Por Adriano M. Branco
Estado de São Paulo
Tenho repetido à exaustão o grave problema que afeta hoje o mundo inteiro: o fato de que a humanidade demanda recursos naturais em quantidade muito maior (30% a mais) do que a capacidade de reposição do globo terrestre. E o que é pior: nem por isso a humanidade tem um nível satisfatório de vida. Basta ver que há 1,4 bilhão de pessoas vivendo abaixo do nível de pobreza para concluir que, se superarmos esse nível, o desgaste dos recursos naturais será ainda mais insuportável.
Urge reduzir drasticamente o consumo de recursos naturais, o que equivale a alterar profundamente os hábitos de vida. Não é possível continuar a gastar, em cada deslocamento por automóvel na região metropolitana de São Paulo, 26 vezes mais energia do que se o transporte fosse feito por metrô. Além disso, como o rendimento térmico dos motores de automóveis é muito baixo, cerca de 75% ou mais do combustível que ele consome se transforma em poluição, que exige mais recursos para reduzir os seus efeitos.
A consequência do fato apontado é que a Região Metropolitana de São Paulo perde, anualmente, só com problemas de transporte e trânsito, o equivalente a todo o seu orçamento anual. Pior ainda é verificar, em estudos feitos em 1958, que há 50 anos, todos os anos, esses prejuízos correspondem a cerca de um orçamento municipal. Assim, neste meio século a sociedade metropolitana jogou fora algo como US$ 1 trilhão!
Ter consciência disso já foi um grande avanço. Mas estamos ainda querendo enxergar os fenômenos econômicos segundo as relações de custo-benefício. Vale dizer que, se a receita e a despesa do transporte se equilibram, a despeito da enorme demanda de combustíveis e da utilização de processos altamente danosos ao meio ambiente, está tudo bem. É assim que historicamente a cidade de São Paulo tem avaliado os seus transportes, optando pelo uso dos ônibus a diesel (de tecnologia ultrapassada) e erradicando o sistema de trólebus. Na verdade, os custos ambientais, na sua maior acepção, são jogados na conta das “externalidades negativas”, suportadas por toda a comunidade. Hazel Henderson mostra, em seu livro Mercado Ético, que tais externalidades são mero eufemismo para encobrir custos reais, que cumpre reduzir.
Em 1982, eu me preocupava com o fato de que, na Central de Abastecimento (Ceasa), jogavam-se fora 80 toneladas de alimentos vegetais por dia. Levei então o Instituto Mauá de Tecnologia a desenvolver uma sopa, enriquecida com proteínas, a ser enlatada para garantir um ano de durabilidade e distribuída à população pobre. Chegou-se a bom termo e até se montou na Ceasa uma pequena fábrica, hoje desativada, com o apoio da Fundação Ayrton Senna. E por que foi desativada? Eles chegaram à conclusão de que, produzida em pequena escala, a sopa custaria o mesmo que outros alimentos enlatados, fabricados pela indústria. Então, a viabilidade econômica estava comprometida. Pareceu verdade.
Empolgado com nossos estudos, o engenheiro e jornalista Roberto Muylaert, então presidente da Fundação Padre Anchieta, mandou fazer reportagem sobre as diversas formas dos desperdícios brasileiros, editando, em 1992, um filme chamado Brasil – País dos Desperdícios. É chocante o documentário, do qual extraio um depoimento estarrecedor. Um pequeno produtor de milho de Minas Gerais, entrevistado, disse ter, habitualmente, perdas de 70%! São os carunchos, os ratos, a umidade, o transporte, etc., etc., que causam isso.
Espantada, a jornalista perguntou: “Mas o senhor não pode melhorar o seu processo de armazenamento e transporte?” Ao que ele respondeu: “Fica muito caro.” E ela retrucou: “Para isso você conta com o financiamento do Banco do Brasil.” A resposta foi triste: “Aí eu perco minha terra…”
Esse pequeno produtor – e as nossas grandes safras dependem muito dos pequenos produtores – encontrava, afinal, o seu equilíbrio econômico. Perdia 70% de sua safra, mas conseguia sobreviver, sem o risco de empenhar a sua terra para se modernizar. A famosa “viabilidade econômica”, acoplada à “taxa interna de retorno”, estava resolvida.
O sitiante perdia 70% de seu produto, a Ceasa jogava fora 80 toneladas de alimentos todos os dias. Mas, no frigir dos ovos, estava tudo nos conformes. (Por falar em ovos, o município de Bastos, o maior produtor do Brasil, perdia 10% de sua produção de ovos por falta de pavimentação de uma estrada de 15 quilômetros que, quando feita, reduziu as perdas para 2%…). Tudo estava na conformidade de um conceito econômico que não leva em conta as perdas ambientais, pois são meras externalidades negativas.
Veja que, se o pequeno agricultor perdesse só 10% de seu milho, ele poderia realizar a mesma produção em um terço da área, consumindo um terço dos fertilizantes, da água e da própria força de trabalho. Nossos descendentes, beneficiados porque o mundo não acabou, agradeceriam.
Os milhares de toneladas de alimentos que se perdem na Ceasa, nos transportes, etc., etc., significam demandas feitas à natureza, sem nenhum retorno.
Resolver esses problemas da produtividade nacional não é apenas uma questão econômica, mas, acima de tudo, um “problema ético”, como bem demonstrou o cientista Samuel Murgel Branco em seu livro Meio Ambiente, Uma Questão Moral.
