O sistema bancário americano enfrenta perdas de mais de US$ 3 trilhões. O Japão está em uma depressão. A China caminha para crescimento zero. Alguns ainda esperam que uma cirurgia de emergência possa restaurar o status quo. Entretanto, cada vez mais pessoas sentem que estamos em um daqueles pontos raros de inflexão quando nada será novamente o mesmo.
Mas se um sonho acabou, que outros sonhos aguardam nas sombras? O capitalismo se adaptará? Ou devemos nos perguntar de novo uma das grandes perguntas que agitam a vida política há quase dois séculos: o que poderá vir após o capitalismo?
Há poucos anos atrás a pergunta foi abandonada, considerada tão sensível quanto perguntar o que viria após a eletricidade. Mas a lição do próprio capitalismo é de que nada é permanente. Dentro do capitalismo há tantas forças que o minam quanto há forças que o conduzem adiante.
Nas primeiras décadas do século 19, as monarquias da Europa pareciam ter se livrado de seus desafiantes revolucionários, cujos sonhos foram enterrados na lama de Waterloo. Monarcas e imperadores dominavam o mundo e tinham provado ser extraordinariamente adaptáveis. Assim como os atuais defensores do capitalismo, aqueles que os apoiavam podiam argumentar de forma plausível naquela época que as monarquias estavam enraizadas na natureza. Mas assim como a monarquia se deslocou do centro do palco para a periferia, o capitalismo não mais dominará a cultura e a sociedade tanto quanto atualmente. Em resumo, o capitalismo poderá se tornar servo em vez de mestre, e a atual depressão acelerará esta mudança.
Para entender no que o capitalismo poderá se transformar, nós primeiro temos que entender o que ele é. Isto não é tão simples. O capitalismo inclui uma economia de mercado, mas muitas economias de mercado tradicionais não são capitalistas. Ele inclui o comércio, mas o comércio também há muito precede o capitalismo. Ele inclui o capital – mas os faraós egípcios e os ditadores fascistas também administravam superávits.
O historiador francês Fernand Braudel ofereceu talvez a melhor descrição do capitalismo quando escreveu sobre ele como sendo uma série de camadas construídas acima da economia de mercado comum de cebolas e madeira, encanamentos e cozinha. Estas camadas, local, regional, nacional e global, são caracterizadas por uma abstração ainda maior, até no topo se encontrar finanças sem corpo em busca de retorno em qualquer lugar, sem compromisso com qualquer lugar ou setor em particular, e transformando tudo e qualquer coisa em commodity.
O capitalismo tem um relacionamento complicado com a política: às vezes restringido e domado por ela, às vezes buscando dominá-la. O mesmo padrão pode ser visto nos Estados Unidos, onde ambos os partidos estão emaranhados em Wall Street -um motivo para terem tido dificuldade em responder a uma crise que desafiava tanto as suas suposições (os primeiros passos de Obama às vezes pareciam menos seguros e menos radicais do que os de Roosevelt em parte porque, enquanto Roosevelt procurou o conselho de pessoas de fora do sistema, Obama optou por pessoas de dentro, como Larry Summers e Tim Geithner).
Há apenas poucas décadas, havia grande interesse no que substituiria o capitalismo. As respostas variavam de comunismo ao gerencialismo, e de esperanças de uma era dourada de lazer a sonhos de um retorno à harmonia comunitária e ecológica. Mas o capitalismo inquieto continuava a fornecer base para a crença de que poderia destruir a si mesmo. Há uma geração, o cientista social americano Daniel Bell escreveu sobre as “contradições culturais do capitalismo”, argumentando que o capitalismo minaria as normas tradicionais sobre as quais se apoia – a disposição de trabalhar arduamente, de transmitir legados aos filhos, de evitar o hedonismo excessivo. O Japão nos anos 90 foi um bom exemplo – seus adolescentes preguiçosos rejeitavam a ética de trabalho de seus pais que levou ao milagre econômico.
