Um modelo que examina o comportamento de parasitas ao infectarem seus anfitriões torna desnecessário o paradigma evolutivo da seleção de grupo, afirmam cientistas do Canadá e do Reino Unido. O motivo para que organismos exibam comportamentos ou outras adaptações que não lhes sejam diretamente benéficos em termos individuais é algo que causou conflitos entre diferentes escolas de pensamento científico por gerações.
Abelhas que passam suas vidas servindo à rainha, por exemplo, e elefantes que cuidam dos filhotes de outros animais do grupo, estão participando de atos cooperativos que poderiam arruinar sua chance de reprodução enquanto espécimes individuais.
A seleção em grupo, um conceito em geral atribuído aos trabalhos do zoólogo britânico Vero Wynne-Edwards, nos anos 60, oferecia uma estrutura para a compreensão do equilíbrio entre as adaptações altruístas e egoístas, propondo que adaptações em nível de grupo, para possibilitar a sobrevivência de um determinado grupo, eram possíveis.
Defendida mais recentemente por outros cientistas, a exemplo de David Sloan Wilson, um biólogo evolutivo e professor na Universidade Estadual de Nova York em Binghamton, a teoria de grupo veio a significar seleção e adaptação em múltiplos níveis. Os traços selecionados podem conferir benefícios ao indivíduo, à família, ao grupo ou à sociedade.
Mas uma explicação alternativa – a seleção de parentesco, que se baseia na qualidade física do indivíduo e nos benefícios conferidos aos parentes mais próximos dele como parte da evolução sempre dominou o pensamento dos biólogos evolutivos ao longo dos anos.
Idéia infecciosa
A seleção de parentesco, que encontrou sua primeira expressão matemática no trabalho do biólogo evolutivo britânico William Hamilton mais ou menos na mesma época em que Wynne-Edwards propunha sua teoria, estuda a competência física geral de um indivíduo – o que inclui seu número de descendentes, mas também os indivíduos aparentados que ele auxilia. Os proponentes dessa idéia vieram a considerar o gene como unidade última de adaptação.
Em estudo publicado na versão online da revista Nature, Geoff Wild, matemático na Universidade do Oeste de Ontário, em London, Canadá, e seus co-autores expandem um modelo comum – o dos parasitas que infectam uma população de hospedeiros.
“A competência física mais ampla é o fator chave”, diz Wild. “Trata-se de uma nova e poderosa maneira de pensar sobre o mundo e de modelá-lo”.
Os parasitas são propensos a expandir seu nível de reprodução e, com isso, sua virulência, o que pode se provar fatal para os hospedeiros e assim deixaria os parasitas desalojados. Mas caso os parasitas reduzam seu índice de reprodução, limitando seu uso de recursos, podem se espalhar de hospedeiro a hospedeiro, propagando sua população.
Os pesquisadores modelaram essa virulência em contraste com o equilíbrio avirulento de três escalões: o do hospedeiro individual, o de um grupo de hospedeiros e o de uma ilha com muitos grupos de hospedeiros. “O que fizemos de inédito foi tomar uma abordagem explícita de seleção de parentesco com relação a esse modelo”, diz Wild. Um aspecto importante, diz, é que isso mede diferentes formas de sucesso reprodutivo que um parasita pode atingir, entre as quais as oportunidades de futura difusão.
Tudo a mesma coisa?
O estudo alega que todas as previsões sobre adaptação de populações podem ser realizadas sem invocar as adaptações em nível de grupo, e que a competência física individual pode determinar tudo que eles registram. Na verdade, as duas estruturas resultam nas mesmas previsões. Para Wild, porém, a seleção de grupo não representa uma maneira robusta de modelar o mundo real: “O cientista paranóico que vive em mim imagina se não deveríamos usar a ferramenta que sempre funcionará”.
No entanto, Wilson afirma que qualquer alegação de que a pesquisa torna obsoleta a teoria de seleção de grupo é “francamente enganosa”. Em lugar de substituir a teoria de grupos, ele diz, o artigo simplesmente a descreveu de maneira diferente, e que nem mesmo representa novidade em termos da linguagem da seleção de grupos. “Será que isso conta como exemplo de adaptação em nível de grupo? A julgar pela maneira pela qual esses conceitos foram definidos ao longo da história do tema, a resposta seria positiva”.
O modelo utilizado pelos autores presume que cada anfitrião individual possa ser infectado por apenas uma variante do parasita de cada vez. Entre outras questões que têm quanto ao estudo, Wilson destaca esta como uma deficiência devastadora. Ao não permitir que diferentes parasitas disputem a supremacia em um dado hospedeiro, a idéia desconsidera um indicador de competência física em momento crucial. “Se vamos falar sobre a evolução da virulência, temos de falar sobre a evolução em um único hospedeiro”.
Mas Wild diz que alterações como essas pouco fariam para melhorar o modelo. “Competição em um hospedeiro? Seria ótimo”, ele diz. “Mas o que não percebo é por que isso seria necessário para difundir a mensagem sobre adaptação que estamos tentando transmitir”.
Fonte: Nature News
Deixe um comentário
Mas, antes, leia a nossa Política de Comentários. Obrigado por sua participação.
Você precisa estar logado para deixar um comentário.
.



Últimos Comentários