Em uma conferência global em Bonn, Alemanha, representantes de 191 países estão discutindo uma revolução em conservação. Ao transformar em negócio altamente lucrativo a preservação de florestas, baleias e recifes de coral, os ambientalistas esperam colocar um fim à dramática onda de extinções
O emissário da Europa mal podia acreditar em seus olhos. Borboletas do tamanho de pratos de sobremesa voavam ao redor de seu nariz. Orquídeas pendiam em cascata de árvores imensas. Calaus voavam sobre a copa das árvores. O ar tropical estava repleto do cheiro saturado de crescimento e proliferação.
Os biólogos já registraram mais de 10 mil plantas e 400 espécies de mamíferos na Bacia do Congo. Estas plantas e animais fazem parte da segunda maior floresta tropical contínua do mundo, um dos sistemas mais potentes de armazenamento de carbono do planeta. De fato, é precisamente por este motivo que Hans Schipulle, 63 anos, está vagando pela floresta próxima do Rio Sangha, em uma manhã úmida na República Centro-Africana.
“Esta floresta armazena dióxido de carbono e, portanto, ajuda a desacelerar o aquecimento global. Ela regula o suprimento de água global e contêm produtos farmacêuticos valiosos”, disse Schipulle, um ambientalista veterano que trabalha para o governo alemão. “Nós temos que nos conscientizar de que estes são serviços que valem algo para nós”.
Schipulle está na região em uma missão sensível. Desde dezembro, ele chefia a Parceria da Floresta da Bacia do Congo (CBFP, na sigla em inglês), um grupo fundado por americanos, europeus e os países ao longo do Rio Congo. A aliança visa proteger a Bacia do Congo de ser saqueada e transformada em plantações de café e óleo de palma até a metade do século. A floresta tropical do Congo está em grande parte intacta, mas investidores de todas as partes do mundo já descobriram o potencial da região para grandes negócios - minérios, diamantes, plantações e madeira. Mas Schipulle e seus parceiros têm outros planos para a Bacia do Congo. Eles querem que as instituições financeiras internacionais ou a comunidade internacional paguem pela preservação da floresta como está hoje. A ameaça de desmatamento traz um duplo risco para o mundo. Primeiro, a destruição da floresta tropical do Congo eliminaria um dos sistemas de resfriamento mais importantes do planeta. Segundo, o dióxido de carbono (CO2) emitido em conseqüência de uma agricultura de corte e queima aceleraria ainda mais o aquecimento global.
Bayanga, uma aldeia próxima, é a prova viva do conflito tradicional entre a proteção do meio ambiente e o combate à pobreza. Até recentemente, seus moradores se beneficiavam da destruição da floresta tropical. Uma serraria em Bayanga empregava 370 pessoas, mas ela foi fechada depois que Schipulle e sua aliança fizeram um apelo urgente ao governo na capital, Bangui, para impedir a madeireira duvidosa de ser autorizada a explorar os 4.520 quilômetros quadrados de floresta.
Foi uma pequena vitória da natureza, mas os moradores da aldeia ainda precisam de trabalho e de renda. Um projeto de ecoturismo patrocinado pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF) e pela Sociedade Alemã para Cooperação Técnica (GTZ) criou empregos para apenas 94 pessoas até o momento, fornecendo para a comunidade cerca de US$ 15.500 em renda anual -algo insuficiente para reduzir a pobreza.
Como Schipulle pode explicar para as pessoas de Bayanga o que sua floresta representa para o restante do mundo? É realmente possível que o ecoturismo, uma silvicultura ambientalmente responsável e plantações de café às margens das regiões florestais futuramente protegidas serão capazes de alimentar os homens, mulheres e crianças da aldeia?
Um mercado de emissões para a floresta tropical do Congo
Schipulle acredita firmemente nesta visão. O Banco Mundial já planeja incorporar toda a Bacia do Congo em seu programa Parceria de Carbono Florestal. A organização com sede em Washington deseja entrar no mercado de emissões com o CO2 armazenado pela floresta tropical do Congo. Como o desmatamento nas regiões tropicais é responsável por cerca de 20% da mudança climática, proteger a floresta significa proteger o clima -e a comunidade mundial está cada vez mais disposta a pagar muito para que isso aconteça.
O possível resgate da floresta tropical do Congo é apenas um de muitos exemplos. Uma nova era de conservação está amanhecendo. Pela primeira vez, um valor está sendo atribuído às florestas, plantas e recifes de coral, um valor que torna sua proteção valiosa. É uma verdadeira mudança de paradigma no movimento ambiental.
Noções românticas sobre natureza e meio ambiente de lado, governos, conservacionistas e cientistas estão apresentando novas questões, cujas respostas moldarão o futuro da humanidade: Quanto vale a Terra? O valor de sua diversidade pode ser calculado? Quanto a realização de um inventário do planeta valeria para nós? E finalmente, quem deve pagar a conta de décadas de má administração às custas da natureza?
Autoridades de todas as partes do mundo estão atualmente tratando destas preocupações cruciais em uma conferência da ONU sobre biodiversidade em Bonn, Alemanha. Representantes de 191 países e cerca de 250 organizações ambientais, de conservação e de ajuda para desenvolvimento estão se concentrando em formas de deter a perda de espécies e habitats. Dezenas de resoluções esboçadas, muitas delas controversas apesar de terem sido formuladas na linguagem seca da diplomacia internacional, estão sendo analisadas. Até mesmo o nome do encontro não condiz com sua importância: 9ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica da ONU.
Em questão em Bonn está nada menos que o futuro do planeta e o fracasso dramático da humanidade em deixar um planeta habitável para seus filhos. Florestas, espécies, habitats e ecossistemas estão desaparecendo em taxas sem precedentes. A cada dia, os seres humanos extinguem entre três e 130 espécies, dependendo da estimativa adotada. A cada ano, florestas virgens com uma vez e meia o tamanho da Suíça são desmatadas para extração de madeira. Mangues estão desaparecendo, rios estão sendo forçados a correr em canais de concreto e a erosão está transformando encostas de montanhas em desertos.
Um prego no caixão da Floresta Amazônica?
A agricultura está tomando uma porção cada vez maior do planeta, especialmente agora que as plantas não são cultivadas apenas como alimentos, mas também -como a cana-de-açúcar e óleo de palma- para produção de biocombustível. Este mês, a chanceler alemã Angela Merkel assinou um acordo de energia em Brasília com o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo o acordo, o Brasil poderá continuar fornecendo biocombustível para a Alemanha desde que cumpra certos padrões ambientais. Mas para muitos grupos de proteção ambiental, o acordo é apenas outro prego no caixão da Floresta Amazônica.