Os argumentos relacionados apresentavam a demografia como o calcanhar de Aquiles. O materialismo capitalista minava os incentivos para as pessoas terem filhos, sacrificando renda e prazer pelo esforço árduo da vida familiar.
Outros críticos enfatizaram a vulnerabilidade do capitalismo ao sucesso. Ganhos extraordinários de produtividade na manufatura reduziam sua participação no produto interno bruto, deixando as economias mais dependentes do setor de serviços cujo crescimento é inerentemente mais difícil. Há uma vulnerabilidade equivalente no consumo. Após atender com sucesso as necessidades materiais das pessoas, o capitalismo é ameaçado se então perderem o interesse no trabalho árduo e em ganhar dinheiro, optando pelo aconselhamento da nova era, a anos de pausa de meia-idade e aos fins de semana com três dias. A única resposta do capitalismo é investir cada vez mais na criação de novas necessidades alimentadas pela ansiedade por status, beleza ou massa corpórea, um resultado perverso que pode tornar as sociedades capitalistas desenvolvidas mais problemáticas psicologicamente do que seus pares pobres.
Todas estas críticas atingem alguns de seus alvos, apesar de que nenhuma dar alguma ideia de como as contradições do capitalismo poderiam ser resolvidas. Para encontrar algumas ideias de como a atual crise pode se ligar a estas tendências de longo prazo nós precisamos olhar para o trabalho de Carlota Perez, uma economista venezuelana cujos textos atraem cada vez mais atenção.
Perez é uma estudiosa dos padrões de longo prazo da mudança tecnológica. Na visão de Perez, os ciclos econômicos começam com o surgimento de novas tecnologias e infraestruturas que prometem grande riqueza; elas então alimentam frenesis de investimento especulativo, com aumentos dramáticos nos preços de ativos e outros. Os booms são então seguidos por colapsos dramáticos. Após estes colapsos, e períodos de turbulência, o potencial de novas tecnologias e infraestruturas é então percebido, mas apenas quando surgem novas instituições melhor alinhadas com as características da nova economia. Assim que isso acontece, as economias então passam por ondas de crescimento assim como de progresso social.
Antes da Grande Depressão, os elementos de uma nova economia e nova sociedade já estavam disponíveis – e encorajaram as bolhas especulativas dos anos 20. Mas elas não foram nem entendidas pelas pessoas no poder, nem estavam inseridas nas instituições. Então, durante os anos 30, a economia se transformou, nas palavras de Perez, de uma baseada no “aço, equipamento elétrico pesado, grandes obras de engenharia e química pesada… em um sistema de produção em massa para atender aos consumidores e aos enormes mercados de defesa. Precisaram ocorrer inovações radicais na gestão da demanda e na redistribuição de renda, dentre as quais o papel econômico direto do Estado talvez tenha sido o mais importante”. O que resultou foi a ascensão do consumismo em massa e uma economia apoiada pela nova infraestrutura de eletricidade, estradas e telecomunicações. Durante os anos 30, não estava claro que inovações institucionais seriam mais bem-sucedidas, mas após a Segunda Guerra Mundial um novo modelo de capitalismo regulado pelo Estado surgiu, caracterizado pelos subúrbios e estradas, pelo bem-estar social e gestão macroeconômica, que serviram de base para o crescimento do pós-guerra.
Vista sob esta luz, a Grande Depressão foi tanto um desastre quanto uma aceleradora de reforma. Ela ajudou a promover novas políticas econômicas e de bem-estar social em países como Nova Zelândia e Suécia, que posteriormente se tornaram comuns por todo o mundo desenvolvido.
Uma implicação da obra de Perez é que parte do velho precisa ser varrido antes que o novo possa encontrar suas formas mais bem-sucedidas. Sob esta luz, escorar setores fracassados é uma política arriscada. Perez sugere que podemos estar à beira de outro grande período de inovação institucional e experiência que levará a novos acordos entre as reivindicações do capital, da sociedade e da natureza. Em retrospecto, estas acomodações periódicas são tão integrais ao capitalismo quanto as crises financeiras – de fato, apenas por meio de crises e reformas institucionais é que o capitalismo se adapta a um ambiente em mutação e redescobre a bússola moral que é tão vital para que os mercados funcionem bem.
