Há duas décadas, um estudante da Universidade Cornell, de 23 anos, levou a internet à beira do desastre com um simples software que saltava de um computador para outro a uma velocidade atroz, obstruindo a então minúscula rede em poucas horas.
A finalidade desse programa era ser uma espécie de “Kilroy esteve aqui” digital. Mas um erro de programação tornou-se um arauto anunciando a chegada de um ciberespaço mais sinistro, que seria mais um espelho de todo o caos e conflitos do mundo físico e não de um utópico refúgio disso tudo.
Desde então as coisas pioraram, e muito. A tal ponto que há uma crença cada vez mais forte entre engenheiros e especialistas da área de que a segurança e a privacidade na internet acabaram se tornando algo tão ilusório que o único meio de solucionar esse problema é recomeçar tudo de novo.
O grande debate é como seria essa nova internet. Uma alternativa seria a criação de uma “comunidade fechada” onde os usuários desistiriam do seu anonimato e de algumas liberdades em troca de segurança.
Hoje isso já ocorre com muitos usuários no âmbito do governo ou empresas. Quando uma nova rede, mais segura, for amplamente adotada, a atual internet acabará sendo a vizinha nociva do ciberespaço.
Você entra nela por sua própria conta e risco, mas sempre muito atento enquanto estiver por ali. “Se não nos dispusermos a repensar a internet de hoje”, diz Nick McKeown, engenheiro de Stanford envolvido na criação da nova rede, “podemos esperar uma série de catástrofes públicas”.
E isso foi bastante martelado no ano passado, quando um software nefasto, que teria sido lançado na rede por uma gangue criminosa da Europa Oriental, surgiu repentinamente, conseguindo enganar facilmente as melhores defesas cibernéticas do mundo.
Conhecido como Conficker, o programa rapidamente contaminou mais de 12 milhões de computadores, fazendo o maior estrago nos sistemas, afetando de centros cirúrgicos da Inglaterra a redes do exército francês.
O Conficker é uma bomba-relógio. Pode ainda hoje atacar todos aqueles computadores infectados e juntá-los numa vasta rede, formando um supercomputador, chamado Botnet, controlado clandestinamente pelos seus criadores.
O que ocorrerá proximamente ainda é um mistério. O Conficker pode ser usado como o mais poderoso mecanismo de spam do mundo, para distribuir programas que servem para lograr os usuários, levando-os a comprar proteção antivírus falsa.
Ou muito pior. Pode também ser usado para apagar seções inteiras da internet. Mas, que qualquer modo, o Conficker demonstrou que a rede continua muitíssimo vulnerável a um ataque concertado.
Os criadores da internet jamais imaginaram que a rede de pesquisa acadêmica e militar um dia teria que suportar o peso de transportar todo o comércio e comunicações do mundo. Não havia nenhum ponto central de controle, e a ideia era que uma rede pudesse trocar dados com qualquer outra rede. A questão da segurança recebeu menos atenção. Mas, desde então, enormes esforços têm sido feitos para ampliar a segurança, com poucos resultados.
“Em muitos aspectos, estamos hoje numa situação muito pior do que há vinte anos, pois todo o dinheiro foi aplicado para resolver os problemas atuais, no lugar de ser investido para redesenhar a nossa infraestrutura”, disse Eugene Spafford, diretor executivo do Centro de Educação e Pesquisa em Segurança da Informação, na universidade de Purdue.
Embora o setor global de segurança de computadores esteja em franca ascensão, com receitas que devem chegar a US$ 79 bilhões no próximo ano, e o fato de que, em 2002, a própria Microsoft iniciou um intenso trabalho para melhorar a segurança do seu software, a segurança na internet continua deteriorando globalmente.
É por isso que os cientistas amparados por fundos federais destinados à pesquisa e trabalhando em colaboração com o setor, estão tentando encontrar o melhor meio para recomeçar tudo novamente. Em Stanford, onde os protocolos de software da internet original foram criados, os pesquisadores desenvolvem um sistema que torne possível introduzir uma rede mais avançada discretamente embaixo da internet de hoje. No final do verão, essa rede estará em funcionamento em oito redes de universidades por todo o país.
A ideia é criar uma nova internet com maior segurança e capacidade para suportar uma nova geração de aplicativos ainda não inventados, e também fazer coisas que a internet atual mal consegue – como dar suporte a usuários de celulares.
O projeto chamado Stanford Clean Slate não vai resolver todos os principais problemas de segurança da internet, mas deve equipar os criadores de software e hardware com um conjunto de ferramentas que farão com que os programas de segurança sejam uma parte mais integral da rede, dando às autoridades policiais recursos mais eficazes para rastrear criminosos no ciberespaço. E só isso já pode ser um meio de dissuasão.
Apesar de todo esse esforço, os limites reais da segurança dos computadores podem estar na natureza humana. O atual design da internet garante virtualmente o anonimato dos usuários. Mas hoje esse anonimato é o desafio mais incômodo para as autoridades. Um agressor na internet pode rotear uma conexão através de muitos países para ocultar a sua localização, que pode ser em uma conta num Internet Café adquirida com um cartão de crédito roubado.
“Logo que você começa a lidar com a internet pública, a noção de confiança se perde num atoleiro”, disse Stefan Savage, especialista em segurança de computadores na Universidade da Califórnia, em San Diego.
