mar 17

O mais longo aqueduto subterrâneo do mundo antigo

4 Comentários
Escrito por .
Arqueologia, Ciência, Economia, Fí­sica, História, Literatura, Matemática, Mitos Desmascarados, Polí­tica, Tecnologia
Tags: , , , ,

Os engenheiros romanos escavaram um aqueduto através de mais de cem quilômetros de pedra para levar água a cidades da antiga província da Síria. O esforço monumental levou mais de um século, diz o pesquisador alemão que descobriu o aqueduto. Clique na imagem para ampliar (o círculo vermelho mostra alguns ridículos exemplares de animais mamíferos da ordem dos Primatae).

Quando os romanos não estavam ocupados conquistando território de seus inimigos, adoravam gastar imensas quantidades de água, que gorgolejava e borbulhava por todas as suas cidades. Os engenheiros do império inventaram encanamentos padronizados, aquedutos tão altos quanto fortalezas, e canos com 15 bares (153 toneladas por metro quadrado) de pressão.

Só na capital havia milhares de fontes, chafarizes e banhos termais. Senadores ricos se refrescavam em piscinas privadas e decoravam seus jardins com grutas de refrigeração. O resultado era um consumo diário recorde de mais de 500 litros de água por pessoa (os alemães hoje usam em torno de 125 litros).

Entretanto, quando as legiões romanas marcharam para dentro da árida região da Palestina, pouco antes da Era Comum, tiveram que renunciar ao seu desperdício habitual, pelo menos temporariamente. Lá era simplesmente muito seco.

Falta oxigênio

Mas isso não freou a inteligência dos engenheiros. Eles logo descobriram uma forma de arrumar as coisas. Na antiga província romana da Síria (que hoje pertence à atual Jordânia), pesquisadores estudam atualmente um sensacional sistema de canais. Ele se estende por uma distância de 106 quilômetros, a maior parte sob a terra.

O túnel foi descoberto por Mathias Döring, professor de hidromecânica em Darmstadt, na Alemanha. Andando cuidadosamente sobre o musgo, ele se esgueira pelas cavernas escuras cobertas de argamassa. Letras gregas decoram as paredes, e morcegos cruzam o ar. “Às vezes, somos obrigados a interromper o trabalho – não há oxigênio suficiente”, diz o diretor do projeto.

Qanat Firaun, o “Canal dos Faraós”, é como os moradores chamam o antigo encanamento, envelhecido pelo tempo. Existem até mesmo rumores de que há ouro escondido nas passagens subterrâneas que chegam a 80 metros abaixo da superfície.

Döring encontrou uma explicação melhor. Descobriu que o aqueduto é de origem romana. Ele começa num antigo pântano na Síria, que secou há muito tempo, e se estende por 64 quilômetros na superfície antes de desaparecer em três túneis, que têm um, 11, e 94 quilômetros. O mais longo canal de água subterrâneo do mundo antigo que se conhecia até então – o de Bolonha – tem apenas 19 quilômetros.

“Incrível” é a palavra que o pesquisador usa para descrever a conquista dos construtores antigos, que eram provavelmente legionários. Os soldados escavaram 600 mil metros cúbicos de pedras do solo – ou o equivalente a um quarto da grande pirâmide de Quéops. Esse projeto colossal de saneamento fornecia água corrente às grandes cidades da “Decapolis” – uma liga originalmente constituída por dez comunidades antigas. O aqueduto terminava em Gadara, cidade com uma população de aproximadamente 50 mil pessoas. De acordo com a Bíblia, foi lá que Jesus exorcizou demônios e os afugentou para um rebanho de porcos.

A altura da glória

Döring voltará ao local com seus alunos em abril para explorar mais esse mundo subterrêneo. Todas as manhãs o grupo se dirige para a paisagem árida, armado com teodolitos – instrumentos usados para medir ângulos de inclinação – e aparelhos de GPS. Eles procuram por novas entradas que levem ao labirinto escondido. Uma velha casa de fazenda depredada, localizada no meio das ruínas da antiga Gadara, serve como acampamento para as escavações, no alto do lago Genesaré.

A gigantesca tarefa foi começada por volta do ano de 90 E.C.  – apenas isso é certo. O imperador Domiciano governava Roma e o império estava no auge de sua glória. Frontinus era o engenheiro romano encarregado de nove aquedutos construídos em altos arcos de pedra. Ele até bombeava água sem cobrar para o porão do Coliseu.