Além disso, a destruição da natureza e o aquecimento global tendem a reforçar um ao outro. Quando o nível dos mares se elevar e os mangues desaparecerem, as costas se tornarão mais expostas aos elementos do que antes. À medida que o dióxido de carbono continua acidificando os oceanos, as estruturas de cálcio dos corais, moluscos e mariscos se tornam frágeis.
Em jogo está a sobrevivência de espécies exóticas como o abutre de cabeça vermelha, o cardinal de Bangai, o boto-do-porto do Golfo da Califórnia, a cascavel de Santa Catalina e o gavial indiano. Mas a sobrevivência da humanidade como espécie também está em jogo, como ilustrou o exemplo do recente ciclone em Mianmar. Se os mangues que antes protegiam a costa birmanesa estivessem intactos, a enchente provavelmente seria muito menos devastadora.
Sem os corais, muitos tipos de peixes não existiriam, porque os recifes protegem os peixes enquanto amadurecem. A flora e a fauna dos oceanos contêm drogas com potencial de curar o câncer no valor, segundo estimativas dos economistas, de até US$ 1 bilhão por ano.
Muitas das coisas que a humanidade considera caras e desejáveis também fazem parte da biodiversidade, como filé de rodovalho, móveis de teca para jardim e caviar de esturjão russo. Mas também valorizamos o canto do rouxinol, o perfume do lilás, a vista de montanhas virgens, campinas vazias e florestas densas.
As partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), cientes destas riquezas, esperam desacelerar “significativamente” a perda de ecossistemas e espécies até 2010. Mas o que realmente significa este “objetivo suficientemente vago”, perguntou sarcasticamente Jochen Flasbarth, chefe de proteção da natureza do Ministério do Meio Ambiente da Alemanha (BMU).
Na conferência em Bonn, cerca de 6 mil especialistas estão debatendo exatamente esta questão. Idealmente, eles darão significado a palavras e frases fora isso vazias, mas no pior cenário a conferência terminará com pouco mais que declarações insípidas de intenção. As partes só podem adotar as resoluções por consenso, e não há mecanismo para aplicar pressão nos obstrucionistas.
Apesar das dificuldades potenciais, algumas das abordagens discutidas na conferência ao menos são promissoras:
-Uma das metas é criar uma rede global de santuários com habitats representativos.
-Usado o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) como modelo, os delegados esperam estabelecer um painel de especialistas para a convenção sobre biodiversidade, que reunirá representantes das comunidades cientifica e política.
-A agenda pede por um equilíbrio justo de interesses entre os países em desenvolvimento, com sua diversidade abundante, e os países industrializados, que querem explorar estes recursos.
-Os especialistas pretendem buscar novos mecanismos para pagar pela proteção da diversidade. Sem novos recursos ou financiamento, todas as negociações serão apenas conversa vazia.
“Esta conferência lida com interesses econômicos”, disse o ministro do meio ambiente alemão, Sigmar Gabriel. Segundo Gabriel, é crítico atribuirmos “um custo mensurável para a perda (do meio ambiente)”, ou correremos o risco “de apagar dados do disco rígido da natureza”. A chanceler Angela Merkel já indicou que anunciaria um aumento significativo da verba do governo alemão para proteção das florestas mundiais quando aparecesse na conferência na quarta-feira (28/05) . A Noruega, que investe US$ 500 milhões por ano, é seu referencial. Em casa, o governo em Berlim está pedindo aos Estados alemães, responsáveis pelas questões domésticas de proteção ambiental, que permitam que 10% das florestas de propriedade dos Estados e municípios retornem à natureza.
Gabriel, o ministro do meio ambiente, também planeja apresentar os resultados iniciais de um estudo, iniciado em colaboração com a União Européia (UE), sobre os custos globais da perda de espécies e habitats. Segundo um trecho obtido pela “Spiegel” do documento -intitulado “A Economia dos Ecossistemas e Biodiversidade”- a perda de biodiversidade custa ao mundo 6% do produto mundial bruto. Os países pobres são os mais duramente atingidos. O custo anual da perda de espécies e habitats representa até metade de sua força econômica já modesta.
“Proteger a diversidade é muito mais barato do que permitir sua destruição”, disse o economista indiano Pavan Sukhdev, que Gabriel e Stavros Dimas, o comissário de meio ambiente da UE, convenceram a chefiar o estudo. A biodiversidade -e os esforços para preservá-la- poderia se tornar um negócio enorme no futuro. Os novos conservacionistas esperam vender florestas intactas porque armazenam o gás dióxido de carbono (CO2) do efeito estufa. Eles também esperam ver as drogas desenvolvidas a partir de criaturas como moluscos da espécie Conus e corais produzirem grandes lucros no futuro. Os últimos oásis de diversidade também deverão atrair mais e mais ecoturistas abastados.
“Bonn tem que pressionar por um avanço”, disse Achim Steiner, chefe do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Até hoje, segundo Steiner, as promessas feitas na Cúpula da Terra do Rio há 16 anos, onde tanto a Convenção sobre Mudança Climática quanto a Convenção sobre Diversidade Biológica nasceram, “ainda não foram cumpridas ou foram sistematicamente quebradas”.
A biodiversidade é mais do que apenas a diversidade de espécies de plantas e animais. Ela abrange toda uma cornucópia de habitats, assim como a informação genética oculta, como um tesouro biológico, em muitos organismos que ainda precisam ser estudados. Especialistas estimam que o inventário do planeta inclui entre 10 e 20 milhões de espécies de animais, plantas, fungos e micróbios. Mas esta diversidade não está distribuída de forma igual. A vida está concentrada nos chamados “hot spots”, que incluem regiões como a costa mediterrânea, os Andes tropicais e as Filipinas.
E o futuro da diversidade não é promissor. Veja o exemplo da Alemanha. Segundo um estudo publicado em abril pela Agência Federal Alemã para Conservação da Natureza (BfN), intitulado “Fatos sobre a Natureza 2008″, 36% de todas as espécies animais estudadas na Alemanha estão ameaçadas. Mais de dois terços dos habitats alemães são considerados ameaçados. As reservas naturais correspondem a apenas 3,3% da área total do país. Todo dia, 113 hectares de terra desaparecem sob asfalto e concreto.
