A história do nigeriano e seu ‘pequeno’ harém primeiramente me lembrou o ‘rei’ Salomão (que, se existiu, não passou de um pequeno chefe de um minúsculo e insignificante grupamento humano), bem como o livro de Moacyr Sciliar (A mulher que escreveu a bíblia); mas agora, com a notícia veiculada pela BBC, não pude deixar de me lembrar da música de Léo Jaime:
….as sete garotas….que tremenda confusão!
E isso pelo fato de que as 86 garotas, depois dos inúmeros prazeres que podem ter propiciado ao garotão de 84 (oitenta e quatro!) anos, agora estão a lhe ameaçar a vida: as otoautoridades islâmicas da Nigéria estão ameaçando o velhaco com a morte, caso ele não ‘dispense’ oitenta e duas das mulheres, permanecendo apenas com as quatro esposas.
Para aquelas otoautoridades, Mohammed Bello Abubakar formou um culto, não uma família pois uma família ‘aceita’ seria aquela formada por um gajo e até quatro esposas (desde que o gajo comprovasse poder sustentar todas elas). Nota: o garanhão in casu não trabalha (vive de rendas ou o grande deus manda maná do céu?!?) e ninguém sabe como ele sustenta esse povaréu todo (a família gasta oitocentos e cinqüenta dólares ao dia só em alimentos).
Em sua defesa, Mohammed afirma que o Alcorão não prevê nenhuma punição para quem tem um número maior de mulheres. O espertalhão (tosco) não permite que ninguém de sua família (ou devotos – Ah…não disse? O cara é curandeiro) tomem remédios e não acredita que a malária exista.
O curandeirismo dele não é tão poderoso, haja vista que segundo uma de suas esposas (Hafsat Bello Mohammed), dois de seus filhos morreram.
Segundo a BBC, a Nigéria é um dos países de maioria muçulmana que reintroduziram punições com base na Sharia, a lei islâmica, em 2000 e muitas pessoas já foram condenadas à morte por adultério em tribunais da Sharia, embora nenhuma das sentenças tenha sido executada.
Analisemos um pouco a questão: qual seria o motivo das três religiões baseadas no Pentateuco colocarem a mulher num tal estado de inferioridade perante o homem? O que levaria tais mulheres a aceitá-lo?
John Dominic Crossan, no livro ‘O Jesus Histórico’ faz uma interessante análise das sociedades agrícolas do Mediterrâneo, alegando que aqueles nômades acabaram baseando seus valores no conceito ‘honra-vergonha’.
Referido conceito estaria ligado à própria noção de valor do indivíduo. Nas palavras de Pierre Bourdier (Apud Crossan):
…A questão da honra é a base do código mora e um indivíduo que sempre vê a si mesmo através dos olhos dos outros e precisa deles para existir, pois a imagem que tem de si mesmo é inseparável daquela que lhe é apresentada por outras pessoas [...] respeitabilidade, o oposto da vergonha, é a característica deu ma pessoa que precisa dos outros para ter uma noção da sua própria identidade e cuja consciência é uma espécie de interiorização de seus semelhantes, uma vez que estes desempenham o papel de testemunha e juiz [...] aquele que perde a honra deixa de existir. Ele deixa de existir para os outros e, ao mesmo tempo, para si mesmo…’
Mais especificamente sobre as sociedades do Mediterrâneo, Crossan associa o conceito de ‘honra-vergonha’ ao relacionamento do homem com o sexo oposto. Considerando que os grupos nômades tinham de enfrentar situações adversas, a mulher era considerada apenas mais um bem/patrimônio, mais um recurso escasso cuja posse tinha de ser preservada à qualquer custo, daí a dificuldade que tais grupos tinham em ‘ceder’ suas mulheres para outros grupos. Esse egoísmo (palavras de Crossan) teve de ser transformado em ‘virtude’. Citando David Gilmore, Crossan aduz que:
…a honra é uma reputação social libidinizada; e é esse aspecto erótico da honra – ainda que inconsciente ou implícito – que torna a variante mediterrânea um caso específico [...] a unidade mediterrânea se deve, pelo menos em parte, aos valores primordiais de honra e vergonha, e estes valores estão intimamente ligados à sexualidade e ao poder, às relações dos homens entre si e destes com o sexo oposto’
Nas palavras do próprio Crossan:
….As sociedades pastoris – quer elas sejam nômades, deslocando-se num território amplo, ou transumantes, indo e vindo periodicamente entre duas áreas determinadas – são governadas por aquilo que podemos chamar de Lei de Schneider: ‘quanto mais pressionada e vulnerável for a sociedade pastoril, menores e mais independentes serão as suas unidades econômicas básicas’. Se pensarmos nas dificuldades enfrentadas pelas comunidades pastoris do Mediterrâneo, ‘tendo que lidar com extremos de temperatura, tempestades, pastos e fontes d’água que secavam periodicamente, rotas migratórias perigosas e predadores’, é fácil perceber que ‘para sobreviver, os pastores tinham que ser egoístas, tomaram, então, a medida mais adequada: transformaram o egoísmo numa virtude’
Ou seja: plenamente explicado o fato de que para tais sociedades, a mulher tinha de ser mantida ‘no cabresto’: seria inconcebível que um recurso natural como outro qualquer (um gado bovino) pudesse opinar sobre seu próprio destino.