O Mediterrâneo oriental também passava por um período de grande prosperidade graças ao comércio com o Oriente. O povo de Roma queria ver tigres. Um leão domesticado vagava ao redor do trono de Domiciano.
Senadores ricos degustavam temperos da Índia e vestiam seda da China. Os mais abastados queimavam grandes quantidades de olíbano [que servia como incenso] e compravam belas escravas árabes.

O comércio no deserto floresceu em consequência disso. Caravanas empoeiradas amontoavam-se nos portões de Gadara e camelos se enfileiravam nos bebedouros. Os romanos construíram dois teatros na cidade. Planejaram até um templo para as ninfas, com fontes e um poço de 22 metros de comprimento.

As nascentes locais, entretanto, não produziam água suficiente para satisfazer à demanda exagerada. Logo a região começou a sofrer com a falta de água. Então o governo da cidade decidiu empreender uma façanha sem precedentes. Parece que eles desviaram um rio que ficava distante, no interior, próximo a Dille na Síria atual. A água foi então desviada por canais feitos com o concreto romano, o famoso “opus caementicium”.

Ponte sobre o abismo

O canal foi coberto com placas de madeira para proteger a água dos animais, do excremento dos pássaros e da poeira. Isso também a mantinha protegida da luz, o que impedia o crescimento de algas. A inclinação do canal era pequena no trecho em que atravessava o planalto da Síria. Centenas de homens misturavam cimento sob o sol quente. Por fim, chegaram à primeira cidade, Adraa.

Mas o caminho estava bloqueado pelas terras montanhosas do norte da Jordânia, uma cadeia de picos com o cume achatado, cercados por desfiladeiros íngremes. O primeiro obstáculo, o Wadi al-Shalal, é uma fenda de 200 metros de profundidade entalhada na paisagem. Nem os maiores construtores romanos poderiam ultrapassar esse abismo. O que fazer então?

Primeiro, os engenheiros desviaram para a direita e fizeram o aqueduto correr circundando as montanhas em direção ao sul. Quando o terreno acidentado tornou praticamente impossível continuar a rota sobre a superfície, eles escavaram um canal subterrâneo através da montanha rochosa. Esse canal se estendia por 11 quilômetros.

Por fim, o vale ficou estreito o suficiente para que a distância entre os dois lados pudesse ser suplantada com apenas uma grande construção. Até hoje os blocos de pedra dessa estrutura estão lá no fundo da ravina.

Para além desse cânion, o terreno tornou-se ainda mais acidentado com uma sucessão de montanhas e inclinações íngremes que parecia interminável. Ao se depararem com uma topografia semelhante próxima a Cartago, os romanos desviaram a água 19 quilômetros através de paredes espessas e arcos de pedra.

Como os romanos conseguiram esse feito?

Dessa vez o império buscou um objetivo ainda mais ambicioso. Seu propósito era construir o restante da rota sob o solo. Isso dispensava a necessidade de pontes. Sob a superfície, os operários poderiam simplesmente escavar o túnel nas rochas.

Mas o projeto enfrentou obstáculos desencorajadores. O mundo antigo não conhecia a bússola. Como eles se orientavam dentro da montanha? E como providenciar ventilação adequada dentro dos túneis? Depois de apenas poucos metros, os trabalhadores já deveriam ter problemas para respirar nos túneis empoeirados.

E havia outros desafios: com uma altura média de 2,5 metros e uma largura de 1,5 metro, apenas quatro legionários poderiam assegurar o avanço do túnel trabalhando no subterrâneo. Eles não conseguiam cavar mais do que 10 centímetros por dia. Nesse ritmo, eles ainda estariam cavando em direção a Gadara até hoje.

Pesquisadores, engenheiros hidráulicos e especialistas em minas viajaram mais para leste para encontrar as soluções para esses problemas. Döring decifrou boa parte dos métodos de trabalho dos romanos. “Há muitas indicações de que os engenheiros primeiro traçaram a rota na superfície e depois abriram passagens verticais na rocha a cada 20 a 200 metros”, diz. Esses fossos ofereciam ar fresco. E além disso significavam que centenas de homens poderiam trabalhar simultaneamente na empreitada.

Galinhas mortas

Quando o imperador Adriano visitou a Decápolis no ano de 129 A.E.C., o projeto estava em pleno andamento. Ao som das trombetas, legionários e trabalhadores locais entravam nos túneis subterrâneos. Eles trabalhavam com cinzéis pontiagudos sob a luz de lâmpadas de óleo.
Escravos carregavam o material escavado para cima.