A situação global é igualmente alarmante. No ano passado, a União Internacional para Conservação da Natureza (Iucn) listou 16.297 espécies de plantas e animais como ameaçadas, incluindo quase um terço de todos os anfíbios, uma em oito espécies de pássaros e quase um quarto de todas as espécies de mamíferos. Para desenvolver sua lista, a Iucn avaliou mais de 41 mil espécies. As que estão na lista de ameaçadas correspondem a perto de 40% do total.
“Uma sexta extinção em massa global teve início”
Para piorar as coisas, a taxa de declínio é formidável. Uma estimativa atual do Pnuma concluiu que as espécies estão se tornando extintas 100 vezes mais depressa atualmente do que normalmente ocorreria em conseqüência da evolução.
“Uma sexta extinção em massa global teve início”, disse Steiner, o diretor executivo do Pnuma. A diversidade das espécies já foi seriamente comprometida cinco vezes no passado, após colisões de meteoritos, erupções vulcânicas e elevação do nível dos mares. Mas atualmente são as mais de 6,6 bilhões de pessoas que estão destruindo a natureza em uma taxa sem precedente. Elas caçam e pescam em taxas descontroladas. Elas transformam mais e mais terra em campos agrícolas para encher seus estômagos. Elas derrubam as últimas florestas virgens para produzir biocombustíveis para seus automóveis. Elas poluem a água, o solo e o ar com substâncias tóxicas. E arrastam espécies de uma parte do planeta para outra -às vezes com conseqüências devastadoras.
Atribuindo um valor monetário à natureza
A pegada do homem no planeta está crescendo de forma inexorável. E o Homo sapiens, a supostamente perceptiva raça humana, fracassou miseravelmente em proteger a diversidade biológica da Terra. Mas agora uma revolução está transcorrendo na forma como pensamos, à medida que os ambientalistas e economistas descobrem o valor de mercado da natureza. Eles estão se unindo para traduzir os benefícios de mangues, baleias e florestas tropicais em valor monetário. Segundo esta nova mentalidade, a destruição da natureza não será mais lucrativa, enquanto a proteção será. Pavan Sukhdev, o diretor do estudo conjunto da Alemanha-UE sobre biodiversidade, considera esta a solução óbvia. É agora ou nunca, disse Sukhdev, “que a arma econômica deve atirar na direção certa”.
Em uma recente manhã, o indiano de 48 anos apontou para o deserto de concreto da praça Alexanderplatz, em Berlim. “Todo o planeta ficará assim desolado se não tivermos sucesso”, disse Sukhdev, que também chefia a divisão de mercados globais do escritório indiano do Deutsche Bank, em Mumbai. Há dez anos, ele disse, uma amiga lhe fez a seguinte pergunta: “Você é um banqueiro. Então me diga, por que algumas coisas valem algo enquanto outras não?” Enquanto procurava por uma resposta para a pergunta dela, ele teve a idéia de calcular os preços de florestas, mangues e rios.
Os cálculos de Sukhdev, a princípio ridicularizados, de lá para cá se tornaram a força motriz por trás da revolução da conservação. Os economistas agora realizam cálculos detalhados para refletir o que a diversidade faz pelas pessoas. As abelhas, por exemplo, valem entre US$ 2 bilhões e US$ 8 bilhões por ano, porque polinizam plantas agrícolas importantes em todo o mundo. Junco que cresce às margens dos rios também é considerado valioso. Ao longo da parte central do Rio Elba na Alemanha, por exemplo, eles são responsáveis por 7,7 milhões de euros de economia anual, porque filtram a água, eliminando assim a necessidade de construção de usinas de tratamento de esgoto adicionais.
Na costa da província do Beluquistão, no Paquistão, um hectare de floresta de mangue intacto produz o equivalente a cerca de US$ 2.200 em renda anual. O ecossistema é área de reprodução de espécies de peixes economicamente atraentes, assim como atua como uma barreira protetora contra enchentes. Os pântanos salinos na Escócia valem cerca de 1.000 euros por hectare para a indústria de mexilhão da região.
Os turistas que visitam o Parque Nacional Müritz na Alemanha, e que se maravilham como as águias, grous e cervos-vermelhos, contribuem com 13 milhões de euros de receita anual. No Reino Unido, uma equipe de pesquisadores que trabalha com o biólogo de conservação Andrew Balmford calculou que a rede global de áreas protegidas produz cerca de US$ 5 bilhões em receita anual. Os cálculos do grupo refletem os benefícios econômicos das reservas para o turismo, proteção do clima, ciclos de nutrientes e suprimento de água.
Se a destruição dos habitats continuar sem pausa, até mesmo a chave para o futuro suprimento de energia do planeta poderá não ser descoberta. O geneticista americano, Craig Venter, coletou milhares de amostras de microorganismos que vivem na água do mar durante viagens em seu iate, o Sorcerer II. Venter espera que as amostras contenham seqüências genéticas que possam ser usadas para produção de combustíveis para carros e aviões no futuro.
Em 1997, o economista ecológico americano Robert Costanza estimou o valor anual dos serviços que a natureza fornece para a humanidade em US$ 33 trilhões, um número que representava 1,8 vez o produto mundial bruto da época.
Uma mudança de pensamento
Apesar de sua enormidade, estes números foram de pouca utilidade para as espécies e ecossistemas no passado, porque poucos estavam dispostos a pagar pelos ativos da natureza. De fato, as corporações mais poderosas do mundo continuam tratando animais, plantas, florestas, rios e áreas alagadiças como recurso gratuito. Mas pelo menos alguns setores parecem estar se aproximando de um divisor de águas importante no momento.
Por exemplo, as empresas já ganham US$ 43 bilhões em receita anual com medicamentos naturais baseados em plantas. Os agentes ativos em 10 das 25 drogas de maior sucesso do mundo foram obtidos a partir de fungos, bactérias, plantas e animais que vivem na natureza. Os precursores da aspirina vieram da casca do salgueiro e ulmaria. A planta dedaleira é fonte do agente na droga digitoxina para o coração.
As empresas gastam bilhões pesquisando pelas próximas megadrogas derivadas de fontes diversas na natureza. Mas a natureza recebe algo em troca? Os modelos iniciais mostram que ela pode. Na Costa Rica, por exemplo, já há uma tradição de procurar por drogas milagrosas na floresta. O Instituto Nacional de Biodiversidade (INBio) foi fundado na capital, San José, em 1989. Nos anos 90, a empresa farmacêutica Merck investiu US$ 4 milhões no instituto de pesquisa, que já adquiriu reputação mundial. Os executivos da Merck prometeram doar 10% dos lucros de descobertas potenciais para o país, com parte do lucro destinado à conservação.
