O governo dos EUA fez um relatório anual no qual criticava a situação dos direitos humanos em todo mundo, e a mais criticada foi a China, dizendo que o quadro lá havia piorado e citando como exemplo a repressão dos dissidentes e minorias no Tibete. Os chineses não gostaram muito da estória e fizeram outro relatório, no qual taxaram os EUA de hipócritas. Veja algumas partes do relatório chinês:
…A prática dos Estados Unidos de atirar pedras em outros enquanto vive em uma casa de vidro é testemunho dos critérios duplos e da hipocrisia dos Estados Unidos para lidar com direitos humanos, o que prejudica sua imagem internacional [...] Durante anos, os Estados Unidos se posicionaram a respeito de outros países e divulgaram o Relatório Anual de Práticas de Direitos Humanos para criticar as condições dos direitos humanos em outros países, usando isso como uma ferramenta para interferir e denegrir outros países [...] Aconselhamos o governo dos Estados Unidos a começar de novo, enfrentar seus próprios problemas de direitos humanos com coragem, e parar com a prática errada de aplicar critérios duplos em questões de direitos humanos…
Bom, todo mundo sabe que a situação dos direitos civis e humanos na China é precária:
- Trabalhadores em regime de semi-escravidão: É um problema antigo, para se ter uma idéia, há dois anos (2007), o jornal ‘Independent’, de Pequim noticiou a libertação de 500 trabalhadores (homens, mulheres e crianças), que eram mantidos presos sob ameaça de chicote, em olarias. As imagens foram parar na TV e causaram asco a quem quer que tivesse um mínimo de sensibilidade:
… As imagens que a televisão estatal chinesa exibiu eram horríveis -centenas de crianças escravas espancadas a golpes de pá, chicoteadas por feitores brutais, aprisionadas ao estilo dos campos de concentração em locais vigiados por cachorros malévolos, exibindo feridas supuradas nos corpos enquanto trabalhavam sem descanso em uma olaria no empoeirado interior da China.
As imagens de TV mostram adolescentes de olhar vago, muitos deles seqüestrados de seus lares em outras partes da China, dormindo em leitos de tijolos, em alojamentos precários, com as janelas pregadas e as portas fechadas por arames. À medida que se acumulavam as indicações de negligência por parte das autoridades, o destino das crianças levou o presidente Hu Jintao a exigir uma investigação sobre o que está acontecendo nas olarias da província de Shanxi….’
- Limitação do uso de línguas nativas: Num cenário em que correm risco de desaparecer cerca de 2.500 dialetos (dos 6.000 existentes no mundo, segundo dados da Unesco), a China toma uma medida prá lá de controversa: por motivos obviamente econômicos (o mundo todo está aprendendo mandarim para poder comercializar com os chinas), o governo de dito país resolveu limitar o uso de dialetos locais. Os ‘métodos’ de convencimento do chinês a dar preferência ao mandarim, em detrimento de seus dialetos nativos, não são nada ortodoxos:
‘… as autoridades de Xangai criarão patrulhas que percorrerão as ruas da cidade para corrigir as pessoas que falarem ‘um mandarim incorreto’, e exigirá que funcionários de determinados serviços passem por testes de mandarim. Será obrigatório também que esses empregados comecem a conversa em mandarim com a tradicional saudação ‘ni hao’, em lugar do xangainês ‘nunhau’. ‘Após o cumprimento, se o cliente desejar, poderá falar xangainês’, diz a medida municipal, repercutida pela estatal Xinhua.
- Questão do Tibete: As ações do governo chinês com relação à questão tibetana mais parecem as de um elefante numa loja de cristais: não titubearam em despejar batalhões de soldados nas regiões vizinhas à capital regional do Tibete, Lhasa, deu prazo para que os dissidentes envolvidos nos protestos se entregassem e admitiu a morte de ‘só’ 13 inocentes, não sem antes despejar a culpa nos próprios dissidentes.
Claro que a imprensa não tem acesso irrestrito às informações do que lá ocorre, já que o regime fechado não abre mão das ferramentas de censura; as poucas informações disponíveis são parciais e contraditórias, já que os governos chinês e tibetano têm versões oficiais bem diferentes umas das outras:
‘…Enquanto Pequim afirma ter Lhasa sob controle, os grupos de direitos humanos e tibetanos no exílio confirmaram que as revoltas se estenderam às Províncias de Sichuan e Qinghai (limítrofes com o Tibete) e Gansu (ao norte das duas), com grande população tibetana.
Segundo a ONG Centro Tibetano para os Direitos Humanos e a Democracia, as manifestações de ontem em Gansu deixaram vários mortos, baixas que o governo chinês se nega a reconhecer. Segundo Dharamsala, o número total de mortos já chega a quase cem.
A China afirma que cerca de 16 pessoas morreram nas manifestações, e que as forças de segurança não são responsáveis pelas mortes….’
É, parece que a coisa é feia, mas a realidade deve ser mais feia ainda. Mas, num cenário como esse, seria lícito à China criticar os EUA? Ponto para quem respondeu positivamente à questão: como diria minha mãezinha, seria ‘o roto falando do rasgado’. Tudo bem que o novo presidente popstar Obama tomou medidas para acabar com a vergonha que era a prisão de Guantanamo, mas é possível apagar todas as graves violações aos direitos humanos que lá foram perpetradas?
E quanto à crise econômica? Todos sabemos que quem realmente paga o pato é sempre a parcela mais fraca, já que os executivos de Wall Street receberam bônus milionários apesar da crise. Nem aproveita aos EUA o fato do presidente-popstar ter dito que aquilo era ‘vergonhoso’: qual a providência efetiva foi tomada para acabar com a esbórnia (bancos receberem dinheiro público para escaparem à crise e este dinheiro ser usado para o pagamento de bônus estrato$féricos)?
Não que no Brasil a coisa seja muito diferente; a ‘bolha imobiliária’ está crescendo sem que ninguém se dê conta, e, não obstante os exemplos externos, o governo brasileiro continua a injetar dinheiro (2 bilhões!) na CEF para financiamento de imóveis (com isso, os preços dos imóveis vão às alturas, e pouco servem como garantia para a dívida contraída: se o financiado não puder arcar com o financiamento, o imóvel vai a leilão e ele ainda sai devendo). Enquanto isso, na sala da justiça, em vários pontos de terra-brasilis vemos o Ministério Público do Trabalho libertando mais e mais trabalhadores mantidos em estado de escravidão ou semi-escravidão (em 2008 chegou-se à marca de 4.634 trabalhadores libertados). Parece que nem mesmo o Brasil poderia fazer um relatório contra a china, não é?
Bom, leitores; sinto pelas notícias desagradáveis, mas o mundo todo está se transformando numa latrina e não podemos escapar à realidade.
Fontes:
• Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão
• Estadão
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