Uma rede mais segura quase certamente vai oferecer menos anonimato e privacidade. Esse é o grande dilema dos criadores de uma futura internet. Uma ideia, por exemplo, seria exigir algo equivalente às carteiras de motorista para permitir que as pessoas se conectem a uma rede pública de computador. Mas isso vai contra o espírito libertário, profundamente arraigado, da internet.
O fornecimento de uma identidade será uma dificuldade num mundo onde é comum alguém se apossar do computador de uma pessoa a meio mundo de distância e operá-lo como se fosse seu. Enquanto isso ocorrer, criar um sistema totalmente confiável continuará sendo virtualmente impossível.
Fonte: Estado de Sao Paulo
10 respostas para "Nós precisamos de uma ”nova internet”?"
Deixe um comentário
Mas, antes, leia a nossa Política de Comentários. Obrigado por sua participação.
Você precisa estar logado para deixar um comentário.
.



março 11th, 2009 em 09:43
Aprovar ou reprovar:
0
0
Muito interessante o artigo, eu só acho que teve uma confusãozinha ali no meio.
O Conficker é um *vírus de windows*, e a razão de ele ter feito todos estes estragos que fez não é a insegurança da grande rede, mas sim a insegurança do famigerado sistema de Redmond.
Portanto, para casos como este, a solução não é uma rede mais segura, mas sim utilizar um sistema construído com pelo menos uma mínima preocupação com a segurança.
Por sorte (força de expressão, logicamente a razão para isto não é “sorte”), os principais servidores da grande rede (incluindo os maiores supercomputadores do mundo) rodam algum dos sistemas da família UNIX (notavelmente o Linux), sendo imunes a este tipo de ameaça.
março 11th, 2009 às 09:59
Aprovar ou reprovar:
0
0
Depois da notícia que um alto funcionário do governo americano deixou uma pasta c om segredos militares sendo compartilhada no eMule, não falo mais nada. Só confio na minha caluladora.
Thiago respondeu:
março 11th, 2009 às 10:16
Aprovar ou reprovar:
0
0
Certamente que não existem sistemas à prova de idiotas, pois eles são muito inventivos
Agora neste caso que você cita (do qual eu não tinha conhecimento até então), a falha não está inteiramente no usuário, mas também na implementação da rede desta instituição do governo, que de maneira nenhuma deveria permitir o tráfego da rede eDonkey (na verdade, P2P em geral) passar! Isto é uma coisa extremamente simples e feita até em redes de pequenos escritórios.
Agora, como já dizia o velho sábio, o único computador seguro é aquele desligado, lacrado, empacotado, dentro de um cofre, no fundo do oceano. Todos os outros estão vulneráveis.
março 11th, 2009 às 11:39
Aprovar ou reprovar:
1
0
O idiota nem é tanto o estúpido de baixou e instalou o P2P e sim o admin que permitiu. Mas, vai saber a patente do sujeito… Manda quem pode, obedece quem tem juízo.
Rodrigo respondeu:
março 11th, 2009 às 10:33
Aprovar ou reprovar:
0
0
@André,
UHhuauhhuauhauh verdade. Aquele helicóptero presidencial de Obama, brevemente estará escrito: MADE IN CHINA
março 11th, 2009 em 13:54
Aprovar ou reprovar:
0
0
É impressão minha ou isso da parecendo com a história da enchentezinha lá da palestina, quer dizer, do dilúvio?
Tudo no melhor estilo: “Isso tá uma merda? Apaga tudo e faz de novo”
Bruno Caxito respondeu:
março 12th, 2009 às 19:57
Aprovar ou reprovar:
0
0
@Canedo,
Hahshuasuashuahs
Muito bem observado.
Eu que trabalho com desenvolvimento de aplicativos web sem bem que essa internet mais segura é extremamente necessária, essa idéia não é tão ruim quanto parece, traria muitas vantagens no futuro. Numa época em que todo o seu trabalho no desenvolvimento de um programa pode ir pro lixo por causa de um garoto de 12 anos com tempo de sobra, uma internet assim poderia ser uma solução.
março 12th, 2009 em 10:57
Aprovar ou reprovar:
0
0
Como leigo no assunto, eu creio que o problema principal da Internet é obviamente a própria conectividade. Melhorar a segurança só vai dificultar a ação dos criminosos, será uma questão de tempo até a web tornar-se novamente vulnerável. Parece-me que a Internet sempre será vítima da sua própria essência.
março 12th, 2009 em 19:00
Aprovar ou reprovar:
1
0
Não é só o windows que é vulnerável,a princípio qualquer sistema tem suas fraquezas,o infame buffer overflow ,por exemplo,já foi muito utilizado contra os unix-like…
março 16th, 2009 em 08:44
Aprovar ou reprovar:
0
0
Uma coisa é certa, …”dias piores virão”, e eu acho que está perto do dia que a Internet vai parar por causa da falta de atualização do micros em geral, e é obvio que os ataques sempre serão do direcionados para o lado mais fraco da “internet” e de maior quantidade, os desktops rodando Windows.
Falando do conflicker, eu acho um absurto a falta de investimento das empresas em segurança, o vírus usou uma falha de segurança de novembro de 2008, porque os micros das empresas estavam desatualizados, essas empresas estão mais para desorganização do que para organização.