Se outra grande acomodação está a caminho, esta será moldada pela tripla pressão da ecologia, globalização e demografia. As novas tecnologias – de redes de alta velocidade a novos sistemas de energia, fábricas com baixa emissão de carbono a software com código fonte aberto e medicina genética- têm um tema em comum: cada uma transforma potencialmente o capitalismo em servo em vez de mestre, seja no mundo do dinheiro, trabalho, vida cotidiana ou do Estado.
O consumo é o segundo lugar onde os sinais de mudança são inconfundíveis. Nos países altamente endividados, simplesmente haverá menos dele e mais poupança. É uma ironia que muitas das medidas adotadas para lidar com o impacto imediato da recessão, como os pacotes de estímulo fiscal, apontem na direção oposta do que é necessário a longo prazo. Mas já há fortes movimentos para restringir o excesso do consumismo em massa: o slow food, o movimento da simplicidade voluntária e as muitas medidas para conter o aumento da obesidade são todos sintomas de uma inclinação para o ver o consumismo menos como uma dádiva inofensiva e mais como um vilão.
Espelhando estas mudanças estão modificações em como as coisas são feitas, à medida que o capitalismo se afasta da destruição da natureza para algo mais próximo de um equilíbrio com ela. Visite as fábricas da BMW na Alemanha e você poderá ver um novo modelo de capitalismo que tenta reutilizar todos os materiais necessários para se fazer um carro.
O conhecimento também está dividido entre modelos capitalistas e alternativas cooperativas. Há uma década, todas as políticas industriais de cada governo valorizavam a criação e proteção da propriedade intelectual. Mas contrariando as expectativas, modelos diferentes também prosperaram. Uma proporção alta dos programas usados na Internet possui código fonte aberto.
O terceiro lugar onde devemos procurar mudanças é no mundo do trabalho. As variedades de experiência de trabalho são vastas, com enormes disparidades de pagamento, realização e poder. Em alguns setores a depressão dará um novo impulso à velha idéia de que os trabalhadores devem empregar o capital em vez do contrário. Em outros setores, há uma tendência a longo prazo de mais pessoas querendo que o trabalho seja um fim tanto quanto um meio, uma fonte de realização tanto quanto de renda.
Muitas dessas mudanças estão forçando os Estados a considerarem de novo como socializar os novos riscos. As duas últimas acomodações – a do final do século 19 e de meados do século 20- tratavam em sua raiz do risco, enquanto os governos assumiam a tarefa de proteger as pessoas do risco da pobreza na velhice, saúde ruim e desemprego. A China parece destinada a alcançar o Ocidente neste aspecto; ela precisa desesperadamente criar um serviço de saúde e Estado de bem-estar social viável caso o Partido Comunista deseje permanecer legítimo e conter uma reação política contrária aos excessos capitalistas. Em outros lugares o campo de batalha será os cuidados à população. Enquanto a população envelhece, em princípio é viável para todos segurarem a si mesmos, e mesmo que o seguro seja calibrado com base em resultados de DNA e estilos de vida. Mas a experiência sugere que é difícil projetar mercados de seguro para atendimento de saúde e social que sejam tanto eficientes quanto justos. Para a maioria, o abismo entre o que é necessário e o que é oferecido está crescendo, à medida que a expectativa de vida continua crescendo e a incapacidade se torna a norma. Em uma geração nós poderemos estar à beira de uma grande expansão da provisão coletiva, nascida de nossa vulnerabilidade compartilhada à incapacidade, demência e ficar sem filhos ou cônjuges que cuidem de nós. Esta provisão será moldada pelo acesso a uma informação mais precisa a respeito das disposições individuais, ou a respeito da eficácia dos tratamentos, e sem dúvida empregará capacidades de negócios. Mas é altamente improvável que será capitalista.