As borboletas, plantas e fungos da Costa Rica detêm a chave para novas drogas para combate da malária e câncer, ou ao menos fornecer ingredientes para novos cremes para pele e xampus anticaspa? Os renomados pesquisadores do INBio continuam à procura de respostas para estas perguntas, buscando constantemente substâncias naturais úteis.
Em uma manhã recente, por exemplo, Jorge Blanco, um especialista em fungos, estava analisando cuidadosamente as folhas da Monimiaceae siparuna, uma planta que lembra a família do loureiro. Usando um escalpelo, ele cortou as preciosas folhas verdes e colocou os pedaços em pratos de cultura. Logo brotariam fungos que antes cresciam apenas dentro das folhas. Para obter a planta, Diego Vargas, um biólogo que trabalha no INBio, passou duas horas do dia anterior em um utilitário esportivo, dirigindo por estradas sinuosas no Parque Nacional Braulio Carrillo, ao longo das encostas do vulcão Barva.
Vargas, vestindo um boné, camiseta branca e luvas azuis de borracha, fotografa as plantas na mata virgem, então usou tesouras de jardim para retirar as infrutescências de várias plantas e as coloca cuidadosamente em sacos. Espiando nos pequenos arbustos, ele encontrou a Monimiaceae siparuna, uma planta com minúsculas flores amareladas. Ele girou suas tesouras de jardim como um caubói com seus revólveres, então cortou habilmente as infrutescências: um pequeno corte para Vargas, mas um corte gigante para a humanidade?
“Muitos dos fungos que vivem nas folhas desta planta nunca foram estudados, porque são muito difíceis de isolar”, disse Vargas. “Eles podem muito bem produzir muitas substâncias interessantes que ainda desconhecemos.”
Desde que o INBio foi fundado no final dos anos 80, seus cientistas já examinaram milhares de insetos em sua busca por substâncias naturais úteis. Atualmente, equipamento de alta tecnologia no laboratório especial do instituto, em Herédia, um subúrbio de San José, é usado principalmente para analisar extratos de plantas, micróbios e fungos.
O grande bio-boom ainda não se materializou, levando a Merck e alguns outros grandes investidores a retirarem seu financiamento. “As companhias farmacêuticas não querem mais pagar pelo longo processo necessário para encontrar substâncias promissoras na natureza”, disse Giselle Tamayo, a coordenadora técnica da divisão de prospecção da biodiversidade do INBio.
Compartilhando as bênçãos, protegendo ao mesmo tempo a biodiversidade
Todavia, Tamayo insistiu que o centro de pesquisa, que agora trabalha basicamente com universidades, ainda é “um modelo de sucesso”. O instituto, disse Tamayo, ajuda a demonstrar como os países em desenvolvimento podem compartilhar as bênçãos da biotecnologia ao mesmo tempo que protegem sua própria biodiversidade. Uma parte das taxas de licenciamento que o INBio recebe é destinada à proteção das florestas costarriquenhas.
A Costa Rica já é considerada um país modelo dentro do movimento internacional de conservação. No próspero setor de ecoturismo do país, cerca de 1,5 milhão de turistas gastam perto de US$ 1,5 bilhão por ano para visitar as maravilhas naturais das florestas tropicais e florestas de montanha costarriquenhas. E proteger estas florestas foi elevado ao patamar de doutrina nacional na Costa Rica. Nos anos 70 e 80, madeireiros derrubaram quase 80% da floresta tropical costarriquenha. Hoje, mais da metade do país está novamente coberto por floresta.
Na parte sul do país, a densamente florestada Península de Osa se projeta no Pacífico. No interior da mata, nas montanhas acima da minúscula aldeia de Golfito, Jorge Marin Picado vigia 46 hectares de floresta primitiva. Um bando de araras vermelhas sobrevoa o local, onde o cheiro de vegetação em decomposição preenche o ar. Trepadeiras serpenteiam tronco acima de árvores gigantes. Picado, carregando um facão comum em seu cinto, é o administrador da “finca”, ou fazenda, empoleirada ao longo da borda da cadeia costeira. Segundo um acordo que o proprietário da fazenda assinou com a agência florestal costarriquenha, o governo lhe paga US$ 350 por hectare por ano para que mantenha a floresta intacta e impeça qualquer um de roubar plantas ou cortar árvores ilegalmente.
Recompensando os agricultores por manterem as árvores intocadas
O governo chama o sistema de programa de “Serviços Ambientais” e os conservacionistas o consideram exemplar. Segundo o programa, o governo recompensa os proprietários por plantarem novas árvores ou deixarem a floresta existente intocada. “Nós queremos ampliar a área florestal e oferecer aos agricultores uma alternativa”, disse Katia Alegria, da agência florestal. Como resultado, as terras em que até agora o gado pastava estão se tornando novamente florestas. Em vez de bananeiras e palmeiras, espécies locais como teca e guaritá estão crescendo nas novas e antigas florestas preservadas.
O programa é financiado com impostos sobre a venda de gasolina e fundos do Banco Mundial e do Fundo Global para o Meio Ambiente (Global Environment Facility, GEF), para o qual contribuem os países membros da CDB. Mas a Costa Rica também espera no futuro obter lucro com o dióxido de carbono capturado pelas árvores.
De fato, a capacidade de capturar enormes quantidades de CO2 da atmosfera e armazená-las poderia significar a salvação das florestas nesta era em que o homem está desesperadamente em busca de formas de deter o aquecimento global. Pântanos também podem capturar quantidades substanciais de CO2. Recuperá-los e preservá-los “oferece uma forma custo-eficaz de coibir a mudança climática e proteger a diversidade”, disse Steiner, o diretor-executivo do Pnuma. Esta também é uma oportunidade para a Alemanha. Pesquisadores da Universidade de Greifswald calcularam que a recuperação de um hectare de pântano na Alemanha e permitir que a floresta de carvalho nativa cresça resultaria na captura de 30 toneladas de CO2 por ano.
Os governos de países com grandes florestas tropicais, como Guiana, Indonésia, Brasil e Papua-Nova Guiné, se tornaram defensores particularmente entusiastas da idéia revolucionária de vender suas florestas como escoadouros de gases do efeito estufa. Se o plano funcionar, eles poderiam arrecadar bilhões, o que por sua vez poderia ser gasto protegendo as florestas.