Mas a economia do País também agradeceria. Afinal, segundo os autores do livro Produtividade no Brasil: a Chave do Desenvolvimento Acelerado, a produtividade do trabalho no País equivale a apenas 27% da dos EUA. Nada mais importante hoje, diante da crise financeira mundial, do que investir na infraestrutura para elevar a produtividade. E, vice-versa, é de extrema importância elevar a produtividade para ter recursos para a infraestrutura.
Isso significa que não é salvando a indústria de automóveis que vamos salvar o mundo. Melhor será investir na produtividade dos bens essenciais à vida – da educação à agricultura, passando pelos transportes sustentáveis. É no metrô, nas sobras da Ceasa, na roça do caboclo que vamos encontrar saída para o nosso elevado nível de pobreza, sem desgastar o planeta e, vale dizer, sem comprometer a vida das gerações futuras.
Esses pensamentos me levam a considerar que uma “nova engenharia” deve surgir (pode-se dizer que está surgindo), preocupada com os projetos que levem em conta a viabilidade econômica, a sustentabilidade ambiental e, mais ainda, a equidade social. Se uma das versões viáveis e sustentáveis de um dado projeto favorecer a superação dos problemas da fome africana (ou mesmo a nossa), é esse o projeto que deve ser escolhido.
Fonte: Estado de São Paulo
12 respostas para "O mundo dos desperdícios"
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janeiro 19th, 2009 em 17:48
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Besteira… não adianta querer se preocupar mais com isso.
A extinção da raça humana é fato, e não está longe de começar.
Robson Fernando respondeu:
janeiro 19th, 2009 às 23:11
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@Reuel Ramos Ribeiro, pensando assim é que estamos extintos mesmo e arreganhamos de vez as portas a esse “eco-hedonismo” infernal.
Reuel Ramos Ribeiro respondeu:
janeiro 19th, 2009 às 23:27
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@Robson Fernando, Sorry, mas eu já perdi as esperanças no mundo
Simão respondeu:
janeiro 20th, 2009 às 00:04
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@Reuel Ramos Ribeiro, você pode ter perdido, mas existem muitas pessoas que tem esperança e ilusão de que conseguirão consertar nossa civilização a tempo antes dos recursos acabarem.
Existem muitos pequenos projetos para corrigir isso, mas essa correção não chegará a tempo em todos os lugares necessários para estabilizar e então regredir. Não com crescimento populacional, e nem com o comportamento de pessoas como você, que desistiram.
Vamos viver a vida, os poucos anos que nos restam, e nos matar no final por comida e água.
Que vença o mais forte.
sidnei respondeu:
abril 13th, 2009 às 12:29
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@Simão,
Tenho plena certeza, que se, quisermos poderemos reverter esta situação, as ~pessoas não conhecem a força que têm quando estão organizadas,vejamos vários exemplos pelo mundo a fóra, entre eles Nelson Mandela que após anos de prisão foi eleito presidente da Africa do Sul, em nosso país o presidente Lula ,tentou várias vezes e, atingiu o objetivo.Nós somos aquilo que queremos ser , se quiseres ser apenas mais um na multidão seras, caso contrário será preciso muito trabalho e determinação para mudar esta realidade.
Sds.
janeiro 20th, 2009 em 00:11
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Reuel Ramos Ribeiro, adianta sim! A extinção da raça humana é fato, assim como todas as outras, um dia. + que graça tem ficarmos de braços cruzados? vamos! se voce acha q a nossa existencia eh inutel hoje, que nao tem mais jeito, começe voce, eu empresto corda.
Enquanto estamos aqui, devemos fazer o possivel. por favor não desanime. Abraços.
janeiro 20th, 2009 em 14:55
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janeiro 20th, 2009 às 15:00
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@acimadomar,
Espere sentado para sempre, pois Jesus nunca existiu na vida real.
Que tal VC se mexer e fazer alguma coisa, em vez de esperar um ser imaginario ?
acimadomar respondeu:
janeiro 22nd, 2009 às 12:04
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@Abbadon, kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk!!!!!!
Pelas barbas de Odin, Thor, Adgir, Andhrímnir, Balder, Borr, Bragi, Dagr, Delling… O que eu escrevi, surtiu efeito contrário do que eu havia desejado.
Fala sério!
Ou você acha que escreveria, probremas se acabaram-se, se não se tratasse de uma ironia?
Ou então que só por que não consegui tudo o que eu quis, torço que venha um ser sei lá de onde e destrua esta maravilha que é o nosso mundo para que eu possa ter uma vida paradisíaca que não consegui ter aqui?
E quem te disse que não faço a minha parte para que o mundo seja melhor?
Reuel Ramos Ribeiro respondeu:
janeiro 20th, 2009 às 15:17
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@acimadomar, Nossa… “Se acabaram-se”
lol
Seu cristo de vento já trouxe muito problema ao mundo, não precisamos de mais
acimadomar respondeu:
janeiro 22nd, 2009 às 12:08
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@Reuel Ramos Ribeiro,
Meu o que?
Acorda alice!
janeiro 21st, 2009 em 22:51
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O ser humano soh percebe a falta de comida qndo começa a sentir fome
e isso serve para todos as outras relações desperdício/falta/abundancia