Os governos também poderão ser mais atraídos aos serviços financeiros. Até o momento, o setor de serviços financeiros tem sido notavelmente lento em oferecer produtos mais adequados às necessidades contemporâneas. Contas de bem-estar social; orçamentos pessoais para saúde; cotas pessoais de carbono. Tudo isso poderá se transformar em partes distintas da arquitetura de um Estado reformado que promova um pool dos riscos ao mesmo tempo que personaliza seus serviços.
A tendência mais longa é de ver o produto interno bruto com menos importância do que outras medidas de sucesso social, incluindo o bem-estar.
A crise do capitalismo é, é claro, uma global, e tem exibido as limitações das instituições globais que foram moldadas há meio século. A China caminha para se tornar um agente dominante em um Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial fortalecidos, seguida pela Índia e Brasil. O G20 está superando o G8 como o clube que importa. E no aguardo estão possíveis novas instituições para policiamento e gestão do carbono.
O resultado é que um grande espaço político está se abrindo. A curto prazo, ele está sendo preenchido com raiva, medo e confusão. A longo prazo ele poderá ser preenchido com uma nova visão do capitalismo, e seu relacionamento tanto com a sociedade e a ecologia, uma visão que será mais clara a respeito do que queremos para crescer e o que não queremos.
No passado as democracias domaram, guiaram e ressuscitaram repetidas vezes o capitalismo. Elas impediram a venda de pessoas, votos, cargos públicos, trabalho infantil e órgãos do corpo, e asseguraram o cumprimento de direitos e regras, assim como despejaram recursos para atender a necessidade do capitalismo de ciência e perícia, e foi desta mistura de conflito e cooperação que o mundo atingiu progresso extraordinário no último século. Nós precisamos reacender nossa capacidade de imaginar, e ver através da tempestade que ainda está se formando o que se encontra além.
Fonte: Prospect
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11 respostas para "O que poderá vir após o capitalismo?"
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abril 19th, 2009 em 20:00
Tenho uma visão de que, mesmo que o capitalismo se torne mais “bonzinho” (com ou sem aspas, em ambos os modos faz sentido), vai haver uma movimentação intelectual nas próximas décadas sobre a criação de um terceiro sistema econômico (distinto do capitalismo e do socialismo). Não se sabe como vai ser esse terceiro sistema, mas dá pra cogitá-lo pelas perspectivas de discussões que virão dos desejos da humanidade: um sistema econômico verde, solidário, anticonsumista, predominantemente cooperativo, democrático e mais próximo da igualitariedade.
Se o terceiro sistema realmente pretender atender essas condições desejadas, vai ter que vir de décadas de debates entre centenas ou milhares de intelectuais de todos os cinco continentes habitados. A África mesmo, com seus sociólogos, economistas, cientistas políticos, etc., teria bastante poder nessas discussões.
Minhas ideias sobre esse terceiro sistema são mais desejos mesmo do que previsões sobre como ele seria ou será.
abril 19th, 2009 em 23:49
olha só,o ceticismo falando de economia!!!!
Robson,isso é uma utopia em todos os aspectos,seja em termos de vontade,modo e até funcionalidade,agora o capitalismo esta em baixa mas depois da crise ele volta
Carol respondeu:
abril 22nd, 2009 às 18:44
@Diego, o blog não fala somente em ceticismo! “Ceticismo, Ciência e Tecnologia” !!!
abril 20th, 2009 em 13:11
Olá a todos, leio o Ceticismo.net há um tempo e é a primeira vez que estou comentando.
Sou um leigo em todas estas questões de economia, etc, o que faz com que todas minhas idéias careçam de uma base teórica sólida, mas gosto de discutir e de ouvir opiniões sobre o assunto – mesmo que inúmeras vezes seja chamado de burro
Gostei muito do texto e dos exemplos de novas maneiras de agir – principalmente em relação às idéias surgidas nas últimas décadas inicialmente do software livre, que impactou na questão do questionamento do atual sistema de propriedade intelectual, do acesso à informação, dos padrões abertos, etc.