Uma nova moeda para o ambientalismo
A moeda na nova era ambiental é chamada de “certificado florestal” e já existe um mercado potencial para o novo dinheiro verde. No sistema de comércio de emissões da UE, por exemplo, é alocado para as corporações industriais e empresas de energia direitos de poluição por dióxido de carbono conhecidos como certificados de CO2. Eles definem quanto dióxido de carbono as fábricas de uma determinada empresa podem emitir na atmosfera. Se as emissões de CO2 de uma empresa ultrapassarem seu limite alocado, ela deverá comprar certificados adicionais para compensar a diferença. Direitos de poluição não utilizados podem ser vendidos. Em outras palavras, os certificados têm verdadeiro valor monetário, que atualmente custa 25 euros por tonelada de CO2, mas poderá aumentar para 60 euros no futuro.
Os países com florestas tropicais estão altamente interessados em entrar neste crescente mercado. Na próxima Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, em Copenhague em 2009, poderá ser traçado o curso para o desenvolvimento de um mercado de certificados florestais. Grandes companhias de eletricidade, como a RWE da Alemanha, já estão aguardando. “As florestas são uma parte do sistema global de comércio de emissões que nos interessaria”, disse Michael Fübi, o diretor de proteção climática da empresa. A empresa se beneficiaria ao atender as exigências de proteção climática mais rapidamente e a um custo mais baixo do que pela instalação de novas tecnologias. Mas a médio prazo, isto poderá não servir como um substituto para a modernização das usinas elétricas, disse Fübi.
Quanto dinheiro este sistema de certificados florestais geraria no final ainda não se sabe. Especialistas estimam que custaria US$ 10 bilhões por ano para realmente beneficiar as florestas do mundo. Caso contrário, seria bem mais lucrativo para os países tropicais derrubarem suas florestas para explorar a madeira.
“O corte de madeira produz US$ 100 milhões a US$ 500 milhões por ano em receita para Papua-Nova Guiné”, disse Kevin Conrad, e emissário especial de Papua-Nova Guiné para proteção climática e conservação, acentuando o dilema do país. É preciso oferecer ao país mais do que este valor para tornar a proteção das florestas uma proposta atraente, “caso contrário a floresta desaparecerá -e acontecerá muito em breve”.
Transformando matas em capital
No Brasil, a motosserra ainda está vencendo a conservação. Quase 20% dos 3,65 milhões de quilômetros quadrados da Floresta Amazônica do país já foram derrubados e transformados em pastos e plantações de soja. Após assumir o cargo em 2003, a ministra do Meio Ambiente do Brasil, Marina Silva, conseguiu reduzir a taxa de desmatamento de 28 mil para 12 mil quilômetros quadrados por ano. Ela introduziu novas regras que permitiam aos proprietários de florestas o corte de não mais que 20% de seus propriedades e impunham um congelamento de crédito aos infratores. Mas no começo do mês, Silva, um ícone do movimento global de proteção florestal, fez o anúncio surpreendente de que estava renunciando, dizendo estar cansada de “fazer o papel de um biombo verde” para o presidente Lula.
No momento, florestas mortas valem mais do que florestas vivas, e será necessário muito dinheiro para reverter isso. Mas há algumas poucas histórias iniciais de sucesso. O Banco Mundial, por exemplo, introduziu seu Fundo de Parceria de Carbono Florestal, um programa voltado a proteger simultaneamente o clima e o meio ambiente. Um dos projetos-modelo da parceria poderá em breve ser o de Hans Schipulle da Alemanha, que espera transformar a floresta tropical da Bacia do Congo em uma fonte de lucros.
Prevendo um crescente mercado para certificados florestais, o banco de investimento americano Merrill Lynch concordou recentemente em pagar para a província de Aceh, Indonésia, US$ 9 milhões por ano por quatro anos pela proteção da floresta tropical em sua reserva de Ulu Masen. A Canopy Capital, uma empresa com sede em Londres, gastou milhões para assegurar o valor que acredita que a floresta tropical de Iwokrama, Guiana, terá em breve para a humanidade. O diretor da Canopy, Hylton Murray-Philipson, explicou o conceito: “Ninguém pagaria nada por uma floresta intacta hoje, mas eu acredito que é extremamente provável que os mercados em breve terão uma visão diferente do valor da natureza”. Especialistas prevêem que o comércio dos ativos naturais de florestas, pântanos e recifes de corais poderia gerar US$ 10 bilhões em receita em 2010.
Tamanhas transferências financeiras globais podem realmente promover mudanças? “Assim que o comércio de CO2 se traduzir em grandes somas de dinheiro, a pergunta que inevitavelmente surgirá é quem de fato é o proprietário da floresta”, disse Tom Griffiths, que integra a organização de direitos humanos Forest Peoples Programme (programa dos povos da floresta). “São os investidores ou as pessoas que vivem na floresta?”
Futuras disputas de poder em torno dos escoadouros de carbono
Griffiths teme que um sistema de proteção florestal altamente lucrativo possa levar a disputas de poder em torno dos lucrativos escoadouros de carbono, que por sua vez resultariam em mais corrupção, especulação, tomada de terras e conflitos. A madeireira Asia Pacific Resources International, por exemplo, desmata floresta e drena mangues na Indonésia para plantação de novas árvores. De repente, a empresa lançou um projeto-piloto de CO2 no qual planeja restaurar alguns mangues. Mas o projeto cheira a golpe, porque a Asia Pacific só conseguirá embolsar os lucros do comércio de CO2 em conseqüência de já ter destruído grandes trechos do ecossistema.
Para assegurar diversidade biológica a longo prazo, as partes da Convenção sobre Biodiversidade também estão promovendo métodos clássicos de preservação. Há cerca de 100 mil reservas naturais ao redor do globo. Segundo um recente estudo do WWF, a comunidade mundial gasta entre US$ 6,5 bilhões e US$ 10 bilhões por ano em áreas protegidas. Isto pode soar como muito dinheiro, mas na verdade está muito aquém do que é necessário.
Especialistas estimam que pelo menos o dobro será necessário para proteger a natureza a longo prazo. Policiais ambientais profissionais precisam monitorar as reservas. A educação é crítica para ajudar as populações locais a encontrar novas formas de viver em harmonia com a natureza. Microempréstimos são necessários para ajudar as pessoas a implantarem novos modelos de negócios compatíveis com o ambiente natural.
Conectando países que são ricos em biodiversidade com aqueles que são ricos em dinheiro
Mas uma das metas mais imediatas deve ser a criação de reservas adicionais nos hot spots de biodiversidade do mundo. Flasbarth, o estrategista de conservação do BMU, nutre grandes esperanças por uma iniciativa alemã chamada LifeWeb. O programa visa reunir países com grande biodiversidade com aqueles com muito dinheiro.
