fev 23

A Igreja Católica em profunda crise moral na Áustria

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O próprio cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena, admitiu: a Igreja católica austríaca atravessa uma crise e os bispos devem “uma explicação” aos católicos. “Nós também queremos exprimir a esperança de que toda crise também pode ser uma bênção”, escreveu o presidente da conferência episcopal austríaca em uma carta pastoral publicada em 16 de fevereiro resultado de uma reunião para discutir a crise, reunindo todos os bispos.

O monsenhor Schönborn tira as lições do mal-estar suscitado por dois episódios particularmente mal vistos pelos católicos, e que acabam de se juntar a um problema mais antigo. O anúncio do dia 24 de janeiro feito pelo Vaticano de revogar a excomunhão de quatro bispos lefebvristas, dos quais um é negacionista, chocou os católicos austríacos e suscitou a incompreensão no mais alto nível da hierarquia.

Em 31 de janeiro, uma nova decisão de Bento 16 acentuou o embaraço sentido diante das decisões da hierarquia católica. Roma anunciou a nominação de Gerhard Maria Wagner como bispo auxiliar de Linz, apesar das recomendações em contrário da Igreja austríaca.

O eclesiástico ultraconservador é conhecido por suas declarações sulfurosas: de Harry Potter, o “satânico”, às catástrofes naturais de Nova Orleans ou do tsunami desencadeados pela “poluição espiritual”, passando por suas opiniões sobre o homossexualismo, “doença curável”… Diante do protesto suscitado por sua nomeação, ele pediu ao papa que voltasse atrás em sua decisão. O Vaticano não atendeu oficialmente a esse pedido.

A Igreja austríaca, que desde os anos 1990 sofre para se recuperar de diversos escândalos ligados a questões de pedofilia e pornografia dentro de um seminário, não precisava dessa nova controvérsia. Para Thomas Prügl, diretor do Instituto Histórico Religioso da faculdade católica de Viena, essas questões são o ponto culminante de um mal-estar mais geral. Mais de 35 mil fiéis se afastam todos os anos da Igreja austríaca, que já perdeu mais de 1,3 milhão de fiéis desde 1976, e que, segundo ele, sofre de uma dupla divisão: por um lado, entre tradicionalistas e progressistas – cujo peso ele estima em 10 e 15% dos fiéis, respectivamente – , e por outro, entre os padres das paróquias e a própria hierarquia da Igreja.

A “base” progressista encarnada por movimentos como “Nós somos a Igreja” ou “Iniciativa Paroquial” pede por reformas estruturais. Segundo pesquisas, são bem recebidas entre a comunidade católica soluções defendidas para enfrentar a carência de padres, como a abolição da obrigatoriedade de celibato para os padres e a participação de mulheres na liturgia. “O desafio imposto à Igreja austríaca e reconhecido pelos bispos em sua recente carta pastoral é o de levar mais a sério as necessidades da igreja local”, avalia Prügl.

Efeito da recente confusão causada pela política de Roma, a Igreja evangélica austríaca, que só reúne 5% da população, contra 68% de católicos, registra desde janeiro um número crescente de pedidos de informação. Foi lançado um apelo pelo boicote ao imposto da Igreja. Na Áustria, as Igrejas reconhecidas são habilitadas a cobrar um imposto sobre a renda de seus fiéis. Se for atendido, esse apelo pode se mostrar um meio de pressão eficaz: mais de 85% das receitas da Igreja provêm desse imposto.

Fonte: Le Monde

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