Acima da questão econômica, ao meu ver, está a questão cultural – o que reflete também na tão discutida questão ecológica.
Por exemplo, ecológico hoje é ter monitores de computador destes de LCD, pois os de CRT gastam mais energia. Portanto vamos jogar todos os CRts atuais no lixo e usar LCDs, pois estaremos economizando energia. Ou mesmo produzindo carros menos poluidores (poluentes, sei lá). Notaram algo errado aí?
Moro em Maringá no Paraná. Não só aqui, mas no Brasil todo, está muito fácil adquirir um carro novo ou moto nova. Alguns revendedores de carros usados/seminovos já estão falindo por não conseguirem competir com as facilidades em aquirir um veículo novo. Mas voltando à Maringá, que tem 330 mil habitantes, e quase 300 mil – o número é próximo disso, talvez um pouco mais de 200 mil, não lembro onde vi – carros e motos, o que dá quase um carro por habitante.
Hoje eu possuo uma moto, meu pai um carro – sim, velho
-, mas percebo, quando ando pelas ruas das cidades, que há muitos carros em “garagens”, as revendedoras de seminovos. E Maringá tem muitas destas “garagens”. Posso te dizer, de chute, que para cada dois carros na rua há um carro numa garagem. Há promoções à todo momento do tipo “compre um carro com um real de entrada!”.
A produção brasileira de automóveis aumenta a cada ano e isto é visto como algo bom. Tenho 21 anos e fico imaginando onde é que foi parar aquele Gol bolinha ano 90. Ou ele continua a andar por aí, ou está numa garagem à R$ 7,000 ou está num ferro velho.
A economia “anda” quando há consumo. Ser anti-consumista hoje é ser anti-econômico, pois “a produção gera emprego e renda”. Para mim a questão é: como conciliar a produção com a questão ecológica?
Mas será que neste caso o problema – ecológico – está mesmo na produção? Afinal se eu retiro duas toneladas de material da natureza para construir um carro, o que acontece após este carro não ser útil a ninguém? Uma maneira de diminuir isto é por meio do reaproveitamento do material utilizado anteriormente – de outro carro, por exemplo – para a produção de um novo veículo. Mas até agora nada de novo.
Hoje não há quem queira arcar com os custos da reciclagem e reaproveitamento de materiais nas indústrias. É muito caro reciclar um chip de silício, pois é mais fácil retirar da natureza – quem, onde fica isso? – do que pegar aquele XT de trinta anos atrás e reciclá-lo para criar um core2duo.
“Os custos são altos demais!”, dizem. Sim. São mesmo. Agora diga ao cara que há décadas inventou o transistor ou ou mesmo o computador à válvula que para ter um chip com o poder de processamento de hoje teria que investir o que foi investido em todas estas décadas – sei lá, algo na ordem de trilhões de dólares. Tantos trilhões são um custo que ninguém quer arcar, não é?
Ao meu ver a maneira de conciliar a produção/consumo com a questão ecológica é desenvolvendo meios de fazer materiais sintéticos produzidos pelo homem – se bem que o homem não produz matéria, só transforma
– à forma natural para serem retornados à… natureza, ou que possa ser reutilizado como matéria-prima para um novo produto, preferencialmente do mesmo tipo.
Neste caso o Estado seria necessário como regulamentador do que pode ser produzido, baseado no esquema: “O fabricante deste material sintético desenvolveu uma tecnologia que permita este material voltar à forma natural ou que possa ser reaproveitado? Se não, não é aprovado. Se sim, esta tecnologia é aberta para que qualquer entidade possa criar uma atividade econômica baseada no retorno do material à natureza ou da reciclagem? Não? reprovado. Sim? Então pode iniciar a produção”.
Aqui vejo a influência das tecnologias “llivres”, ou abertas, independente de fabricante, empresa, pois – perdoem-me os químicos e engenheiros – há muito desta questão de propriedade intelectual e segredos industriais que impedem que uma empresa utilize determinada tecnologia, e no caso em questão acho isso extremamente prejudicial.
