Recife: quando muita fé escancara muito problema
Ateísmo e Agnosticismo, Ceticismo, Ciência, Comportamento, História, Idiocracia, Medicina, Mídia, Mitos Desmascarados, Pseudociência, Psicologia, Religião, Saúde, Tecnologia
Tags: credibilidade científica, cura milagrosa, educação científica, fé, problemas na educação, problemas na saúde
O Diário de Pernambuco do último dia 20 mostrou que a sociedade acredita muito mais no alegado poder da fé religiosa do que nas ciências médicas em se tratando de tratamento de doenças. Mais que uma mera questão de credo, a pesquisa escancarou dois problemas sérios: a educação brasileira dos últimos 50 anos fracassou retumbantemente no ensino de disciplinas científicas e a falência da saúde pública corroeu a credibilidade dos médicos e dos hospitais. Convém fazer a análise que o jornal não fez, a verdade que se escancarou, ainda que a constatação aqui presente irrite cristãos fundamentalistas.
Em primeiro lugar, a vitória da fé sobre a confiança na ciência mostra, ainda que só para os mais atentos, que as nossas escolas, ora as públicas ora as privadas, falharam seriamente no ensino de ciências e na transmissão dos valores do pensamento cético perante o mundo.
Falhou-se em explicar de forma convincente como o método científico suplantou as narrativas religiosas no que tange a explicar como o Universo e a vida surgiram e funcionam; como a ciência foi suplantando ao longo dos séculos respostas tapa-lacunas como “foi Deus” ou “foram demônios” para se explicar os mais diversos fenômenos naturais, dos cosmológicos aos medicinais; como invenções como a roda, o navio, as telecomunicações e a robótica só foram possíveis graças à ciência e à tecnologia, não à religião e a seus rituais; como e por que os povos antigos, desde muito antes do surgimento do povo hebreu, idealizaram deuses e desenvolveram religiões e normas divinamente atribuídas para orientar suas sociedades.
Sem uma educação científica decente e noção de por que e como a religião é transmitida, as pessoas se recusam a refletir sobre quem realmente está tratando seus problemas de saúde e ficam extremamente suscetíveis a ser vítimas fáceis da credulidade e de todo tipo de charlatanismo, curandeirismo e abuso da fé popular por parte de sacerdotes inescrupulosos. Carl Sagan, no livro “O mundo assombrado pelos demônios”, teve uma conclusão assim, quando explicou a interessante relação entre a alta incidência de fundamentalismo religioso, a pouca confiança na ciência e a baixa qualidade do ensino científico nos Estados Unidos. E agora estamos vivendo uma realidade muito parecida no Recife.
Além do fato de o nosso ensino não ter conseguido transmitir ciência adequadamente às pessoas, outra conclusão a que se chegou foi a baixíssima confiança dos hospitais públicos e dos médicos que servem nos mesmos. Como uma pessoa humilde pode confiar sua saúde em hospitais desprovidos de salubridade, em doutores que sequer sabem diagnosticar sua doença, em um sistema que não se compromete em salvar sua vida e devolver-lhe a saúde?
Não é de se estranhar que, desse jeito que é disponibilizado, o socorro médico deixe de ser visto como uma solução coerente para as pessoas tratarem seus piores males. Com o buraco deixado, a única “solução” é recorrer desesperadamente à fé no divino e ao primeiro pastor milagreiro que aparecer, ao melhor estilo de avião em queda, em que as pessoas depositarão fé em qualquer pessoa ou entidade que os salve da tragédia. Como poderíamos esperar que os recifenses confiassem na medicina se elas nem têm acesso ao melhor que ela pode oferecer, se o hospital não lhes dá esperança de vida? Sem ela, a primeira alternativa em que elas pensam logo quando pensam em enfermidades sérias é a mais “óbvia”: seu venerado Deus.
Christiane Violet, a oncologista entrevistada na reportagem, bem que poderia tratar a questão aferida pelo jornal tratando-a como deveria: como um atestado de fracasso educacional e falência hospitalar. A pesquisa abordada nos mostra que é inegável a necessidade de uma educação escolar que valorize a ciência e o ceticismo e é desesperadora a demanda por um sistema de saúde que saiba socorrer e use de uma medicina realmente digna de confiança.
