Segundo a receita, a carne deveria ser cortada em pequenos pedaços ou fatias, borrifadas com “mirra e pelo menos um pouquinho de babosa”, e depois imersa em etanol por alguns dias.
Por fim, ela deveria ser pendurada “em um lugar bem seco e à sombra”. No fim, a receita avisa que ficaria “parecida com carne defumada” e sem “nenhum “fedor”.
Johann Schröder, um farmacologista germânico, escreveu essas palavras no século 17. Mas a carne a que ele se referia não era presunto ou filé mignon curado. As instruções pediam especificamente pelo “cadáver de um homem avermelhado… de uns 24 anos”, que houvesse “morrido de uma morte violenta, mas não de uma doença” e depois fosse deixado “exposto aos raios da lua por um dia e uma noite” com “um céu limpo”.
Na Europa dos séculos 16 e 17, receitas para remédios como essa, que fornecia instruções de como processar corpos humanos, eram quase tão comuns quanto o uso de ervas, raízes e cascas de árvores. O historiador de medicina Richard Sugg, da universidade inglesa de Durham, que está escrevendo um livro sobre o assunto, diz que partes de cadáver e sangue eram ingredientes normais, disponíveis em todas as farmácias. Ele até descreve problemas de fornecimento durante os dias de glória do “canibalismo medicinal”. Sugg está certo de que o canibalismo ávido não só foi encontrado no Mundo Novo, como também na Europa.
Na verdade, há inúmeras fontes que descrevem as práticas mórbidas dos primeiros curandeiros europeus. Os romanos bebiam sangue de gladiadores como remédio contra epilepsia. Mas foi só no Renascimento que o uso de partes de cadáver na medicina se tornou mais comum. No começo, pós feitos de múmias egípcias trituradas eram vendidos como um “elixir da vida”, diz Sugg. No início do século 17, curandeiros voltaram sua atenção para os restos mortais de pessoas que haviam sido executadas ou até cadáveres de mendigos e leprosos.
Paracelso, o médico germano-suíço, foi um dos defensores mais veementes do uso de corpos, que acabou ganhando popularidade até mesmo nos níveis mais altos da sociedade. Era lendária a “insanidade medicinal”, como chama Sugg, do rei britânico Charles II .Ele pagou 6 mil libras por uma receita para liquefazer o cérebro humano. O regente aplicava o destilado, que entrou para a história da medicina como “as gotas do rei”, quase diariamente.
Estudiosos e membros da nobreza, assim como pessoas comuns, confiavam totalmente nos poderes curativos da morte. Citando uma fonte do século 19, a antropóloga americana Beth Conklin, por exemplo, escreve que na Dinamarca os epiléticos supostamente ficavam aos bandos em volta dos cadafalsos, com uma taça na mão, prontos para beberem o sangue vermelho que escorresse do corpo ainda trêmulo. Crânios eram usados como remédio, assim como o musgo que tendia a brotar deles. Acreditava-se que ele estancava sangramentos.
A gordura humana supostamente aliviava o reumatismo e a artrite, enquanto uma pasta feita de cadáveres seria boa para contusões. Sugg chega a atribuir significado religioso para a carne humana. Ele diz que para alguns protestantes, ela servia como uma espécie de substituto para a Eucaristia, ou o recebimento do corpo de Cristo em Comunhão Sagrada. Alguns monges até cozinhavam “uma espécie de geleia” com o sangue dos mortos.
“Tinha a ver com a vitalidade intrínseca do organismo humano”, diz o historiador. Supunha-se que todos os organismos possuíam um tempo de vida predeterminado. Se um corpo morresse de forma não natural, os restos da vida daquela pessoa poderiam ser colhidos, por assim dizer – daí a preferência pelos executados.
A prática nem sempre tinha sucesso. Em 1492, quando o papa Inocêncio VIII estava em seu leito de morte, seus médicos sangraram três meninos e fizeram o papa beber seu sangue. Os meninos morreram, e o papa também.
Era canibalismo, tudo isso? Sugg tem certeza que sim.
Assim como os canibais do Novo Mundo, os europeus basicamente tinham interesse em consumir energia vital. Para a antropóloga Conklin, a forma europeia de canibalismo é especialmente notável. Fora da Europa, ela observa, a pessoa que comia quase sempre tinha uma relação com a pessoa que estava sendo comida. O canibalismo na Europa, por outro lado, era “distintamente associal”, escreve Conklin, acrescentando que as partes de corpo humano eram tratadas como mercadoria: compradas e vendidas com lucro.
No entanto, quando o século 18 chegou ao fim a atração já havia passado.
“Com o Iluminismo, os médicos procuraram abandonar seu passado supersticioso”, diz Sugg. Em 1782, por exemplo, o médico William Black escreveu que ele via com bons olhos o fim de remédios “repulsivos e desprezíveis” como “crânios de defuntos pulverizados”. Felizmente essas “misturas de imundícies” haviam desaparecido das farmácias, comenta Black.