Conseqüências disto? Poderemos ter uma produção contínua e posso dizer que “infinita”, pois será cíclica (não existe produção infinita se não há reciclagem), o que garantirá que a economia não pare (emprego, renda e toda esta baboseira), além de uma aceleração no desenvolvimento tecnológico, pois imagine, por exemplo, que os carros do futuro sejam feitos de ligas biodegradáveis que, após cinco anos o carro passe a este estado de “desmanche” natural, forçada ou não, permitindo ao proprietário adquirir outro mais moderno.
Lógico que isso não vale somente para automóveis, mas para todos os materiais utilizados nos produtos que usamos – e para mim é mais fácil criticar os carros, já que sou adepto do ciclismo como principal meio de transporte
. Isso valerá para o seu computador ou celular também. Já imaginou poder trocar de celular a cada dois anos sem se preocupar se a bateria dele poluirá algum rio ou causará câncer de fígado em alguma criança na África?
Isso ao meu ver ajudar a amenizar a questão ecológica e da produção.
Outra, que muitos criticarão, é a idéia de a produção ser voltada primeiramente para a região onde está instalada a indústria/fábrica/centro industrial. Isto pode soar como protecionismo, mas não é.
Não vejo como algo bom você “produzir somente para exportação”, como fazem muitos países, principalmente os “subdesenvolvidos” – e ser subdesenvolvido não significa ser quase desenvolvido, pois a história mostrou que os atuais desenvolvidos nunca foram subdesenvolvidos
. O Brasil é um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, mas boa parte de sua população não tem dinheiro para comprar alimentos. É o maior exportados de carne mas poucos são os que consomem carne com abundância e os cortes mais “nobres”, já que aqui são muito caros. Em contraste nos países importadores a carne é muito barata – talvez não para nossos padrões -, o que ajuda a criar as nações ricas e cheias de obesos com alto indice de gordura corporal e colesterol que conhecemos.
Melhores e mais eficazes meios de escoar a produção, tanto para exportação quanto internamente, principalmente em países de dimensões continentais como o Brasil ajudam também. Já que falei no Brasil, porque diabos ainda continuamos escoando nossa produção por meio de caminhões? É caro, tem muita perda – aqui em Maringá as principais avenidas da cidade são parte de rodovias, o que faz com que o tráfego de caminhões seja realmente grande em todos os períodos do dia e dias da semana. E é possível ver que, além do rastro de que derramam no asfalto (soja e milho principalmente, onde as perdas chegam à 10%), deixam o rastro de desgaste do asfalto, de atropelamentos – passo todo dia nestas avenidas/rodovias e há muitos acidentes e mortes, principalmente de ciclistas.
Uma opção mais viável seria o transporte ferroviário, não é? Investimento alto a curto prazo para a expansão da malha viária e modernização dos veículos, mas que a longo prazo é benéfico, além da melhoria das condições dos asfaltos das rodovias e ruas (menores custos, menos pedágio?), além de diminuir o número de acidentes – só vi gente ser atropelados por trens naqueles filmes onde o vilão amarra a mocinha e… hauahua
Mas o transporte por trens acabaria com o emprego dos caminhoneiros, e isto é algo que os governos não podem fazer, não é? Aí os caminhoneiros fariam greves e destruiriam os trens, etc, etc, etc. É, a questão é mais complexa do que penso, eu sei.
O fim das grandes fazendas de monoculturas, e também agropecuárias, com fins de somente exportação em benefício das pequenas propriedades que, trabalhando unidas por meio de cooperativas teriam uma produção e acredito que até um menor impacto sobre o solo e a natureza? Isto é utopia minha, eu sei.
O que virá após o capitalismo? Acho que já estamos neste ponto. O capitalismo acabou há séculos. Uma vez me disseram que este este é o capitalismo 2.0. Talvez seja. Como dito no texto, poderia dizer “mas o capitalismo é tudo que temos. não existe algo melhor”.