Mas…e agora? Qual (ou quais) seria (m) o(s) elemento(s) que manteriam o status da mulher?
Várias poderiam ser as respostas; à mim, a mais apropriada seria aquela que relaciona religião ao poder. Notório que um determinado grupo, privilegiado por um sistema de dogmas, não permitiria que tal sistema fosse derrubado facilmente.
Assim, os três grupos religiosos baseados nos Pentateuco conseguiram, à força, manter as mulheres em tal estado de submissão, tão expurgável por pessoas verdadeiramente civilizadas. E a força, longe de ser excluída como elemento de coalisão, é utilizada até hoje em várias comunidades das dezenas de vertentes religiosas que se basearam em tais ‘valores’.
Inúmeros seriam os argumentos que poderia utilizar para defender as mulheres, mas empresto aqui as palavras de um outro John (Stuart Mill) in ‘A Sujeição das Mulheres:
…Se a autoridade dos homens sobre as mulheres, quando primeiramente estabelecida, tivesse sido o resultado de uma comparação consciente entre os diferentes modos de constituição do governo da sociedade, após experimentar-se vários outros modos de organização social – o governo de mulheres sobre homens, igualdade entre os dois, e modos divididos e misturados de governo – fosse decidido, com base na experiência, que o modo pelo qual as mulheres estão totalmente sujeitas às regras dos homens, não tendo nenhum tipo de participação em assuntos públicos, e estando sob a obrigação legal de obediência aos homens com quem estão ligadas pelo destino, é a combinação mais proveitosa para a felicidade e bem-estar de ambos.
A aceitação geral pode ser então, justamente compreendida como prova de que, na época em que foi adotada, era considerada a melhor escolha, embora tais considerações que recomendaram este modo, assim como muito outros fatos sociais antigos de maior importância, subseqüentemente, deixaram de existir ao longo dos séculos.
Todavia, o estado do caso mostra-se, em todos os aspectos, contrário a esta situação. Em primeiro lugar, a opinião a favor do sistema atual, onde o sexo mais frágil está totalmente subordinado ao mais forte, está baseada somente numa teoria, uma vez que nunca houve nenhuma experiência com cada um deles.
Portanto, tal experiência, vulgarmente oposta à teoria, não pode ter ocasionado nenhum veredicto.
Em segundo lugar, a aceitação desse sistema de desigualdade nunca foi o resultado de deliberação, previsão, ou de qualquer idéia social ou noção que tenha sido direcionada para o benefício da humanidade ou para a boa ordem social.
Simplesmente surgiu do fato de que desde os primeiros conhecimentos sobre a sociedade humana, toda mulher (possuindo o valor designado pelos homens, combinado com sua inferioridade de força muscular) estava em estado de escravidão em relação a algum homem”.
Por fim anoto que o ilustre pensador (criador do ‘Utilitarismo’, junto com Betham), faz uma ferrenha defesa às mulheres, defesa não só a elas, mas estendível à todos os seres humanos:
…a regeneração moral da raça humana irá realmente começar quando a mais fundamental das relações sociais¹ for colocada sob a regra da justiça e da igualdade e quando os seres humanos aprenderem a desenvolver sua solidariedade mais forte com uma igualdade de direitos e de aprimoramento’
___________
¹ Aqui ele se refere às relações ‘homem-mulher’
Fonte: BBC
2 respostas para "Nigeriano pode ser condenado à morte por seu harém"
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setembro 1st, 2008 em 23:02
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Se ás vezes uma mulher já tira o sono de um homem (por bem o por mal), que dirão esse tanto!!!
Acho que o tiozinho aí, tem mais poderes ocultos, do que meramente os de um curandeiro
(mode ironia off)
Falando sério, agora, demoraram acho que mais de 20 anos pra notar que o tiozinho tinha um harém, e sobre a inferioridade dessas mulheres, o que elas podem fazer? Se não aceitam o que lhes é imposto, ficam a margem da sociedade, sendo que o menos que pode acontecer com elas, é serem condenadas á miséria e ao abandono, como escórias, e o máximo, são as penas de morte, em nome da “honra”.
janeiro 9th, 2009 em 18:25
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Puxa, vamos fazer um abaixo assinado para salvar o nigeriano, álias, ele não obrigou e não pode ter comprado as mulheres, se ele for executado todas ficarão desesperadas e imaginem o problema social para a Nigéira com tantos novos órfãos. Portanto, vamos sensibilizar o itamaraty para intervir duramente junto ao governo da Nigéria e salvar o pai de santo D Juan.