é porque deus nos ama ….
dezembro 9th, 2009 em 14:18
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Por preguiça, incompetência, fata de oportunidades ou outro motivo qualquer, algumas pessoas não conseguem uma vida satisfatória, por isso se prendem a uma ilusão de uma outra vida após esta, desejando ardentemente o final deste sistema de coisas, Armageddon já. Pois são incapazes de entender a sua própria existência como temporária e finita, não sabem ou não querem lutar por uma vida melhor e saem por aí se apegando a fantasias de arrebatamento onde de repente alguém cisma e resgata os “santos” e ‘justos” kkkkkkkk, e manda todo o restante que não leu na mesma cartilha, que não abriu mão de sua vida e se tornou alienado, pro beleleu, demonstrando assim o seu senso de justiça e amor. Credooooooooooooooooooooooooooooo
dezembro 9th, 2009 em 16:22
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Tudo que a religião constrói, o conhecimento destrói =D