Acho que um novo sistema será capaz de explorar as tecnologias que temos hoje, criadas graças ao capitalismo – embora não há como dizer que não teriam sido desenvolvidas em outro sistema econômico -, como o acesso facilitado à informação, o incentivo à colaboratividade, a idéia do conhecimento (arte, cultura) livre e compartilhável (conseqüência dos anteriores)…
Gostei mesmo do texto publicado. Eu normalmente torço o nariz para alguns textos daqui – mesmo achando outros maravilhosos -, principalmente os que tratam qualquer coisa relacionada à religião de forma pejorativa e ofensiva (mesmo os mais engraçados).
Leandro Santiago respondeu:
abril 20th, 2009 às 13:11
@Leandro Santiago,
nossa, ficou maior do que eu pensava o comentário
Fabio K respondeu:
abril 20th, 2009 às 14:19
@Leandro Santiago,
Desejos de como o mundo poderia ser um lugar melhor e mais justo, é o que mais abunda por aí afora; do ponto de vista prático, o capitalismo é a melhor solução para a atualidade, não por ser justo ou qualquer outra coisa assim, mas por ser o sistema que melhor satifaz os anseios dos indivídulos.
Eventualmente esse sistema pode evoluir para algo completamente irreconhecível, para nós, mas isso não se dará (ou, pelo menos, não deveria se dar) na forma “revolucionária”, mas de uma lenta e gradual evolução (talvez mais lenta do que muitos gostariam).
Tecnologias e inovação de idéias, surgem a todo momento, achar que elas derrubarão o templo sobre a cabeça dos capitalistas, é ingenuidade; o capitalismo e suas novas formas terão, ainda, longa vida; não por serem o ideal que o homem anseia, mas por satisfazer seus desejos, como ser dominante.
É sempre interessante ver o ponto de vista das pessoas com tão nobres ideais, pois normalmente eu torço o nariz para pessoas que não reconhecem a importância de discutir e criticar a religião, pois se há algo ofensivo e que deponha contra a humanidade, não é o capitalismo, mas a crença religiosa.
Felicidades.
@toppic
“Carlota Perez”?? Isso bem que poderia ser uma piada
abril 21st, 2009 em 11:06
esse novo sistema que esta para surgir nada mas é do que um novo tipo de capitalismo,sim o capitalismo se adapta,se você observar a cada crise o capitalismo se fortalece e é o que vai acontecer agora.É assim porque ele não foi criado,ele surgiu,e esta tão inscrustado no nosso meio de vida que para acabar com ele teriamos de mudar toda a nossa sociedade,e ñ são só os carros,seriam os computadores,e acredite até dos ganhos sociais dos ultimos seculos,sim ate deles,porque se hoje podemos nos comunicarmos com pessoas comuns de outros paises,ler filosofos chineses e trocar informação com o mundo todo é por causa do capitalismo,sim não é tão facil acaba com um sistema economico
abril 22nd, 2009 em 14:47
Nossos estimados ditos populares dizem:”Tudo é um ciclo”.O capitalismo voltara será basicamente fundamentado em sua antiga figura deformada pelo “primitivo”.Ou seja,no feudalismo.
Dou ênfase a um argumento sem duvida IMPORTANTE.Se os cristão dominarem nossos sistemas políticos com certeza voltaremos seremos aguardados pela evolução.Ou seja,”evoluiremos para os PRIMATAS” .
ooOOooDanielooOOoo respondeu:
abril 22nd, 2009 às 14:51
@ooOOooDanielooOOoo, Perdoem meus erros nestes trechos:” O capitalismo voltara será basicamente fundamentado(…);(…)com certeza voltaremos seremos aguardados pela(…)”
Uma pergunta.Aonde posso adicionar minhas fotos juntamente a meus comentários?
abril 22nd, 2009 às 15:53
Faça uma conta no http://www.gravatar.com . Lá vc se registrará com um email. Em qq blog que trabalhe com o gravatar, ao vc entrar com o referido email, aparecerá a imagem que vc escolher
ooOOooDanielooOOoo respondeu:
abril 22nd, 2009 às 16:04
@André, Obrigado.”Vou-me-se-já-lá”!