“Todo país pode usar o sistema para especificar que áreas protegeria e a que preço. A esperança é de que as partes interessadas então ofereceriam um lance pelo direito de pagar pela conservação”, disse Flasbarth. A República Democrática do Congo, por exemplo, está viajando para a conferência em Bonn com uma oferta de colocar 140 mil quilômetros quadrados de floresta tropical sob proteção. Mas ela será capaz de atrair investidores para o projeto?
Os países membros da CDB planejam colocar 10% de todos os ecossistemas terrestres do planeta sob proteção até 2010, assim como 10% da superfície do oceano até 2012. É um plano ousado. A meta pode ser atingida em terra, apesar de que com grande esforço. Mas atingir essa meta nos oceanos é pura ilusão. Proteções rígidas só foram aplicadas a menos de 1% dos oceanos do mundo até o momento. De fato, os oceanos são onde os esforços internacionais de conservação e proteção de espécies têm fracassado mais evidentemente.
Declínio dos estoques de peixes
Alguns especialistas estimam que se a atual tendência de pesca excessiva continuar, a pesca oceânica comercial se tornará impossível até 2050. Enquanto isso, os países do mundo pagam mais de US$ 31 bilhões por ano para subsidiar a indústria pesqueira -e ao fazê-lo também pagam por um em cada cinco peixes pescados no mundo. Ao redor do globo, há cerca de 4 milhões de barcos pesqueiros caçando rotineiramente todo tipo de criaturas marinhas. Os especialistas dizem que para impedir a destruição das populações atuais, a frota pesqueira global teria que ser reduzida pela metade.
A pesca excessiva ameaça destruir ecossistemas inteiros. Segundo o estudo da Avaliação do Ecossistema do Milênio da ONU, 20% dos recifes de coral do mundo já foram destruídos, enquanto outros 20% estão seriamente comprometidos. O equipamento pesado usado pelas traineiras está destruindo bancos de corais no nordeste do Atlântico. Os pescadores de águas profundas estão constantemente arrancando as maravilhas naturais únicas das montanhas submarinas.
“Imagine se caçadores derrubassem florestas inteiras para pegar alguns poucos cervos”, disse Carl Gustaf Lundin, chefe do Programa Marinho Global da Iucn, “as pessoas ficariam ultrajadas”. Mas isto é precisamente o tipo de devastação causada pelo uso de redes de arrastão, explicou Lundin. “Muitas pessoas não têm idéia da destruição nos oceanos.”
Zoólogos exigem controles mais rígidos das traineiras para limitar a pesca ilegal. Acima de tudo, eles esperam ver a criação de zonas onde a pesca seja totalmente proibida. O conceito que prevêem envolveria zonas de pesca intensiva alternadas com regiões protegidas, onde peixes jovens poderiam crescer até a maturidade sem serem perturbados e as populações poderiam se recuperar. A comunidade internacional ainda hesita quando se trata de estabelecer reservas marinhas e poucas leis governam os altos-mares. Mas as opções estão gradualmente mudando quando se trata de águas territoriais dos países.
Um plano para o Caribe
A meta de uma iniciativa que atualmente ganha forma no Caribe, por exemplo, visa colocar 20% de todos os ecossistemas no Mar do Caribe sob proteção até 2020. Em jogo estão 5 milhões de hectares de águas repletas de recifes de coral, mangues densos e os chamados Buracos Azuis, cavidades submarinas, freqüentemente circulares, dentro dos atóis e que podem chegar a 200 metros de profundidade.
Detalhes do plano ambicioso, conhecido como Caribbean Challenge Marine Initiative, será apresentada em Bonn nesta semana. Os países que assinaram até o momento incluem as Bahamas, Granada, República Dominicana e São Vicente e Granadinas. Grupos de conservação como a Nature Conservancy (TNC), com sede nos Estados Unidos, também estão envolvidos. O esforço se concentra em fundos de conservação, cujos rendimentos pagariam por guardas, barcos de patrulha, pesquisa e ensino ambiental.
“Os fundos devem ser assegurados por longo prazo, caso contrário a idéia toda fracassará após alguns poucos anos de falta de fundos”, disse Eleanor Phillips, a diretora do programa para norte do Caribe do TNC. Ela ajuda a dirigir o projeto de seu escritório em Nassau, a capital das Bahamas. A cidade fica em New Providence, uma das ilhas do arquipélago das Bahamas. Os problemas de conservação enfrentados por grupos como o TNC estão concentrados em alguns poucos quilômetros quadrados em Nassau.
Os turistas, especialmente dos Estados Unidos, rotineiramente tomam a cidade. Eles vivem em hotéis de concreto ou em comunidades residenciais fechadas. Florestas de mangues inteiras, disse Phillips, são derrubadas para abrir espaço para as casas dos ricos. Mas as florestas são espaços de procriação para muitas espécies de peixes caribenhos. Diariamente no porto de Nassau, barcos pesqueiros trazem toneladas de garoupas e de concha rainha caribenha (conc), que são vendidos como especialidades da ilha em cada barraca e restaurante.
As duas espécies antes eram abundantes. As águas tropicais costumava estar repletas de cardumes enormes de garoupa. Em poucas horas, pescadores trazem centenas do peixe grande, que podem pesar até 25 quilos. A concha rainha era tão abundante que os moradores da ilha podiam colher uma refeição noturna completa mergulhando por alguns minutos na água azul do mar. Agora, pescadores como Eudie Rolle, freqüentemente encontrado sentado no cais do porto de Nassau atrás de uma mesa coberta com saborosos moluscos marinhos, se queixa de quão difícil está encontrar as belas conchas rosadas. Rolle pesca há 57 anos. “No passado”, ele disse, “bastava pegarmos as conchas rainhas em água na altura da cintura. Mas agora meus filhos precisam navegar 240 quilômetros para encontrar alguma”.
“Nós estamos muito preocupados”, disse Michael Braynen, do Departamento de Recursos Marinhos do país. “A longo prazo, nós precisamos reduzir o número de pescadores nas Bahamas. Mas então teremos que oferecer alternativas para eles.”
Equilibrando proteção da natureza com meio de vida
Este é o problema por trás. Aqueles que buscam proteger efetivamente a natureza, tornando zonas do oceano fora dos limites e permitindo que as florestas permaneçam intocadas, devem assegurar que as pessoas que dependem delas para seu sustento tenham novas oportunidades. A solução nas Bahamas se chama ecoturismo.