Hoje, as antigas entradas de trabalho tornam possível determinar o curso tomado pelo labirinto subterrâneo de água. “Quase todas as entradas eram muradas antigamente para evitar que animais caíssem dentro”, explica Döring, “e encontramos outras enterradas ou cheias com metros de entulho”. Um dos buracos está cheio de galinhas mortas.

Como a maioria dos alpinistas, com uma mão na corda de segurança, o professor e seus alunos, usando capacetes, descem os degraus íngremes, que se inclinam num ângulo de 50 graus. A cada passo a escada fica mais escorregadia.

Lá embaixo, no chão do túnel, é uma escuridão úmida. Às vezes é tão sufocante que os aparelhos para monitorar o ar começa a bipar. Vez ou outra há entulho bloqueando a passagem e criando poças de lama de água de chuva até a altura do quadril. Em outros lugares, o vento assovia e sopra como se fosse um túnel de vento.

O grupo já descobriu mais de 300 entradas. Mas ainda existem muitas perguntas sem resposta. “Nos primeiros 60 quilômetros, o túnel tem uma inclinação de 0,3 por milhar”, explica o diretor do projeto. Isso significa 30 centímetros por quilômetro – um ângulo de descida espantosamente pequeno.

Até o último centímetro

Os romanos tinham medidores de nível, um aparelho de seis metros de comprimento chamado corobate, copiado dos persas. Eles também enchiam tripas de cabra com água para descobrir o nível nas curvas do túnel.Mas só isso não explica a precisão desse impressionante aqueduto.

“Primeiro os medidores tiveram que estabelecer uma rota uniforme entre os postos que se estendiam por muitos quilômetros”, diz Döring. Só isso já era extremamente difícil no terreno acidentado. Então tiveram que transferir essa linha para baixo da superfície e determinar a profundidade exata do túnel até o último centímetro. Mas como eles conseguiram determinar isso com tanta precisão? Não era possível descer uma linha de chumbo porque os túneis verticais de construção eram inclinados Em face dessas dificuldades, os erros não surpreendem. Vez ou outra, as equipes de escavação se desencontravam. Nesses casos, a única forma de conectar as sessões era bater nas rochas para enviar sinais e ziguezaguear até que as equipes se encontrassem.

Levou 120 anos para concluir a obra subterrânea. E então a água finalmente correu sob a terra. Depósitos minerais em uma seção próxima de Abila revelam que 300 a 700 litros por segundo corriam pelo canal.
O gênio de Roma havia conseguido transformar essa parte do Mediterrâneo num verdadeiro Jardim do Éden.

E mesmo assim havia uma terrível frustração em Gadara. Até o aqueduto da Jordânia atesta a verdade trágica de que nada criado pelas mãos do homem é perfeito. O plano original previa que a água enchesse um reservatório alto que abasteceria as fontes da cidade e o planejado templo para as ninfas.

Mas isso nunca aconteceu. Como os engenheiros fizeram alguns erros de cálculo, a água – depois de mais de 170 quilômetros – chegava em Gadara num nível um pouco mais baixo do que o necessário para os grandes planos.

O reservatório não podia ser enchido – e as fontes nunca funcionaram.

Artigos relacionados:

  1. Era uma vez, o sapato mais antigo do mundo…
  2. Descoberto o mais antigo fóssil intermediário entre dinossauros e aves
  3. Biólogos acham quadrúpede mais antigo
  4. O Fim do Mundo em 2012
  5. Cientistas acham registro mais antigo de sexo entre vertebrados

Um Ping to "O mais longo aqueduto subterrâneo do mundo antigo"

  1. Ensinar engenharia para criancas nos colegios deveria ser obrigatorio » Ceticismo.net disse:

    [...] Sem softwares, sem argamassas, sem os modernos materiais de construção, os romanos construíram a um imenso aqueduto. assim como construíram um magnífico sistema de banho público. Os árabes encheram de luz um [...]


3 respostas para "O mais longo aqueduto subterrâneo do mundo antigo"

  1. 1. AdministradorAndré disse:

    Agora, vamos esperar quem vai ser o primeiro a dizer que isso foi obra de ETs phone home

    Bruno Caxito respondeu:

    @André,

    É claro que não, isso ai foi obra de Jupter.

  2. 2. Seu Madruga disse:

    Só jesus poderia ter feito esse duto, um verdadeiro milagre!

Deixe um comentário

Mas, antes, leia a nossa Política de Comentários. Obrigado por sua participação.

Você precisa estar logado para deixar um comentário.