Uma era chegou ao fim, e com ela o interesse em receitas como aquelas de Briton John Keogh. O pastor, que morreu em 1754, recomendava coração humano em pó para “tontura”. Keogh até fornecia uma dosagem e instruções para uso: “um gole pela manhã – de estômago vazio”.
Fonte: Der Spiegel
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22 respostas para "O poder curativo da morte"
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fevereiro 2nd, 2009 em 22:59
Eu eim, usavam corpos humanos em receitas…
Eu nasci na época certa
fevereiro 3rd, 2009 em 10:16
Hum!!! E o senhor Kardec afirmava que os europeus eram superiores aos negros.
fevereiro 3rd, 2009 em 15:33
Onde vende um coração em pó por ae?
Fiquei meio “tonto” lendo esse post
fevereiro 3rd, 2009 em 17:18
Essa fixação pelo resto da força vital dos mortos é uma superstição. Fato. Olhando com a vantagem da perspectiva histórica, nós, homens do terceito milênio ficamos chocados com a ignorância dos medievais, tudo muito bonito; mas, quando olhamos em volta, nos vemos cercados por uma enxurrada de crendices e superstições de todo tipo, muitas delas relacionadas a poderes curativos, senão da morte, dos cristais, da memória da água, chás suspeitos, energias vitais (mmm… será uma mutação da morte?), manipulações dos fluxos energéticos corporais-mentais (oh maldita apropriação de termos científicos) e outras bruxarias diversas.
Gostei muito do artigo por abrir uma nova linha de interesse para mim.
Rodrigo respondeu:
fevereiro 3rd, 2009 às 17:56
Necrofilia pura!!!
Fabio K respondeu:
fevereiro 3rd, 2009 às 18:15
@Rodrigo,
Hehe, não sou chegado numa bóia-fria
ZzXx respondeu:
fevereiro 3rd, 2009 às 20:27
Não eh necrofilia, eh necrofagia
Fabio K respondeu:
fevereiro 4th, 2009 às 15:54
@ZzXx,
‘Tamos sabendo, mas assim você tirou a graça da piada do colega
ZzXx respondeu:
fevereiro 12th, 2009 às 20:03
O RLY?
fevereiro 3rd, 2009 em 22:07
Antes, os medicos usavam cadaveres como remedio, já hoje,
se espera curar doenças com partes de embiões…
Realmente, o Ser Humano evoluiu bastante
fevereiro 3rd, 2009 às 22:24
Partes de embrioões? Embriões são células, filhota. Não são seres humanos com cabeça, ombro, joelho e pé.
Lucita respondeu:
fevereiro 3rd, 2009 às 22:44
Sim, concordo, cadaveres tambem não são seres humanos,
são só um amontoado de células putrefatas…
Não estou dizendo que é errado, é só uma analogia interressante, igual a
como era no seculo 15, as pessoas fazem qualquer coisa para não
morrer, é da propria natureza animal.
Fabio K respondeu:
fevereiro 4th, 2009 às 15:54
@Lucita,
Qualquer coisa para não morrer me parece razoável, afinal, morrer dá um azar danado…
A diferença entre esses dois casos é a base teórica da coisa: superstição vs ciência. Ah, mas vão dizer que era a ciência da época, então tá
mirtes respondeu:
fevereiro 4th, 2009 às 16:33
@Lucita, espero, que tenha usado de ironia, ao se referir a embriões, como um amontado de célula putrefadas!
Claro, todos sabemos, que mesmo sendo um conglomerado (prefiro esta palavra) celular, o embrião, em fase inicial de desenvolvimento, não está putrefado.
XaparraL respondeu:
fevereiro 4th, 2009 às 18:33
@Lucita,
(…)como era no seculo 15, as pessoas fazem qualquer coisa para não morrer, é da propria natureza animal
Hoje existe um estudo científico por trás disso. Está muito longe da crendice popular de antigamente, que também nada tinha a ver com a “natureza animal” que você se referiu.
Lucita respondeu:
fevereiro 5th, 2009 às 15:09
@XaparraL,
Adoro paradoxos e uma discussão inteligente a cerca de nossa evolução
fevereiro 3rd, 2009 em 22:27
Necrofalia, Necrofagia é td morto mesmo!
XaparraL respondeu:
fevereiro 4th, 2009 às 18:28
@Rodrigo, Na verdade os dois diferem apenas na maneira de comer os mortos.
fevereiro 5th, 2009 em 11:37
novembro 15th, 2011 em 11:23
E o tal de comer fetos (coisa da idade media)
N/ sei dizer direito mas acho q na idade media
o canibalismo era muito comum,lembrei de um
pratica desse tipo de canibalismo:um rei comia o
penis de seu antecessor p/ adquirir sua sabedoria
e poder…
novembro 15th, 2011 às 12:13
Na próxima besteira, o banimento será sumário. Único aviso.
mike.9010 respondeu:
novembro 15th, 2011 às 12:31
@Tatsumi, Cara, não é por nada não, mas isso aqui não é Orkut…