Andros fica a um vôo de 15 minutos de Nassau. A ilha, com aproximadamente 170 quilômetros de extensão, é lar de cerca de 8 mil pessoas e a terceira maior barreira de corais do mundo fica além de sua costa leste. Moradores da ilha como Peter Douglas levam os poucos turistas da ilha a passeios por bancos de corais coloridos, luminescentes, e penhascos submarinos. Os ilhéus empreendedores desenvolveram ecoalbergues na mata atrás da costa. Prescott Smith, por exemplo, oferece férias para pesca com vara para executivos ricos. Por US$ 1.600 por dia, seus clientes podem aprender a lançar elegantemente suas iscas nos mangues da ilha para pescar ubarana-rato ou camurupim. Mas em vez de ficarem com sua pesca, eles aderem à política de “pescar e soltar”.
Os ilhéus estão defendendo seu pequeno paraíso contra investidores em turismo de massa. Eles encontraram formas de lucrar com a natureza sem destruí-la. “Cientistas, governos e grandes grupos de conservação estão combatendo os moradores locais”, disse Prescott Smith. “Eles chegam aqui e dizem: vocês são o problema.” Mas a verdadeira conservação, segundo Smith, deve incorporar a população local. “Apenas se as pessoas daqui realmente sentirem que seus próprios interesses estão em jogo é que elas protegerão o país.”
De fato, enquanto o mundo se reúne para discutir a CDB, esses projetos de pequena escala, de baixo para cima, podem ser a melhor esperança para o mundo. Essa abordagem de base é especialmente válida em locais onde a pobreza é disseminada. Os pobres não têm outra escolha a não ser viver dos recursos da natureza e, se necessário, destruí-los. Esta também é uma questão que será discutida na conferência de Bonn nos próximos dias.
Mas acima de tudo, os membros da CDB devem tentar estabelecer um foco para os próximos dois anos. A 10ª Conferência das Partes da CDB ocorrerá em 2010, presumivelmente no Japão. Até lá, os grupos esperam ter implantado muitas de suas metas ambientais ambiciosas.
“Em Bonn, é especialmente importante que as partes não bloqueiem umas às outras em questões importantes”, disse o diretor de conservação Flasbarth, do BMU. Os pontos de atrito são previsíveis. Quando a CDB surgiu, por exemplo, muitas partes queriam ver o estabelecimento de mecanismos para assegurar um equilíbrio justo de benefícios entre os países industrializados e os países em desenvolvimento. A idéia era de que todos deveriam poder se beneficiar dos tesouros genéticos do planeta. Ao mesmo tempo, argumentavam as partes, as populações dos países de origem das espécies lucrativas também deveriam compartilhar os lucros.
Mas nos 16 anos desde que ocorreu a Cúpula da Terra do Rio, as regras para tratar deste problema ainda não foram estabelecidas. Os países em desenvolvimento nutrem suspeitas, porque biopiratas já saquearam parte de seus tesouros biológicos. No início de maio, por exemplo, foi noticiado que moradores da aldeia sul-africana de Alice estavam contestando duas patentes, de propriedade da empresa alemã Dr. Willmar Schwabe Arzneimittel, para produção da droga Umckaloabo. O Umckaloabo é feito das raízes da Capeland pelargonium. Os moradores locais alegam que preparam uma solução a partir da planta há séculos, que utilizam para tratar resfriados.
Eles alegam que com base neste conhecimento, a Spitzner, uma subsidiária da Schwabe, agora produz o Umckaloabo. “As patentes são ilegais e devem ser anuladas”, disse Mariam Mayet, do Centro Africano para Biossegurança. Além disso, disse Mayet, a empresa deve à população de Alice um percentual dos lucros.
Outro motivo de discussão é o boom dos biocombustíveis. A chanceler alemã Merkel fez pouco para reduzir as tensões quando assinou recentemente um tratado de energia com o presidente Lula do Brasil. Os brasileiros vêem a preocupação alemã com a Floresta Amazônica como uma tentativa de controlar o mercado de biocombustíveis. Para produzir o bioetanol, eles planejam plantar cana-de-açúcar em uma área quase tão grande quanto o Reino Unido até 2025. “Se dissermos aos brasileiros que boicotaremos isso, as negociações em torno da proteção da floresta tropical terão um fim abrupto”, alertou Gabriel, o ministro do Meio Ambiente alemão. A simples tentativa de colocar o assunto da bioenergia na agenda da conferência de Bonn foi recebida com indignação em Brasília.
O preço de conter a extinção: US$ 46,5 bilhões
Resumindo, um alto nível de habilidade diplomática será necessário em Bonn para promover o avanço de uma questão básica: quem pagará quanto e pelo quê? O custo anual de reduzir a extinção de espécies até 2010 é estimado em US$ 46,5 bilhões. Os chefes de Estado da UE são ainda mais ambiciosos e querem impedir totalmente a perda de biodiversidade na Europa até 2010. Mas o WWF acredita que esta meta só será atingida “a um custo adicional significativo”.
Vencer a crise provavelmente exigirá uma grande variedade de modelos de financiamento. Se concentrar na biodiversidade como fonte de novas drogas e cosméticos é uma possibilidade, o comércio de certificados de CO2 é outra. Patrocinadores privados também podem ter um impacto importante. O grupo de conservação TNC, por exemplo, administra uma fortuna de US$ 5,4 bilhões, parte dela doada por patronos ricos. Apenas em 2007, a TNC gastou US$ 566 milhões na compra de terras e na proteção delas para futuras gerações.
Outros escolheram realizar algo semelhante a megalomania colonial e controlar pessoalmente o destino da natureza. A Patagônia, por exemplo, parece estar firmemente nas mãos de bilionários. Por anos, Douglas e Kris Tompkins, os co-fundadores das empresas de moda North Face e Patagonia, se tornaram proprietários de milhares de quilômetros quadrados de território virgem na região. Alguns de seus vizinhos são o especulador George Soros, os magnatas da moda Luciano e Carlo Benetton, os atores Christopher Lambert e Sharon Stone, e o fundador da CNN, Ted Turner.
Os não tão fabulosamente ricos podem adquirir ilhas tropicais ou pedaços do tamanho de um hectare de corredores de animais selvagens por meio de organizações como TNC ou o World Land Trust.