9 respostas para "Recife: quando muita fé escancara muito problema"
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maio 25th, 2009 em 19:08
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É interessante que o artigo (do jornal) fique falando sobre a religião, como se ela tivesse o mesmo peso que a medicina; a autora fica procurando justificativas para explicar a “importância” da religião, como se fosse algo inerente à humanidade, nesse ponto o artigo do cet. é mais razoável, em apresentar um motivo humano (demasiado humano) para as pessoas apelarem às crendices: a falência do modelo de ensino e a “cultura” das pessoas.
Mesmo a oncologista clínica entrevistada tenta apresentar a fé como se fosse uma fonte de vontade de viver, no que eu discordo, a fé religiosa é completamente desnecessária, para isso.
É constrangedor, ver as pessoas se sentirem emparedadas e pisando em ovos, ao criticar a religião; ainda pior é a falta de vontade em perceber que a “cura” está no ensino e no ceticismo.
PS: no artigo tem um link para uma matéria chamada “Uma cura pelas bênçãos-de-Deus”, quanta ironia.
ZzXx respondeu:
maio 25th, 2009 às 23:41
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@Joseph K,
Eu preferi não elr a entrevista.
maio 25th, 2009 em 22:28
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Antes de ensinar ciência e ceticismo à população, deve-se ensinar o que são ciência e ceticismo, qual sua finalidade, seu propósito, pois é comum ver pessoas que consideram ciência e ceticismo como um tipo de dogma ou filosofia antagonistas à sua crença religiosa, consideram algo que vai destruir sua ideologia, causar mágoa à sua família e a comunidade religiosa.
É comum ver pessoas que se opõe à medicina por causa da má reputação de algumas indústrias farmacêuticas, da mera advertência do possível efeito adverso de remédios, e da lentidão no atendimento público que leva o enfermo a piorar além do ponto de tratamento.
Por outro lado Carl Sagan como porta-voz cientifico adquiriu ultimamente uma inexplicável má reputação, talvez por associações com Richard Dawkins, comumente citados por adolescentes apóstatas revoltados.
Também temos que considerar que estamos num país de terceiro mundo, a internet pode nos trazer informações instantâneas junto com a ilusão de que no EUA a medicina é feita com Dr. House no Princeton Hospital, ou E.R, Greys Anatomy, etc. E toda aquela fantasia é esmagada quando o doente brasileiro chega naquelas ocas pra ser tratado pelos pajés e esperar numa fila de 5 mil pessoas com problemas cardiovasculares e respiratórios porque gastam o salário inteiro em cigarro, carne e álcool.
maio 25th, 2009 em 23:43
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É… precisamos de escolas e hospitais…
Se não fosse pela evolução/putarias católicas que aprendi na escola (incluindo uma escola católica (!!!!!!!!!!!!!!!!!)) não sei se procuraria saber mais, ler mais, navegar mais, e ser um não-cristão hoje
maio 27th, 2009 em 12:02
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O Cardoso já publicou um texto no contraditorium falando do garoto cujos pais preferiram interromper o tratamento médico que ele estava recebendo (o título é “Daniel Hauser – um exemplo de fé a ser seguido”).
Se a população realmente prefere ser tratada por curandeiros, deixemos que Darwin faça seu papel, ora!
Robson Fernando respondeu:
maio 27th, 2009 às 15:26
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Diz aí o link, Oliver.
oliver.rush respondeu:
maio 27th, 2009 às 15:30
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@Robson Fernando, Link aqui.
Joseph K respondeu:
maio 27th, 2009 às 15:52
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@Robson Fernando,
Clique nesse link:
http://lmgtfy.com/?q=Daniel+Hauser+-+um+exemplo+de+f%C3%A9+a+ser+seguido
junho 2nd, 2009 em 00:49
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Parabéns pelo artigo, Robson. Espero que mais pessoas participem com artigos interessantes.