O economista Pavan Sukhdev também recomenda a adoção, fora um imposto de valor agregado, de um tipo de imposto de redução de valor nos países ricos -uma forma de compensar os danos ambientais associados à produção de um carro ou de um refrigerador. As receitas desses impostos poderiam fluir diretamente para projetos de conservação de grande escala.
Sukhdev também quer forçar as empresas e consumidores a assumirem uma maior responsabilidade. “Uma empresa de café poderia cobrar uma pequena sobretaxa e investir dinheiro na floresta tropical vizinha à suas plantações”, ele disse. Quando se trata de alimentos orgânicos, os consumidores já estão preparados para pagar um preço mais caro. “Então por que não criar um rótulo ‘Eco-Plus’ para testar se estão dispostos a pagar um valor adicional para financiar projetos de conservação?”
Atualmente, as pessoas já podem tornar suas viagens climaticamente neutras ao compensarem as emissões de aviões e carros alugados por meio de empresas como a firma alemã Global-Woods. A empresa usa a receita para financiar programas de reflorestamento na Argentina, Paraguai e Uganda. Outro exemplo é a rede de hotéis Marriott. A empresa pagou US$ 2 milhões para o Estado brasileiro do Amazonas para proteger de madeireiros os 589 mil hectares da reserva do Juma. Em troca, a Marriott recebe créditos de CO2, que então são oferecidos para venda aos hóspedes do hotel para que possam continuar relaxando nas saunas de seu hotel sem terem dor na consciência.
Especialistas em pesca, por outro lado, recomendam a compra apenas de peixe com eco-rótulo do Marine Stewardship Council (conselho de manejo marinho). Qualquer um que quiser comer criaturas marinhas de forma ambientalmente responsável no futuro terá que se virar sem espécies como linguado-gigante (alabote) ou solha. Quando se trata de madeira, a maioria dos conservacionistas reconhece a certificação concedida pelo Forest Stewardship Council (conselho de manejo florestal).
Segundo estimativas, dentro de apenas dois anos os consumidores de todo o mundo poderiam gastar US$ 75 bilhões em peixe, madeira, ervas medicinais e alimentos produzidos de forma boa para o meio ambiente. Segundo o BfN, cada lar na Alemanha pagaria em média 100 euros por ano para preservar a biodiversidade. Isto representaria um total de 3,5 bilhões de euros. “Isto representa três vezes mais dinheiro do que temos ao nosso dispor até o momento para proteção de espécies e habitats”, disse Burkhard Schweppe-Kraft, um economista da BfN.
Se cada vez mais é atribuído valor às paisagens naturais, elas poderiam perder seu papel como “os depósitos de lixo gratuitos do mundo”, como colocou Gordon Shepherd da WWF. Mas Shepherd também alerta que adicionar valor à natureza “não é uma panacéia”. Na verdade, isso gera muitas questões. Por exemplo, os países em desenvolvimento teriam que provar que sua meta não é simplesmente conseguir dinheiro adicional, mas que existe seriedade na proteção da diversidade.
Os países industrializados, por sua vez, provavelmente serão acusados de meramente orquestrar uma enorme fachada verde para uma política industrial fracassada, que por décadas tratou a natureza como uma loja self-service barata. Os mecanismos da economia global são realmente adequados para assegurar a diversidade?
“A conservação baseada puramente no lucro poderia fracassar em locais onde, por exemplo, ela buscar proteger animais que entram em choque com nossos interesses”, escreveu Douglas McCauley, da Universidade de Stanford, na revista “Nature”. Segundo McCauley, a natureza que não causa mal, mas também não propicia nenhum benefício ao homem, também fracassaria no teste econômico.
Quando lobos matam ovelhas ou quando cormorões provocam caos em lagos de peixe comerciais, é apenas a natureza em ação. Por outro lado, as pessoas dificilmente pagarão por conservação baseada apenas em seu benefício ao homem.
A economia e a preservação da diversidade freqüentemente se encontram diametralmente opostas. Há cerca de 50 anos, por exemplo, a perca do Nilo foi introduzida deliberadamente no Lago Vitória, no Leste da África. Pescadores dos países adjacentes ao lago, Uganda, Tanzânia e Quênia permanecem entusiásticos com a chegada do peixe comestível até hoje, porque ajudou a alimentar um grande crescimento econômico. Mas os recém-chegados representaram um desastre ecológico para a população diversa e única do lago de haplochromine cichlids, levando ao que o biólogo social Edward Wilson já chamou de “a onda de extinções mais catastrófica na história recente”.
Tornar o valor econômico dos ecossistemas a única base para conservação significaria que “a natureza só vale a pena ser protegida se também for lucrativa”, alertou o biólogo McCauley, se referindo ao risco de um declínio repentino de valor.
O que acontecerá às florestas tropicais, que agora são vistas como um sistema de armazenamento de CO2, se uma solução técnica mais barata for encontrada para eliminação dos gases do efeito estufa? As florestas então seriam liquidadas, para empregar um termo econômico? O valor da natureza -sua beleza, sua importância cultural e evolucionária- não pode ser estimado, disse McCauley. “A longo prazo, nós obteremos mais progresso se apelarmos aos corações humanos e não aos seus bolsos.”
Em outras palavras, cabe ao homem decidir em que tipo de mundo ele deseja habitar. Qualquer um familiarizado com a natureza selvagem sabe o que será perdido caso a destruição prossiga não contida. Quando a comunidade internacional conseguir concordar em um modelo de negócios para salvar a biodiversidade, poderá ser tarde demais.
Nós também devemos considerar a necessidade de preservar “refúgios para a alma”, disse Beate Jessel, a presidente da BfN. Os parceiros da CDB devem também levar isto em consideração caso desejem evitar de se perderem na selva de acordos internacionais e sensibilidades bilaterais em Bonn.
Será que negociaremos até a morte? As palavras devem rapidamente ser seguidas por ações. O economista indiano Pavan Sukhdev vê a situação como muito séria. Nós enfrentamos uma decisão, segundo Sukhdev, sobre se nossa civilização sobreviverá ou não.
Sukhdev esteve recentemente em Berlim para um encontro com Gabriel, o ministro alemão do meio ambiente, para discutir a crise. O ministro se encontra do outro lado da desolada praça Alexanderplatz, cruzando um deserto cinza de concreto. “É o lugar ideal para um ministério do meio ambiente”, disse Sukhdev. “Você vê todo dia as coisas que deseja prevenir.”
Reportagem publicada pelo Der Spiegel, pelos reporteres Philip Bethge, Rafaela von Bredow e Christian Schwägerl.
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